“Middlebrow”, essa palavrinha

Por Carol Bensimon

SDIM3007

Alguém me pergunta por que hoje tantos escritores de destaque são pessoas nascidas no Rio Grande do Sul. Abre-se uma brecha para podermos incluir Daniel Galera e Daniel Pellizzari: ou escritores que passaram grande parte de suas vidas em solo gaúcho. Não é a primeira vez que perguntam isso, e sobretudo não é a primeira vez que alguém precisa, ou deseja, ensaiar uma resposta à questão. Outros muito mais confiáveis, estudiosos e perspicazes que eu já o fizeram.

Nas últimas semanas, eu ouvi um bocado de teorias sobre o bom momento da literatura brasileira: enquanto eu estava cozinhando, depois na salinha dos fundos de uma livraria (distribuição de bombons Nestlé), num auditório (mais distribuição de bombons), numa mesa de bar (tomando sangria com a menina do punk rock), num café em pleno feriado (suco de morango com a estudiosa alemã), e finalmente nas alamedas da Feira do Livro de Porto Alegre em uma segunda-feira tranquila. Vamos dizer que a soma dessas conversas criou uma linha de pensamento interessante. Naturalmente, em algum momento, esses palpites também tentaram explicar a alta incidência de escritores gaúchos no cenário “literatura brasileira contemporânea”.

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Estou mexendo panelas enquanto assisto a um vídeo com Luciana Villas-Boas. Ela diz que, há décadas, a literatura brasileira se distanciou do público, perdendo espaço no imaginário e na cultura popular do país. Parte seria culpa de um período que valorizou muito uma literatura experimental, vanguardista, o que, como consequência, acabou por afastar o leitor médio (talvez o leitor médio tenha ido ver televisão, eu acrescentaria). Segundo Villas-Boas, os departamentos de Letras teriam, nesse sentido, alguma culpa no cartório, sobretudo pela influência que têm junto à crítica literária midiática. Acho que só faltou oferecer um naco de responsabilidade às editoras. No mais, é por aí.

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Eu e André Conti, meu editor, visitamos algumas livrarias de São Paulo a fim de apresentar meu novo romance aos livreiros. Combinamos que André vai falar um pouco do cenário brasileiro atual. Depois, ele me passa a palavra, e eu comento alguma coisa sobre Todos nós adorávamos caubóis (a trama, os temas, o processo, etc). Fazemos isso algumas vezes. Quatro, para ser exata. E acontece que nós dois somos um pouco chatos com essa coisa de repetir o discurso; só o fato de sabermos que uma pessoa ouviu aquilo antes nos deixa imensamente constrangidos. Mas tudo bem, it’s a dirty job, but someone’s got to do it. Com a fala do André, aprendo o que é lowbrow (a literatura comercial e ruim), highbrow (a “alta literatura”), e então tudo que há entre esses extremos, e que vem a ser propriamente o foco da fala do André: middlebrow.

Jonathan Franzen, Jeffrey Eugenides, Jonathan Safran Foer, Zadie Smith, todos esses estariam nessa fatia intermediária (segundo a wikipedia, que consultei mais tarde, séries como Breaking Bad também seriam consideradas middlebrow).

Segundo André, o Brasil passou algumas décadas trabalhando nas pontas. Havia literatura rasa, sim, havia alguma coisa, e havia, no outro lado, escritores brincando com a forma, tentando romper convenções, escrevendo para outros escritores, pouco interessados em contar uma história. Os últimos anos teriam mudado um pouco esse cenário, injetando na literatura brasileira uma série de escritores middlebrow. Ainda segundo as palavras amáveis do André, esses escritores são muito cuidadosos com a forma, mas não abrem mão de prender a atenção do leitor com uma boa trama.

Na terceira ou quarta sessão com os livreiros, eu me permiti acrescentar que os escritores middlebrow brasileiros provavelmente foram mais influenciados por escritores middlebrow norte-americanos que pelos seus antecessores brasileiros. Foi algo que me ocorreu na hora e que pareceu fazer sentido depois.

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Semana seguinte. A historiadora cuja dissertação versou sobre o punk nova-iorquino está interessada em entender o cenário atual da literatura brasileira. Marcamos de conversar. Em alguns minutos no bar, entre cogumelos absolutamente gordurosos e difíceis de segurar, fica bem claro que ela enxerga, avalia e compreende o que está acontecendo melhor do que qualquer um de nós. Ela também me conta o que disseram outras pessoas do meio. Uma delas tem uma teoria interessante sobre gaúchos. Segundo essa pessoa, os escritores do Rio Grande do Sul seriam muito influenciados pelos colegas norte-americanos, o que daria a sua literatura um certo ar “internacional”.  Conto a ela o que o que disse André Conti sobre middlebrow e afins. Digo: acho que estamos descobrindo alguma coisa. Peço uma taça de sangria. Nesse bar, 80% das pessoas são mulheres. Mulheres adoram sangria, homens acham frescura.

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A pesquisadora alemã está em Porto Alegre e quer me entregar exemplares de uma antologia lançada durante a Feira de Frankfurt. Há um conto meu nessa antologia e a edição ficou muito bonita. Não entendo nem uma palavra impressa. Ela pede guaraná. Estrangeiros adoram guaraná. Nós ficamos falando sobre literatura brasileira, evidente. Essa antologia, organizada por ela, procurou contemplar todas as regiões do Brasil. O índice é uma espécie de percurso norte-sul. Meu conto é o penúltimo.

A pesquisadora alemã não por acaso se interessa por nosso país; ela passou parte da infância em Porto Alegre, ali perto de onde estamos, no bairro Moinhos de Vento. Mas ela já viajou pelo Brasil inteiro e portanto está muito mais habilitada do que eu para traçar comparações, na busca por similaridades e diferenças. Naquele ponto, eu divido com a alemã tudo que ouvi nas últimas semanas, e fico ansiosa para saber se sua percepção se juntará às outras, ou se o conjunto de suposições logo virá abaixo.

Sim, ela concorda com o que foi dito antes, inclusive com a parte sobre os gaúchos. É verdade que o norte e o nordeste têm temas mais “brasileiros” (ou talvez o que se entenda por “temas brasileiros”). Eles parecem mais fechados em sua cultura, enquanto, no sul, há realmente uma tendência à internacionalização (do Nirvana de Michel Laub às minhas personagens que viveram em Paris e Montreal). Parte disso se explicaria por uma questão econômica: talvez os escritores do sul tenham tido mais oportunidades de sair do país, experiências essas que acabam entrando, de uma maneira ou outra, em sua literatura. A influência da cultura pop internacional, por sua vez, seria explicada por uma falta de marcas regionais?

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Se você pensou em chimarrão e bombachas, essa pergunta que acabo de fazer pode parecer absurda. Falta de cultura regional, como assim? Eu achei que estávamos falando de um dos estados mais bairristas da nação.

Bem, é nessas horas que eu me lembro de minha visita ao Museu Casa do Pontal, no Rio de Janeiro. Um lindo museu de arte popular brasileira, com mais de cinco mil peças. Alguma peça do Rio Grande do Sul? Nah. Nem uma mísera feita no Rio Grande do Sul.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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23 Comentários

  1. […] Citados durante o programa:Texto da Carol Bensimon citado no programa […]

  2. […] Citados durante o programa: Texto da Carol Bensimon citado no programa […]

  3. […] ter se “aproximado” mais do público em seus últimos livros. A própria Bensimon usou o termo Middlebrow para categorizar seu romance Todos Nós Adorávamos Caubóis. Já o Barba Ensopada de Sangue, do […]

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