Notas para um obituário

Por Tony Bellotto

Lou Reed
1 – Lou Reed foi o mais literário dos compositores de rock. Não apenas nos aspectos obviamente “literários” das canções – letras, temas – mas na música em si. A maneira como Lou cantava e, principalmente, o jeito com que tocava guitarra, é literatura pura.

2- Para que se cheque a veracidade da afirmação anterior, basta ouvir as guitarras de Lou. Em vários de seus discos ele anota na contracapa, ou no encarte, em que lado do estéreo suas guitarras podem ser ouvidas. Por que faz isso? Para que se tenha certeza sobre para onde pende a literatura.

3- Se ainda restam dúvidas sobre a literariedade da música de Lou Reed, recomenda-se a audição dos discos gravados por Jack Kerouac. O rei do Beat gravou alguns discos entre 1958 e 1959, na esteira do sucesso de seu romance seminal On The Road, publicado em 1957. Esses discos foram gravados pela Verve e reeditados pela Rhino records. Podem ser encontrados até hoje nas boas casas do ramo e em sebos digitais. Nessas gravações, acompanhado por músicos de jazz, Jack declama poemas e improvisa excertos de prosa tóxica ao som da música. O que Kerouac consegue como efeito é apenas o rascunho do que Lou Reed realizou a partir do final da década de 1960, trocando o jazz pelo rock. Pode-se definir Lou Reed como um beat extemporâneo que, de certa forma, conseguiu consumar na música a experiência literária da beat generation.

4- Em seu maior sucesso, Walk on the Wild Side, Lou Reed enumera personagens do underground Nova Iorquino, gente que frequentava The Factory, o estúdio de Andy Warhol nos anos 1960: Holly Woodlaw, Candy Darling, Little Joe Dallesandro, “Sugar Plum Fairy” e Jackie Curtis. A levada jazzy da canção evoca o universo beat enquanto Lou narra as andanças dos personagens por uma Nova Iorque mítica e sombria. Walk on the Wild Side é fina literatura.

5- Lou Reed foi amigo do poeta Delmore Schwartz, seu professor na Universidade de Syracuse. No disco “The Blue Mask”, lançado em 1982, Lou gravou uma música que homenageia o poeta, morto em 1966. Dizem os versos iniciais de My House:

“A imagem do poeta está na brisa
Gansos canadenses voam sobre as árvores
Uma bruma paira gentilmente sobre o lago
Minha casa é muito bonita à noite

Meu amigo e professor ocupa um quarto vago
Ele está morto – em paz enfim o Judeu Andarilho
Outros amigos colocaram pedras em seu túmulo
Ele foi o primeiro grande homem que conheci

Sylvia e eu pegamos nossa tábua de Ouija
Para discar por um espírito – pelo quarto ele voou
Ficamos felizes e impressionados com o que vimos
Flamejando apareceu o fino e orgulhoso nome Delmore”

6- Lou Reed agora ocupa um quarto vago em minha casa.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

4 Comentários

  1. Beto Palaio disse:

    Lou is dead… Houve esse rumor antes dos fatos reais… As versões de sua morte, há uns dois anos, davam até detalhes do fato… Algo como “Revolution 9” tocada ao contrário onde se ouvia “Se liga, cara… Lou is dead”… Agora Lou nos deixa de fato e o silêncio foi enorme… Lou is not dead… Jamais!

  2. Jersey disse:

    Ágil, belo e sensível.

  3. maria emilia disse:

    um quarto vago aqui em casa também acabou de ser ocupado. (tony, estou adorando esse seu estilo drops numerados um a um – na sua coluna do globo e agora aqui.)

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