A máscara

Por Carol Bensimon

Tive o prazer de conhecer Lourenço Mutarelli em Guadalajara. Passeamos um dia em Tlaquepaque, um distrito histórico forte em artesanato, entramos em uma loja e compramos máscaras quase idênticas. Não era uma máscara mexicana — e estou reproduzindo o que me disse a vendedora — mas sim a representação de um deus inca de duas faces chamado (aqui o nome me escapa, experimentamos cada um uma máscara, a variação de cores apresenta uma diferença irrelevante porque de qualquer maneira são muitas cores, orelhas como alças, buracos para os olhos e para a boca, um arco de protuberâncias que lembram anêmonas do mar).

É estranho comprar a mesma máscara que Lourenço Mutarelli. Não posso mentir: fico tensa. Nos minutos que antecedem a transação, tento descobrir, por vias lógicas, qual de nós dois deveria ter a máscara (se apenas um pudesse tê-la, o que talvez seja a saída mais ética, a resolução mais carregada de bom senso). Eu vi a máscara primeiro. E, sobre isso não tenho certeza, mas quase: também fui a primeira a dizer “vou levar”. Como esses dois fatos soam insignificantes, no entanto, quando se pensa em Mutarelli, na obra de Mutarelli, no interesse escancarado de Mutarelli pelos esqueletinhos mexicanos, pelos tarôs raros e pelos diabos de gesso que decoram os presépios naquele país, a máscara bizarra sendo portanto uma extensão natural de sua persona.

Mesmo assim, levo a máscara. Mas não é que a tensão tenha se dissipado. Marcelino Freire está com a gente e comenta, já nas ruas de Tlaquepaque, que aquilo é “a cara” de Lourenço. Minha máscara está dentro da mochila e eu estou pensando em tirar uma selfie quando chegar no hotel. Meu deus, será que eu mereço essa máscara? Será que pensar em colocá-la durante uma festa na piscina só pra extrair uma gargalhada dos amigos prova que eu estou encarando aquele objeto de tricô transcendental sem reverência nenhuma, apenas movida pelo deboche que talvez marque minha geração? E se usarmos a máscara em nossos projetos literários, quero dizer, eu e Lourenço, quem sabe no mesmo ano, provavelmente pela mesma editora? O que diriam de nós, compartilhando em nossas obras tão antagônicas esse objeto estranho cujo rastro perdemos completamente (nem eu nem Lourenço lembramos o nome do deus, a loja aparentemente não sabe que tem uma página no facebook, deixo inúmeras mensagens nunca lidas, o Google não me traz respostas quando digito combinações esdrúxulas de palavras envolvendo américa do sul, méxico, inca, maia, asteca, tricô, deuses)?

Quase três meses depois, a máscara tendo achado seu lugar sobre minha estante de livros, decido usá-la na minha próxima narrativa, embora ela siga sendo um mistério para mim (ou talvez por isso mesmo). Não tem sentido. Todo o resto tem, as relações familiares, as pesquisas históricas, Alexandria, Nasser, o apartamento modernista. Não a máscara.

Fico me perguntando quantas decisões artísticas são tomadas assim, admitindo-se um certo grau de aleatoriedade; o desejo de inserir uma história que só fará sentido para o próprio autor, um diálogo absurdo aparentemente descolado da história principal, uma cena que está lá pela simples razão de, aos olhos do autor, exalar uma beleza ou um mistério paralisante.

Essa semana, vi A grande beleza, de Paolo Sorrentino, com a nítida impressão de que muitas das sequências mais belas e impressionantes foram compostas assim, sem a necessidade do encaixe preciso, dos sentidos compartimentados, do arco narrativo lógico, mas justo pelo contrário: talvez se justifiquem por puro capricho do diretor (“quero filmar uma girafa diante dessas ruínas”), talvez o conjunto desses caprichos possa ser chamado de intuição, talvez a grande beleza esteja nas interrogações, não nas respostas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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