Cadê a literatura policial brasileira?

Por Raphael Montes

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[A partir de hoje, o escritor Raphael Montes assume uma coluna mensal sobre literatura policial aqui no Blog. Seu novo livro, Dias perfeitos, será lançado pela Companhia das Letras em março.]

Semana passada, numa conversa, um amigo me veio com a pergunta: cadê a literatura policial brasileira? Ainda que eu já tivesse bebido alguns chopes, entendi o que ele quis dizer: cadê a tradição de romances policiais no Brasil? Cadê os escritores policiais? Cadê os prêmios, os eventos, os workshops, as palestras? Cadê os leitores? Cadê?

O gênero policial é um dos mais populares no mundo. Com frequência, obras de mistério estão na lista de mais vendidos. Nos Estados Unidos e na Europa, há centenas de feiras voltadas para o gênero, há prêmios para romances publicados e para inéditos, além de associações de autores, clubes de leitura, revistas especializadas e grandes seções exclusivamente dedicadas a policiais. Por consequência, há escritores. O que acontece nas bandas de cá?

A primeira narrativa policial brasileira foi publicada em capítulos pelo jornal A Folha em 1920. Chamava-se O mistério e foi escrita a oito mãos por Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa. A partir daí, vários autores se aventuraram no gênero; alguns com afinco, outros com certa vergonha. Lamentavelmente, ainda impera por aqui certa noção de que literatura policial é subliteratura, algo menor. Trata-se de um engano.

Em países periféricos, é comum que o enredo das narrativas policiais seja pretexto para uma análise da sociedade, um instrumento de reflexão das relações de poder. Ao mesmo tempo, há autores que buscam tramas mais universais, com foco na arquitetura da trama, ainda sem perder de vista a identidade local. De um modo ou de outro, os prêmios e a crítica têm reconhecido a qualidade dessas histórias: é possível, sim, escrever uma narrativa de suspense, sem prejuízo da linguagem ou da densidade do texto e das personagens. Apesar disso, por muito tempo, a força das investidas não foi suficiente para emplacar uma “escola brasileira de policial”.

Estudiosos defendem que a literatura de mistério dialoga diretamente com o romance urbano e, por isso, a frágil presença do gênero em nossa tradição literária se deve à tardia formação das grandes cidades. Há certa pertinência no argumento. Num país de dimensões continentais como o nosso, é uma pena que seja tão difícil encontrar uma narrativa detetivesca que não se situe no Rio ou em São Paulo.

Ao mesmo tempo, a imagem desgastada da polícia brasileira e a descrença na eficiência de nossos sistemas penal e judiciário dificultam a criação de heróis tradicionais, com valores firmes de justiça e ordem social. Por isso, muitos autores optam por romances protagonizados por detetives particulares ou escrevem uma espécie de romance policial “sem polícia”. São raros os exemplos de romances policiais protagonizados por um oficial da lei (hoje, temos principalmente Luiz Alfredo Garcia-Roza, com seu delegado Espinosa, e Joaquim Nogueira, com o investigador Venício).

Apesar dos percalços, a situação está mudando. Além de Rubem Fonseca, um mestre do gênero desde os anos 70, diversos autores passaram a escrever literatura policial, como Marçal Aquino, Patrícia Melo, Flávio Carneiro, Alberto Mussa e Felipe Pena, entre outros. Nomes fortes como Jô Soares, Tony Bellotto, Verissimo, Mário Prata e Nelson Motta também investiram na criação de tramas policialescas. Nos anos 90, Luiz Afredo Garcia-Roza venceu os prêmios Nestlé e Jabuti com seu romance de estreia, O silêncio da chuva. E mais importante: manteve uma produção periódica com aventuras do delegado Espinosa. Nesse cenário, uma literatura policial brasileira começou efetivamente a se definir. E, como num ciclo natural, o maior número de autores deu repercussão ao gênero e fez crescer o interesse da imprensa, das feiras literárias e, mais importante, dos leitores.

Ano passado, por exemplo, aconteceu o Pauliceia Literária, um evento literário paulistano em que um dos temas discutidos foi literatura policial, com autores como Patrícia Melo e Scott Turow. O gênero também foi capa do Caderno 2 do Estadão. Pessoalmente, tive a felicidade de ter Suicidas, meu romance policial de estreia, finalista de dois prêmios importantes ― o São Paulo de Literatura e o Machado de Assis da Biblioteca Nacional.

De todo modo, ainda é pouco. Existe um ambiente propício para a consolidação de uma literatura policial brasileira, mas tudo é muito disperso e frágil. É preciso haver mais eventos, mais prêmios, mais palestras, mais intercâmbio e mais autores dedicados ao gênero. Minha primeira participação neste blog é um convite a todos para tomarem parte neste ótimo momento da literatura policial. E é também um apelo. Escritores policiais, cadê vocês?

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Dias perfeitos, seu próximo suspense, será publicado em março de 2014 pela Companhia das Letras. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.