O aprendizado

Por Tony Bellotto

Quando comecei a escrever profissionalmente, no início dos anos 1990, Rubem Fonseca era uma unanimidade. Reconhecido como um escritor de voz originalíssima — daquelas que começam mais ou menos atrás dos joelhos e vão subindo até chegar bem acima da cabeça, segundo a definição de E.I. Lonoff sobre a voz literária do jovem Nathan Zuckerman –, ele era considerado por todos o mestre da literatura urbana brasileira. Seu estilo enxuto devia bastante à literatura americana, notadamente a de prosa seca de Hemingway e Hammett, e seus temas chocavam e surpreendiam pela brutalidade, violência e falta de vínculo com as tradições literárias brasileiras (vertentes regionalistas e o onipresente realismo mágico que deslumbrou tantos escritores latino-americanos na virada dos 1960 para os 1970).

Desde a publicação de seu primeiro livro de contos, Os prisioneiros, em 1963, sua reputação só fez crescer, e em 1973, quando publicou seu primeiro romance, O caso Morel, Rubem Fonseca já era considerado o maior contista brasileiro. Seguiram-se livros de enorme sucesso, como os romances A grande arte, de 1983, e Agosto, de 1990, que lhe valeram o título de maior escritor brasileiro contemporâneo.

A partir de meados dos anos 1980, e por mais ou menos uma década, Rubem Fonseca foi uma referência absoluta para todos que começaram a publicar no período. Marcelo Rubens Paiva, Patrícia Melo, Marçal Aquino e humildemente eu, entre muitos outros, todos tínhamos uma dívida orgulhosa e admirada com Rubem Fonseca. Dizia-se na época que ninguém escapava dele. Nem Chico Buarque, que estreou na arte romanesca em 1991 com Estorvo, escapou. Bruna Lombardi, Jô Soares e Caetano Veloso não publicaram seus livros de estreia sem o beneplácito do Mestre.

Na virada do século alguma coisa aconteceu, e o prestígio de Rubem Fonseca começou a se esvair. Ainda que tenha recebido em 2003 prêmios relevantes como o Juan Rulfo e o Camões, suas obras começaram a ser criticadas primeiro com desdém, depois com ressentimento e escárnio. Começaram a acusá-lo de enfraquecimento literário e de se repetir. Disseram que perdeu a mão. Escritores estreantes deixaram de citá-lo como referência. Jornalistas recalcados deitaram e rolaram. Os ratos invadiram o navio. Hoje em dia qualquer Zé Mané da geração Facebook dá-se ao direito de criticá-lo com o peito imberbe estufado, quando não de ignorá-lo por completo.

Nunca deixei de ter Rubem Fonseca como referência, ou de ler e reler seus livros como inspiração e aprendizado. Discordo de quem o acusa de ter perdido as graças do mar. Basta ler o seu mais recente livro, Amálgama, para entender por quê. Como diz o Mestre no parágrafo final da coletânea de contos, mais agudo que nunca aos 88: “Sei que tem gente que não vai acreditar nesta história que estou contando. Foda-se.”

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.