Na praia

Por Paulo Scott

Time to Think on the Beach

Estava sentado sob guarda-sóis plantados nas areias fofas da praia do Silveira, Santa Catarina, Brasil, num encontro casual de amigos que surfaram juntos no início da década de oitenta (uma turma que apesar da pouca grana sempre dava um jeito de surfar, se não nas praias de visual caprichado de Santa Catarina, no apocalipse paisagístico contínuo chamado litoral do Rio Grande do Sul) e hoje não passam de senhores de quarenta e tantos lutando, na maciota, contra o colesterol e a obesidade, o tédio e as disparadas de humor relacionadas às finanças pessoais, contabilidades que nunca se amansam, especialmente quando se tem sobre a cabeça a tal missão suprema chamada de filhos para criar, quando na cadeira ao lado amigo arquiteto comentou que o ano de dois mil e treze poderia ser resumido à frase: o ano em que Justin Bieber veio ao Brasil e zoou o Brasil. A frase não causou o impacto que poderia ter causado, não pautou a conversa de polêmicas randômicas fraternas daquele grupo de velhos amigos preguiçosos à beira do mar azul. Ainda assim, desperto pela frase, fiquei pensando.

Não é difícil zoar um país. Não há novidade alguma em vir ao Brasil e zoar o Brasil. A novidade da frase lançada pelo meu amigo arquiteto, ao menos para mim, estava na presença do personagem Justin Bieber, talentoso, carismático, desregrado, transgressor do tipo desrespeitoso barato, como uma estrela do rock até pode ser eventualmente; estava na simbologia da persona Justin Bieber passando uns dias no Brasil. Mas quem, diabos, é Justin Bieber? Ao menos na minha escala dos grandes do entretenimento, Justin Bieber jamais se comparará a um Bob Dylan, a um David Bowie, a um Michael Jackson. Anoto, contudo, não ter nada contra o rapaz, ele faz o que acha que tem de fazer, sobretudo, porque deixam ele fazer (estou a milhares de quilômetros de um dia sonhar em calçar o pijama do tiozinho gritando para as estrelas que no meu tempo, bah, é que era bom).

O meu problema com relação à hipótese é: como eu venho encarando a lógica, a linguagem, as leituras, de um mundo que tem como expoente tão adequado o personagem Justin Bieber (claro, sabemos que há pelo menos uma dúzia de nomes que poderiam substituí-lo, mas foi ele que teve o ímpeto e o charme adolescente James Dean Capeta de tocar um tô nem aí pra cima do Brasil) a ponto de, numa conversa em cenário de areias fofas da praia do Silveira, Santa Catarina, Brasil, ser uma tentativa de resumo, mesmo que irônico, ou cínico, do quadro quase sempre tendendo ao catastrófico que circunda esse imenso estabelecimento chamado Brasil.

O ano de dois mil e treze foi um ano bizarro pro Brasil (e não acho que tenha sido muito diferente dos anos anteriores), a realidade brasileira em vários momentos chegou a picos inimagináveis do absurdo. Um romancista teria enorme dificuldade em levar o improvável de sua ficção ao patamar do improvável da nossa realidade nacional. A farra de Justin Bieber no Brasil, e não estou aqui contraditando tardiamente meu amigo arquiteto, é café pequeno quando se trata da farra de brasileiros zoando o próprio Brasil, um verdadeiro manicômio de onde sairiam, e saem, a qualquer hora do dia e da noite, ótimas histórias de terror absoluto, a começar pela letra a de Amarildo – não me surpreende que livros voltados a dissecar a história nacional recente façam tanto sucesso no Brasil e no exterior. Muitos escritores brasileiros contemporâneos dialogaram com a realidade brasileira e remontaram a realidade brasileira em dois mil e treze, vários deles desta editora, por sinal.

Não acho que se trata de colocar em discussão o aproveitamento e a exploração de personagens genuinamente brasileiras (como se personagem genuinamente brasileiro fosse uma premissa moral, o modo exterior de um postulado ético ou de uma programática correta e justa), não, não mesmo, isso pode acabar se transformando num baita tiro no próprio pé, um tiro ainda mais grave do que o tiro no próprio pé que é ficar bradando, em visível manifestação do complexo de vira-lata, que as histórias contadas por autores brasileiros para serem respeitadas no exterior precisam ser menos exóticas, menos ligadas a um regionalismo de museu ou objeto de tese de universidade francesa, mais atualizadas com o mundo moderno, pós-moderno, subjetivas e urbanas, universais e menos embalagem tropical, como se o escritor brasileiro precisasse ser um arauto efetivo capaz de provar em showroom de feira literária no exterior que o Brasil não é tão Idade Média e território de picaretas com anel de doutor, tão ruralista e falta de saneamento básico, tão violento e terra de coronéis. Mas que há um panorama imenso de possibilidades temáticas no qual colamos com fita adesiva prata nossa cegueira mansa e nossa disposição à falta de originalidade (justo quando sobra originalidade) de elite intelectual, isso há. O tempo passa, e só melhora.

Cada um escreve sobre o que quiser, não há compromisso na literatura. Digo isso pela milésima vez. O que me inquieta, entretanto, é essa sensação de que a realidade (muita atenção: não estou falando de realismo literário) é pouco explorada, pouco investigada (há tempo refiro alguma abertura de canais de patrocínio de pesquisa para obra literária, investigação para juntar material a ser, no exato da sua pertinência em relação ao projeto literário, aproveitado em obra literária; explico melhor em outra sexta-feira); e não estou falando de literatura marginal, literatura de favela, literatura de luta de classes, literatura de minoria (prometo nunca mais usar o termo minoria) como passou a ser lugar comum quando se coloca em discussão a necessidade de ampliar o espectro temático e de abordagens na produção literária nacional. Sei, a discussão é longa.

Disseram que o ano de dois mil e onze foi um marco na literatura brasileira; o detalhe é que marcos e referências sem as quais a humanidade não sobreviverá por mais do que um par de anos são erigidos e derrubados todos os meses. Não é disso que vivem os cadernos e revistas de cultura? A verdade é que, para além de dois mil e onze, dois mil e doze foi um ano único por várias razões, pela projeção de alguns autores novos e alguns nem tão novos assim no mercado europeu, latino-americano e mundial, por exemplo. E dois mil e treze foi o ano de surgimento de novos nomes, de retornos de alguns, de confirmação de outros, tudo isso em quantidade impossível de se ignorar. Sou otimista, que venha o dois mil e catorze oficial (nunca se pode esquecer o efeito carnaval no calendário) e que ele seja um ano bom para a literatura brasileira.

Escrevo esta coluna aqui do Rio de Janeiro, a praia do Silveira é só uma lembrança. Durante a pausa que fiz entre os dois primeiros parágrafos e os restantes coloquei um clipe do Justin Bieber para rodar no Youtube. Nunca tinha escutado uma música inteira do Justin Bieber. O garoto (típico garoto do rock, considerando que o rock nunca passou de música para adolescentes fazerem suas loucuras) tem talento e tem as suas loucuras, sem qualquer ironia da minha parte, acho que combina com o Brasil.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

2 Comentários

  1. Caro Fernandes disse:

    Que comentário mais tosco esse desse tal de Rogério.
    Fica difícil mesmo quando uma pessoa não entende um texto.
    Querido, acho que vc deve ter passado corrido por uma parte da matéria de português que se chama “interpretação de texto”. Vale voltar pro colégio e revisar isso.
    No mais, parabéns Paulo Scott pelo incrível texto.
    Beijos, Caro.

  2. Rogério Marcks disse:

    Desculpe, Paulo. Mas acho uma sacanagem com o litoral de Santa Catarina. Estar na praia e dizer que: 2013 foi o ano que Justin “Bibe ou Biba” veio ao Brasil e zoou o Brasil.
    Quem é esse/a Just(a)in Bib(a)er? Eu não sei. Sério. Nem tomei conhecimento. E acho que um monte de homens barbados deviam pensar em outra coisa mais relevante que adolescentes surfando em ondas de testoterona.
    Na boa, achei foi engraçado…Sério. Perder tempo com JB em plena prais de SC, é cruel.
    Podia ser: 2013 o ano que JB: o Supremo Capitão-do-Mato do STF teve o reconhecimento da Casa Grande.

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