Noite de estreia #1 – Antonio Prata e Gregorio Duvivier


(Crédito: Renato Parada)

Dia 7 de novembro aconteceu no Cine Joia a Noite de Estreia, primeira edição do novo formato de noite de autógrafos da editora Companhia das Letras, com o lançamento dos livros Nu, de botas, de Antonio Prata, Ligue os pontos, de Gregorio Duvivier. Veja aqui mais fotos do evento, e leia abaixo os textos que os escritores fizeram como apresentação.

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Gregorio por Antonio Prata

Uns anos atrás eu tava na sala de espera do oftalmologista, abri uma piauí e me deparei com o seguinte poema:

alguns lugares pertencem a tempos
específicos e jazem enclausurados
numa data como certos becos
de copacabana que moram em 1993
eternamente e de onde se pode ligar
de orelhões com fichas e comprar
revistinhas do cascão por cinco mil cruzeiros.

Eu fiquei muito impressionado. Primeiro: com a beleza estranha daqueles versos. Como um poema que contém Copacabana, orelhão e revistinhas do Cascão podia ser tão melancólico?

A segunda coisa que me chamou a atenção foi o nome do autor: Gregorio Duvivier. Um nome de livro de história, de Libertador da América, tipo Simón Bolívar. (Ou, no mínimo, o nome de um sambista do início do século passado: eu não estranharia nada se descobrisse o hino de um time já extinto, de 1932, o Laranjeiras Futebol Clube, digamos, escrito por Lamartine Babo e Gregorio Duvivier.)

Bom, passam-se alguns anos. Eu tô no bar Balcão e entra o Flávio Moura — amigo que, entre outros feitos mais notáveis, foi o editor do Nu, de botas. O Flávio vinha da Mostra de Cinema e tava empolgado com um filme chamado Apenas o fim. Lembro dele falando do protagonista: “o moleque é um Woody Allen, Prata! Um Woody Allen carioca, de vinte anos!” Umas semanas depois, consegui uma cópia do filme e descobri, feliz, que o Woody Allen era o dono daquelas revistinhas do Cascão, enclausuradas eternamente num beco de Copacabana, em 1993, o Libertador da América, o parceiro do Lamartine Babo, Gregorio Duvivier.

De lá pra cá, fui acompanhando a trajetória do Gregorio, meio de longe, mas atento, vendo-o aqui e ali, no cinema e na televisão, até que no ano passado, finalmente, esse rosto se tornou onipresente na minha vida, assim como na de milhões de brasileiros, através do Porta dos Fundos.

Aparentemente, um canal de sketches de humor e um livro de poesias são realidades tão distantes quanto as revistinhas do Cascão e a melancolia. Mas só aparentemente, porque o que o Gregorio faz, o tempo todo, é misturar humor e poesia, superficialidade e profundidade, peso e leveza. Você acha que ele tá falando dos Cavaleiros do Zodíaco, mas tá falando de amor. Ele te leva até o extremo do lirismo e inverte o clima com o zumbido de um ar condicionado.

Esse talento do Gregorio, de encontrar as pepitas da beleza e do humor garimpando na areia da praia ou nos becos de Copacabana é de fundamental importância no processo civilizatório. Tô falando sério. Num país em que ninguém lê, a literatura vai perdendo os pés do chão. Começa a se vestir de fraque, cartola e abotoaduras. Sai por aí cheia das mesóclises. Claro, é mais fácil ficar bonita maquiada, de brinco, pulseira e colar. Difícil mesmo é ser estonteante de cara lavada. É fazer poesia com revistinha do Cascão, dentaduras, sabonete Araxá, lagartas listradas ou miojos. Mas, quando você consegue pegar o lirismo pela orelha, assim, numa rua de Botafogo, entre os ambulantes da praia, no caixa do supermercado, a poesia desse momento (como diria outro poeta, mestre em tirar leite de pedra) inunda a nossa vida inteira.

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Eu e o Prata (por Gregorio Duvivier)

Fiquei melhor amigo do Prata sem que ele soubesse. Li o livro Douglas e outras histórias, presente do Fernando Caruso, amigo meu que já era melhor amigo do Prata sem que ele soubesse. Não parecia que eu tinha lido o livro, parecia que eu tinha sentado num bar com o Prata e ele tinha me contado o livro inteiro. E falando assim parece que foi chato, mas não foi. Foi muito legal. Tanto é que a gente ficou melhor amigo à primeira vista. Sem que ele soubesse, é claro.

Eu reconheci nele o melhor amigo que me faltava desde que eu e meu então melhor amigo começamos a ver outras pessoas, porque a relação se desgastou, muito pela questão da presença física. Não demorei a perceber uma coisa: quando você não conhece alguém, é muito pouco provável que vocês briguem. O grande problema de uma amizade é você conhecer a outra pessoa. Durante anos, cultivei essa amizade platônica, que é um tipo de relação que eu recomendo.

Tive algumas oportunidades de conhecê-lo, mas preferi não chegar às vias de fato, porque isso poderia abalar a nossa relação. Vai que ele tem 1,90m. Eu não posso andar do lado de um cara de 1,90m. Eu sou muito criterioso em relação à altura das pessoas com quem eu ando. Na amizade platônica, a pessoa tem a altura que você quiser. Você só tem os benefícios da amizade, sem aquela obrigação de ir no chá-de-panela, ou liberar no candy crush. Caso vocês estejam se perguntando, ele não é o meu único amigo platônico. Tenho alguns, entre eles o Paul McCartney e o Fred do Fluminense. Mas o Prata era o mais íntimo, mesmo.

Percebam que eu já chamava ele de Prata como se eu o conhecesse. Sim, porque chamar pelo sobrenome é sinônimo de intimidade. Parece que você estudou na escola dele e tinha vários antonios e ele acabou ficando conhecido como o Prata. Quando a pessoa quer fingir que é amiga de alguém dá logo um apelido. “Eu tava tomando um chope com a Dilminha”. Eu duvido que alguém chame a Dilma de Dilminha. Agora, se alguém disser: “Eu tava tomando um chope com a Rousseff”, as pessoas vão falar: “Caramba, ele é amigo da Dilma”. Se bem que não. Porque acho que ela não toma chope. E eu não vejo porque alguém iria tirar essa onda. Péssimo exemplo. Mas resumindo: fomos muito amigos, eu e o Prata. E durou um tempo. E foi bom enquanto durou.

Até o dia em que a Companhia das Letras sugeriu que a gente lançasse o livro juntos. E me mandaram o livro Nu, de Botas. E descobri que a gente não era melhor amigo. A gente era a mesma pessoa. Li as memórias dele com a impressão estranhíssima de que eram as minhas memórias. E eu garanto que isso vai acontecer com você também. Por mais louca e específica que tenha sido a vida do Prata, por mais louca e específica que tenha sido a sua vida, quando o Prata fala da vida dele, parece que é a sua vida, parece que ele é você e sempre foi.

Resultado: o livro me fez rir e chorar e depois rir de novo do ridículo que foi chorar no aeroporto e chorar pelo ridículo que é ficar rindo e chorando no aeroporto e acabar perdendo o voo e pensar: que bom, vou poder rir e chorar mais um pouquinho. Volta e meia tinha que fechar as páginas e lembrar da minha própria vida, pra não misturar com a vida dele (na verdade não fechava as páginas porque recebi o livro como um arquivo pdf por e-mail e li no celular mesmo, mas “fechava as páginas” é muito melhor do que “fechava o aplicativo”). Entrei no voo com o “livro” nas mãos e li até o momento em que a aeromoça me pediu pra “desligar” o livro. Fiz o que todo o mundo faz. Fechei o livro apertando o botão em cima dele mas não tempo o bastante pra desligar. Assim que ela virou liguei o livro de novo e continuei a ler.

Cheguei no Rio determinado a terminar essa relação platônica. Em primeiro lugar, é muito narcisismo você ser melhor amigo de você mesmo. Em segundo lugar, a gente iria se conhecer. Poucas amizades platônicas resistem ao conhecimento do objeto “amigado”.

Aí a gente se conheceu. E parecia que a gente já se conhecia há muito tempo. Porque a gente já se conhecia há muito tempo. E tem coisas que a amizade platônica não pode te dar. Ele tem 1,69m, igualzinho a mim. Na verdade ele tem 1,68m e mente que tem 1,69m. Igualzinho a mim. Viva a amizade. A platônica, e as outras.