Morte e vida de editora

Por Sofia Mariutti

最後の歌がもうおわった

No nosso catálogo tem um livrinho juvenil pra lá de simpático chamado O livro selvagem, do mexicano Juan Villoro. Talvez eu não parasse para lê-lo se não fosse o clube de leitura da Penitenciária Feminina de Sant’Anna, de que a Vanessa sempre fala aqui no blog e do qual eu participo como mediadora há pouco mais de um ano.

No fim do nosso último encontro, a Luciana [nome fictício], que trabalha na biblioteca da penitenciária e está saindo para o regime semiaberto depois de ter cumprido uma longa pena, disse que o bom do clube de leitura é que a gente parte da leitura de um livro e sai da conversa com dez livros diferentes. Acho que é bem isso, ela resumiu a experiência do clube de leitura.

Ainda bem que as meninas da penitenciária me fizeram ler (dez vezes) o Juan Villoro. É uma narrativa toda cheia de peripécias, magia e metalinguagem, que sempre me lembra meus tempos de menina assistindo ao Castelo Rá Tim Bum.

A uma dada altura, o Juan Villoro diz que não somos nós que escolhemos os livros, são os livros que nos escolhem. O que me fez pensar no começo do meu trabalho como editora, quando só caía na minha mão livro sobre a morte. No mesmo semestre, editei As virgens suicidas, do Eugenides, A morte do inimigo, do Hans Keilson, e A morte do pai, do Knausgard. Pode ser que em certa medida todo livro adulto fale sobre a morte, mas esses livros são mortes, especialmente os dois últimos.

A morte define o Keilson, começando por sua biografia: ele só foi reconhecido como escritor aos noventa e oito anos, pouco antes de morrer. Isso porque ele deixou sua identidade de escritor na Alemanha junto com todo o resto, quando fugiu do nazismo e imigrou para a Holanda. Lá, ele se tornaria psiquiatra de crianças traumatizadas no pós-guerra, e os romances que ele publicou em terras germânicas no começo do século, logo proibidos pelas leis de Nuremberg, ficariam esquecidos por um longo tempo, até que fossem redescobertos no século XXI por um editor americano, e ganhassem o devido buzz literário pelo mundo todo.

Nesse livro de Keilson, a morte também é central, como revela o título. O narrador é um judeu obcecado por seu inimigo, Hitler, e pela ideia de sua morte. Embora reconheçamos imediatamente do que se trata, o narrador nunca é chamado de judeu, o espaço nunca é chamado de Alemanha, o ano de 1942 nunca é mencionado e Hitler é sempre B, de modo que a narrativa acaba servindo de parábola universal para qualquer relação entre opressor e oprimido.

Num momento avançado da trama, e em uma das cenas mais arrepiantes que já li, o protagonista está tão empenhado em se aproximar de seu inimigo que acaba participando de uma incursão de ativistas do partido nazi por um cemitério judaico, durante a noite. Tumbas são reviradas, quebradas. A barbárie extrema: violência contra os mortos. E o judeu ali, cúmplice.

Bem, depois veio A morte do pai, do norueguês Knausgard, de quem já falei aqui no blog. O romance autobiográfico começa com um mergulho profundo em um corpo humano recém-destituído da vida para voltar, nas páginas finais, a uma descrição minuciosa dos últimos dias de um pai alcóolatra que bebeu até morrer.

Essa história de que os livros escolhem a gente, do Villoro, faz todo o sentido — esses livros parecem ter vindo para selar uma fase bastante melancólica da minha vida.

E agora, eis que depois de Vida, do Leminski, me vi editando Vida querida, da Alice Munro. Livros muito inspiradores, sopros de vida que me escolheram.

Que venha mais vida em 2014!

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.