A festa e a passagem

Por Paulo Scott


Na primeira vez que passei o carnaval no Rio de Janeiro, já sob a dinâmica deste ressurgimento dos blocos de rua — fenômeno que vem num crescendo espantoso desde o início dos anos dois mil —, ouvi de um casal de amigos cariocas que o bom da festa é a chance de ficar em silêncio e apenas sorrir, sorrir sem parar; lembro-me dela ter dito que no sorrir silencioso estava o segredo da desintoxicação existencial que só o carnaval propicia. Não me lembro de ter chegado perto de bloco de carnaval de rua ou de qualquer outra modalidade de carnaval naquele ano, lembro sim de passar o feriado encerrado nas sessões das salas de cinema de Botafogo, aqueles ambientes escuros e refrigerados onde se você tiver sorte de contar com assistentes civilizados poderá apreciar o que justamente o cinema tem de melhor (algo que a lógica da televisão, dos produtos para a televisão, por exemplo, jamais nos entregará): o silêncio, preciosos momentos de silêncio.

Há mais de oito anos sofro de uma condição física anômala chamada Tinittus, uma disfunção conhecida como zumbido constante nos ouvidos; é como se houvesse um apito soando ininterruptamente dentro da sua cabeça. Quando os sintomas surgiram e se intensificaram, busquei o melhor aconselhamento médico imaginável, consultas, exames, tratamentos, até chegar o dia em que, percebendo que o zumbido tinha vindo para ficar, eu simplesmente me resignei — embora baixo, há um percentual de pessoas afetadas por essa condição que se desestabilizam psicologicamente de maneira grave, principalmente quando se trata de um detalhe bem particular na rotina de todos nós, que é: conseguir dormir. Eu me dei conta de que o melhor a fazer era ignorar a orquestra de cigarras que vieram morar dentro da minha capacidade de ouvir e tocar a vida. Não houve drama.

Apesar da aceitação desse novo lugar, levei quase um ano e meio, talvez um pouco mais, até readquirir a estabilidade e a concentração que antes da invasão das cigarras me garantiam a sensação de tranquilidade, quase playground (embora eventualmente um playground bastante assombrado), a partir da qual eu formulava as plasticidades, a musculatura, as memórias e os labirintos que abasteciam o meu motor da escrita. Porventura química e anatomia reacomodada, resumi em foro íntimo.

Hoje em dia, prefiro escrever com certo grau de barulho ao redor, reinventei um novo silêncio para mim (curiosamente, os momentos de silêncio que acontecem dentro de um bom filme, dentro de uma sala escura e refrigerada, passaram incólumes por essa mudança). É curioso e fascinante — em termos práticos, posso dizer que me tornei um ser humano mais lento, mais contemplativo; sim, nunca termina — estar dentro desse papel, dessa novidade que requer a tal sabedoria do envelhecer, amadurecimento e sobriedade.

Serviu como uma espécie de batismo acompanhar, mesmo que de longe, alguns blocos de rua no ano seguinte ao ano que relatei acima, apenas escutando a alegria franca e contagiante dos amigos e conhecidos. Eu me desvencilhara de um silêncio que não voltaria mais. Ficaria de vez no Rio (neste Rio de Janeiro que terá um ano difícil, mesmo para os que gostam e entendem a complexa lógica do carnaval), os dados estavam lançados, e meu modo de escrever e ler, de me concentrar e concertar, nunca mais seria o mesmo.

Bom carnaval, mesmo para os que não entendem muito bem o carnaval.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

6 Comentários

  1. Paulo Scott disse:

    Olá, Victor. Tudo bem? Concordo com ela. Pelo que sei, e experimentei, o tratamento por meio da acupuntura é o que produz os melhores resultados em adultos. Obrigado pelo retorno.
    Abraço.

  2. victor almeida disse:

    Oi, paulo,

    minha namorada disse que é possível tratar tinittus com acupuntura.

    Gosto muito das suas crônicas, parabéns.

  3. Paulo Scott disse:

    Também tenho minhas dificuldades com o carnaval, meu caro amigo, mas gosto de saber que há pessoas que o entendem de um modo belo, lúdico, franco – aqui no rio isso é absolutamente inegável.
    Abraço forte neste poeta.

  4. Paulo, eu não entendo muito bem o carnaval, não consigo exibir tanta alegria. Estou no bloco dos tristes da estética do frio e do silêncio. Abraço.

    Escobar

  5. Paulo Scott disse:

    Pois é, há quatro anos escrevi um roteiro para hq, e o protagonista era um menino que tinha zumbido nos ouvidos e era tremendamente incomodado por isso, ele odiava música, mesmo, até que um dia, aí pelos seus onze anos, escutou na rádio am uma música de um cara da Bahia, esse cara era o Raul Seixas. Valeu o comentário. Abraço.

  6. MM disse:

    Eu tenho zumbido nos ouvidos desde muito pequeno… na adolescência, achei que era sinal de que eu captava alguma vibração extraterrena… pobre alma, desde sempre…
    Se servir pra algo:
    http://oldcoke.blogspot.com.br/

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