Em tradução

Por Caetano Galindo


(Foto por Arvin-Rahimzadeh)

Dia desses um aluno veio me perguntar se era eu que escolhia as imagens que ilustram esses posts. Ele estava encantado com elas…

Isso vive me acontecendo. Neguinho me elogiar por coisas que eu não faço. Tipo a escolha de ‘A Balada do Cristo Ridentor’ pra traduzir ‘The Ballad of the Joking Jesus’, no Ulysses.

Porque a ideia foi do Britto! Eu queria ‘A Balada do Jesus Jacu’!

Ehehe

Então… porque não sou eu quem escolhe as imagens não… é a grande Dianushka Passýnskaia, responsável por tudo que há de bom na Companhia das Redes Sociais das Letras. Eu sou só grande fã.

Até que tem umas semanas ela me mandou uma imagem que tinha achado, e disse que estava esperando a ocasião certa pra usar. E era uma imagem tão infinitejesticamente perfeita (Não. A gente ainda não fechou o título. Tá?) que eu botei a cacholinha pra funcionar…

E acaba que na verdade ela (essa que vocês estão vendo aí em cima) se encaixava perfeitamente com umas coisas que eu estou pensando e anotando no papel de parede do computador (que é onde eu anoto o que não quero perder de vista…).

Que é que eu meio que tenho um fascínio pela coisa da obra inacabada. E que existem infinitos jeitos de se deixar algo incompleto. (Se um dia eu escrever mesmo esse livro que eu sonho, ele vai se chamar formas de inacabar ou, melhor ainda, contra a perfeição.)

Infinite Jest, apesar de ter sido entregue, editado e publicado com aprovação do autor (ao contrário do Pale King, que ele deixou sem terminar) é uma das obras que me interessam. Porque o livro encontrou uma curiosa forma de se estruturar de uma maneira que o mantivesse perenemente aberto…

Como é que é?

É isso mesmo.

Ao invés de uma estrutura simétrica e linear, como a da maioria dos livros, ele optou, segundo declarações que ele mesmo deu, por uma estrutura inspirada num triângulo de Sierpinski. Um fractal.

E que é que isso tem de interessante?

Bom. Descrevamos.

Fazer um triângulo de Sierpisnki é bico. Você desenha um triângulo equilátero com um vértice apontando pra cima. Aí inscreve nesse triângulo um outro, com o vértice apontando pra baixo. Pronto. Você acabou de criar mais três triângulos onde pode repetir o processo, sempre criando mais três, onde pode repetir o processo etc…

O princípio do fractal é esse, né? Uma estutura em que cada pequena parte é reprodução estrutural do todo. Uma estrutura que se repete em ponto cada vez menor.

Mas o divertido desse fractal em questão é que:

1. Ele cresce para dentro, e não para frente.

2. Ele cresce sempre com um grande buraco no meio.

3. Ele (decorrência de “1”) descreve um espaço e não um tempo.

4. Ele é potencialmente inacabável, porque cada etapa sempre cria as condições para uma próxima iteração da regra… Ele vai ter que ser interrompido ao invés de terminado.

E todas essas coisas (acredite em mim) são extremamente relevantes para como se dá a condução da narrativa em Infinite Jest.

Um livro que não segue em linha reta, que se perde em meandros de meandros, que vive repetindo temas e histórias, uns dentro dos outros, que cresce em torno de uma ausência (os eventos que acontecem entre a última página e a primeira)…

É uma coisa que as pessoas tendem a considerar meramente folclórica. Mas esse modelo de estruturar o caos de uma nova maneira pode muito bem ter sido uma das maiores contribuições de Wallace à ficção recente…

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução deInfinite Jest, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.