Tijolos

Por Érico Assis

Edges of a thick book pages taken in macro

Não sei se é assim pra todo mundo, mas, pra mim, as livrarias online criaram um prazer literário que não existia quando você fazia/faz compras na livraria-papelaria-armarinho-megastore. É um prazer de surpresa: descobrir o tamanho do livro.

Tamanho em termos de dimensões físicas: altura, largura e profundidade. O caso é que as lojas online insistem em exibir as capas padronizadamente do mesmo tamanho. Na vitrine virtual, todo livro tem mesma altura e mesma largura. Algumas lojas inovaram com representações tridimensionais, mas que acabaram virando só nova dimensão de engano: tanto os de 100 quanto os de 800 páginas tinham exatamente a mesma profundidade. Você pode conferir o registro das dimensões em centimetragem (a Amazon até registra o peso, ínfimo que seja) e do número de páginas. Mas eu, pelo menos, não consigo visualizar o objeto tridimensional e continuo levando surpresa.

Tanto que, esta semana, mais uma vez recebi uma caixa do tamanho que abrigaria uma gata e sua ninhada. No adesivo de remetente, a loja registrou o conteúdo: “1 (ONE) BOOK”. Na verdade, era uma caixa (dentro da caixa) com os três volumes de The Graphic Canon. No site da loja, o detalhamento dizia que eram 1088 páginas (“informações fornecidas pela editora”), mas na verdade dá mais de 1500. Também registrava os 12.4 pounds, mas sempre me perco na conversão.

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Em 2000, a L’Association lançou Comix 2000, que tinha 2 mil páginas de HQs sem texto, por vários autores. Se ficar em obras de um volume só,  deve ser a maior dos quadrinhos. Nunca vi um exemplar.

Nos EUA, faz algum tempo que estão na moda as edições Omnibus, repetidamente com mais de 1000 páginas. No ano passado, as 1200 páginas mais capa dura de X-Statix Omnibus provocaram distensão muscular em um leitor. Prevista para este ano, Big Damn Sin City, com todas as histórias de Frank Miller, tem provisórias 1360 páginas. The Invisibles Omnibus, de 2012, saiu com 1536. O produto mais rentável no mercado de quadrinhos norte-americano em 2012 e 2013 foi The Walking Dead Compendium, edições de mais de 1000 páginas cada.

Todos estes casos, porém, são de HQs que saíram inicialmente em um formato, o de revistinha, e depois ganharam coletâneas tijolo. O caso dos álbuns que já são projetados como tijolos é mais interessante. Um dos primeiros foi Retalhos, com suas 592 páginas. Craig Thompson declarou-se influenciado por Lapinot et les carottes de Patagonie, desafio auto-imposto do francês Lewis Trondheim de desenhar uma história de 500 páginas.

Profundidade física não determina profundidade ou qualidade na leitura. É fato, porém, que dá essa aparência. No caso dos quadrinhos querendo ser levados a sério, sair do formato de revistinha e ganhar tamanho de livro (ou maior) é sentar na mesa dos adultos. Não necessariamente vão ter papo, mas estão lá, com a gravata coçando.

Lembro de uma conversa sobre Umbigo sem fundo precisar ou não ter suas 720 páginas. Não que o tempo de leitura determine profundidade ou qualidade, mas a sentença de um colega acabou com o papo: “Li numa cagada.”

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Os quadrinhos tendem (ou tendiam) a ter poucas páginas por conta da forma de produção e do público/preço pretendidos, mas também porque desenhar toma tempo e o quadrinista precisa pagar as contas. Há séries japonesas ou franco-belgas planejadas para milhares de páginas, mas que saem aos capítulos ou fascículos para o autor poder financiar os anos de produção. Craig Thompson, Lewis Trondheim, Dash Shaw, nos seus tijolos de início de carreira, são casos peculiares e raros de audácia e desprendimento financeiro.

Habibi, segundo tijolo de Thompson, por outro lado, já veio de um autor estabelecido e com um bom adiantamento para passar oito anos trabalhando em 672 páginas. Da mesma forma, o espanhol Nadar produziu as 400 páginas de Papel Estrujado, lançada há pouco, graças ao patrocínio da Maison des Auteurs de Angoulême. Supõe-se que nenhum deles foi contratado para obras deste tamanho, mas o peso não faz mal ao status.

Aí, quando o correio me entrega mais um caixote com conteúdo declarado “1 (ONE) BOOK” e é o primeiríssimo trabalho de uma quadrinista inglesa — Lighter than my Shadow, Katie Green, 528 páginas –, você tem quase certeza de que as propriedades físicas da obra viraram critério de seleção editorial. Ainda não li. Será que vale o quanto pesa?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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