Meus ídolos em carne e osso

Por Érico Assis


Conta Mark Waid, escritor de quadrinhos dos EUA, que uma vez foi convidado a fazer uma sessão de autógrafos na comics shop de uma cidadezinha em Vermont. Os proprietários da loja buscaram-no no aeroporto. Antes de levá-lo à loja, resolveram dar uma volta pela cidade e apresentaram pontos turísticos. Como o passeio estava demorando, o escritor começou a perguntar sobre o horário da sessão. Os anfitriões desconversavam. Waid insistiu. Eles tiveram que confessar.

Não havia sessão de autógrafos. Eles não eram donos de comics shop. Nem havia comics shop na cidade. Eram dois fãs que haviam feito uma vaquinha com os amigos para pagar passagem e estadia do autor predileto. Queriam passar um dia com ele.

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Tento mas não consigo entender a necessidade que temos de conhecer os escritores, os artistas, a carne e osso das pessoas que criaram as coisas de que gostamos. Seria para comprovar que a pessoa existe? Seria pela chance de conversar com um ser de intelecto superior? Seria para sentir o cheiro do outro?

A incógnita é maior porque também me encanta a ideia de pisar o mesmo chão que um autor querido. Invariavelmente, porém, a relação não passa do assoalho em comum. Se encontro um ídolo, meu cérebro assume velocidade Homer Simpson. Caso eu já tivesse hipotetizado um encontro com a figura e o que eu diria, a amnésia apaga tudo. Fica só a sensação de que não há o que falar com o ser do intelecto superior. Quando me ocorre uma solução cool — dizer “Obrigado. Por tudo.”, apertar a mão e tchau —, a figura já está longe.

Uma vez, uns anos atrás, consegui o e-mail de um escritor cujos livros estão entre os inestimáveis que mudaram a minha vida. Era a chance de dizer isso a ele, de explicar por quê, de agradecer e, vai-quem-sabe, até receber uma resposta para ser impressa, emoldurada, admirada e entendida só por mim. Estou pensando até hoje em como escrever este e-mail. Ele já deve ter trocado de endereço.

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E a chance de decepção? Pela lógica, ela é grande. A obra que você admira é provável resultado de horas de investimento mental, tripas, suor e sangue do autor. O autor é uma pessoa.

Enquanto pessoa, ele/ela provavelmente prefere estar entre outras pessoas conhecidas do que entre hordas de estranhos. Ele/ela não é o personagem que você admirou, não defende necessariamente as mesmas opiniões que você louvou na obra, possui necessidades básicas maslowianas, pode ter discutido com o namorado na hora do almoço e pode ou não tomar banho todos os dias. Tendo acumulado algumas horas entre fãs, ele/ela já deve ter escolhido a estratégia de defesa mais apropriada a seu gênio: a timidez modesta, o júbilo exacerbado, a frieza arredia. São pessoas, afinal. Fora o brilhantismo, é um ser humano biologicamente bem parecido com você. Só que o brilhantismo está na obra, não na carne nem no osso.

A Vanessa Barbara, no último texto do blog, disse que preferia não ter conhecido pessoalmente certos autores, e que o mau-caratismo de alguns leva ela a não lê-los. Também tive a infelicidade de conhecer gente com quem prefiro não ter mais contato. São as decepções que eu carrego. Ainda consigo, porém, considerar que a obra é uma coisa, a pessoa é outra — posso gostar de uma sem gostar da outra. Ênfase no “ainda”.

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Na quarta-feira, começa o 8º Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ, em Belo Horizonte. Vou pisar no mesmo chão que Boulet, Peter Kuper, George Pérez e outros que consumo vorazmente mas não conheço pessoalmente. O Laerte também vai estar por lá — e o que dizer ao Laerte que não seja vazio, que não seja igual a tudo que ele já ouviu, que não seja babaca? Vou me contentar com o mesmo chão.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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