Stória, stória

Por Socorro Acioli


A cabeça de santo Antônio em Caridade (CE). Veja também um vídeo sobre a estátua.

A cabeça do santo nasceu exatamente em 2006, quando larguei meu último emprego e decidi ser escritora em tempo integral. A primeira providência foi a busca incansável de temas para inspirar minhas histórias. Temas incríveis. Adquiri o hábito de recortar matérias de jornal que me instigassem e foi assim que encontrei o artigo da jornalista Rita Célia Faheina no jornal O Povo, de Fortaleza, sobre a cabeça oca, gigantesca e inacabada de um santo Antônio da cidade de Caridade, no sertão do Ceará. O corpo jazia no alto de um pequeno morro, mas por um erro de cálculo, a cabeça enorme e assustadora nunca pôde ser colocada acima do pescoço — e nunca será. O texto falava da revolta da população católica diante daquele sacrilégio. A cabeça do santo  servia de motel, banheiro, morada de bichos e até de casa para um desconhecido que acampou por lá.

Esse desconhecido foi o mote para o personagem que surgiu imediatamente: um andarilho que entra na cabeça por acaso e descobre que tem o poder de ouvir as orações das mulheres, pedindo por casamento.

Eu tinha um tema incrível nas mãos. Segui rumo ao passo número dois: estudar. Para escrever uma narrativa razoavelmente complexa como imaginei, eu precisaria de método, base e regras para começar. Na falta de cursos de Escrita Criativa em Fortaleza, busquei os livros, e o primeiro que encontrei foi Como contar um conto, de Gabriel García Márquez, a transcrição de uma das oficinas do escritor na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, EICTV, em Cuba. Essa escola, um amplo centro de formação de profissionais do cinema latino-americano, foi construída com a ajuda ideológica e financeira de García Márquez. Todos os anos ele dedicava uma semana de dezembro a sentar com jovens autores, ouvir seus projetos e orientá-los sobre como escrever melhor.

Procurei informações sobre o curso mandando inúmeras mensagens eletrônicas para professores da EICTV ao longo de quase um ano. As respostas eram sempre educadas e amáveis. Eles diziam que sim, o curso ainda existia. O mestre continuava dedicando a semana correspondente ao Festival de Cinema de Havana a ajudar jovens autores. Eram dez selecionados, sempre. Mas infelizmente — eles diziam — não havia seleção aberta ao público, inscrição, formulário, nada. O curso era para convidados de García Márquez. Gente que ele conhecia pelo mundo, filhos e parentes de amigos, indicados por alguém.

Sem chances. Nenhuma esperança de amigo em comum. Fui aconselhada a desistir, aquilo parecia obsessão. “É impossível”, me disseram.

No dia em que decidi desistir, pesquisei no site da EICTV e encontrei um endereço de e-mail que eu não vi antes. Pertencia a uma mulher, María. Comecei a mensagem dizendo que já sabia a resposta para minha pergunta, mas que precisava mandar aquele último e-mail, marcar a data da minha desistência. E gastei uns dois parágrafos falando do que teria sido aquela experiência para mim, contando que já lera quase tudo de García Márquez e fazendo mais uma dezena de desabafos piegas, porém sinceros. Eu detesto desistir.

María Julia respondeu no dia seguinte, agradeceu, confirmou que a oficina não era aberta ao público, que era para convidados do escritor e que, inclusive, ele já mandara a lista de 2006.

Pero

(lampejo de esperança)

Pero o mestre mandara apenas nove nomes e a oficina tinha, por tradição, dez vagas. “O que posso fazer por você”, ela disse, “é pedir que mande, da forma mais resumida possível, um breve currículo, uma lista das suas publicações e o resumo da sua proposta de história para desenvolver durante o curso. Farei com que esse papel chegue às mãos de García Márquez. A decisão é dele.”

Eu tinha uma semana para escrever a coisa certa, falar do meu trabalho da forma mais fantástica e apresentar uma proposta de história irresistível. Voltei para o meu Caderno de Temas e tive a certeza de que A cabeça do santo era a minha história, era o meu grande projeto. Mandei. Dois meses depois, a mesma María respondeu, contando que o Prêmio Nobel Gabriel García Márquez estava me convidando para sua prestigiada oficina: “Ele gostou muito do que leu”.

Ninguém sabia ainda, mas aquela seria a última oficina, exatamente no aniversário de vinte anos da EICTV. Os problemas de saúde de García Márquez o obrigaram a um regime de reclusão a partir dali. Era minha última chance.

Apresentei o projeto da Cabeça do santo logo na primeira aula, em espanhol, e acho que nunca vivi nenhum dia depois disso sem lembrar dos comentários elogiosos do mestre. Ele não disfarçava a alegria de imaginar o protagonista descobrindo os segredos de amor das mulheres. Pediu que eu provasse ser verdadeira a existência de uma cabeça gigante no sertão do Ceará e eu mostrei a filmagem da minha visita à bizarra cabeça do santo. Foi intenso e divertido discutir meu projeto com García Márquez, mas não tivemos tempo de aprofundar muito o enredo.

Nosso último encontro foi durante uma festa, em Havana, em uma linda casa na beira do mar. Na hora de ir embora, ele me chamou. E me pediu que não desistisse de contar a história da cabeça do santo, do homem que ouvia as orações. Insistiu, foi firme, me fez prometer. E eu prometi.

Trabalhei no texto de 2010 a 2014 e esse projeto tornou-se parte da minha tese de Doutorado na Universidade Federal Fluminense, com o suporte teórico de Roland Barthes e suas ideias sobre a Preparação do Romance. Nesses anos de trabalho joguei fora inúmeras versões. Enchi um caderno com anotações, gráficos, datas, nomes próprios, linhas do tempo. Fui a Cabo Verde, visitei o Sucupira, ouvi mornas, comprei colar de sibitchi. Conheci o lugar onde santo Antônio nasceu (Lisboa) e onde ele morreu (Pádua). Vi a língua mumificada do Santo, suas roupas, seus peregrinos. Cuidei de cada palavra até o último minuto antes de entregar à minha agente, Lúcia Riff.  Já em casa, na Companhia das Letras, Julia Bussius assumiu o comando da edição e ainda trabalhamos mais alguns meses nos ajustes do texto, preparação, revisões, decisões.

Ufa.

Não foi fácil, professor, mas, enfim, contei a história do homem que morou na cabeça do Santo Antônio e descobriu os segredos de amor das mulheres. Cumpri a promessa. O livro existe.

* * * * *

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013.
Site – Facebook Twitter

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A CABEÇA DO SANTO
Sinopse: Sob o sol torturante do sertão do Ceará, Samuel empreende uma viagem a pé para encontrar o pai que nunca conheceu. Ele vai contrariado, apenas para cumprir o último pedido que a mãe lhe fez antes de morrer. Quando chega à cidade quase fantasma de Candeia, encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Coisas extraordinárias começam a acontecer depois que Samuel descobre ter o dom de ouvir as preces e os segredos do coração das mulheres das redondezas, que não param de reverberar dentro da cabeça do santo.

Evento de lançamento:

Fortaleza: Domingo, 23 de fevereiro, às 17h – Livraria Cultura – Av. Dom Luís, 1010 – Meireles

33 Comentários

  1. […] A Cabeça do Santo, pela Companhia das Letras […]

  2. […] cabeça do santo tem um quê de realismo fantástico. Também pudera, a ideia original foi trabalhada na oficina de Gabriel García Márquez, em Cuba, em 2006. A discípula de Gabo usou a abusou da inspiração do mestre para criar a […]

  3. […] cuecas. O segundo volume das obras completas de Efrén Hernández, embaixo da cama. O romance da Socorro Acioli na cristaleira. Isso sem falar do caos em meu estúdio, onde não tenho prateleiras: só pilhas de […]

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