Juan Villoro estará na Flip 2014

Foi confirmada a participação do escritor mexicano Juan Villoro na Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece de 30 de julho a 3 de agosto de 2014. Nascido em 1956, na Cidade do México, Villoro também é tradutor e professor universitário. Diversas vezes premiado por seu trabalho, é considerado um dos mais ativos intelectuais latino-americanos, escrevendo para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, e para os jornais El País e Reforma. É autor de O livro selvagem, lançado no Brasil em 2011.

Em junho a Companhia das Letras lançará o seu novo romance, Arrecife, em que o ex-roqueiro Mario Müller explora o medo como forma de turismo. Leia um trecho do livro (tradução de Josely Vianna Baptista):

* * *

Avistei uma lagartixa transparente na parede. Tenho um fraco por lagartixas. São uma esplêndida companhia para um viciado. Quando a gente alucina, a presença de um inseto se torna intolerável e quase todas as espécies representam uma ameaça. Mas as lagartixas se movem com graça e brilham no escuro. Eu via o movimento delas como a expressão gráfica de minhas ideias. Naquela época, minhas ideias eram poucas, mas as lagartixas (velozes, azuis, amarelas, verdes) me faziam pensar que eram muitas.

O Gringo Peterson gostava de ouvir relatos de minha condenação alucinógena. Seu melhor amigo morrera no Vietnã, rasgado de cima abaixo por uma baioneta. Na guerra do napalm, caiu num combate corpo a corpo, como um cherokee. Seu segundo melhor amigo voltou de lá viciado em heroína. “Nunca fui a Saigon”, dizia o Gringo. Era obcecado por esse assunto. Parte do meu cérebro tinha sido detonado pelas drogas. Ele gostava que eu lhe falasse de alucinações e de noites que eu não recordava direito. E me ouvia como se eu também tivesse vindo do Vietnã.

É difícil relatar o que a gente perdeu, mas ele se conformava em estar perto de alguém que tinha afundado. “Você já saiu”, dizia de repente: “isto aqui não é o Nam, é a porra do paraíso.”

Era bom ver um magnata desprezando o luxo de seu hotel. Peterson usava camisas em tons claros compradas na Sears. Tinha o cabelo cortado à escovinha. Seus braços musculosos, cobertos de pelos avermelhados, sugeriam exercícios extenuantes. Seu porte tinha um quê do militar que não conseguiu ser. Não o recrutaram por um problema de vista.

Bebia um uísque muito mais barato que o de Mario. Nas sessões de Four Roses ele perguntava detalhes daquela minha vida bandida, com uma curiosidade nobre, alheia à compaixão. Seus melhores amigos tinham tombado. Não era um patriota anticomunista. O Vietcong pouco lhe importava. Simplesmente, sua vida tinha um fundo trágico. Era um sobrevivente.

Nasceu em Wallingford, uma cidadezinha sem graça em meio aos bosques de Vermont. Seu pai era dono de um posto de gasolina. Peterson cresceu enchendo tanques de carros que paravam ali por apenas alguns minutos. Naquela cidadezinha em que ninguém ficava, ele não pensava em ir embora. Lia qualquer coisa na biblioteca pública, ia até a cidade vizinha de Rutland para ir ao cinema ou para comprar mantimentos, nadava no lago de águas frias, que no verão se enchia de mosquitos. Aos dezoito anos se casou com uma vizinha. Era gente feita para permanecer lá, num isolamento austero e suportável.

Peterson tinha dois amigos do peito com quem desmontava motores, bebia cerveja, falava sem parar de beisebol (era o que ele dizia: eu o imaginava num silêncio satisfeito, compartilhando uma amizade sem palavras enquanto um sol denso caía atrás do bosque). Aos dezenove anos teve um filho. Todo seu destino apontava para a imobilidade, a felicidade estática, a reiteração prazerosa. Mas o infortúnio o golpeou duas vezes nos anos seguintes: seu filho se afogou no lago e sua mulher morreu de uma intoxicação, talvez voluntária. Sua vida se transformou em algo que já havia acontecido. O resto, o futuro, não existia.

“Os Estados Unidos sempre lhe oferecem uma guerra para expiar as culpas”, disse-me ele. Seus melhores amigos foram para o Vietnã, mas ele foi recusado. “Não queria matar ninguém, queria morrer lá.” Ele pronunciou tantas vezes esta frase que, para mim, ela virou uma espécie de canção de Los Extraditables. Nesse ponto de sua ladainha ele tomava um trago para dizer: “Eu queria morrer; tive de me conformar em fazer sucesso”.

Na cidadezinha tudo o fazia lembrar da mulher e do filho. Enquanto isso, seus amigos atravessavam uma selva úmida, disparando entre nuvens de maconha, no compasso do Creedence Clearwater Revival.

Peterson abandonou Wallingford, conseguiu um trabalho no Howard Johnson’s de Rutland, mostrou um inusitado talento para se movimentar entre pessoas em trânsito, foi contratado pela cadeia Holyday Inn, onde prosperou nas diferentes funções de gerente de bebidas, chefe de pessoal e gerente geral.

Gostava de perguntar sobre meu pai, sobre como eu o imaginava, sobre as razões que atribuía a sua partida (desde a primeira vez que mencionei isso, ele não acreditou na possibilidade de que tivesse sido baleado em Tlatelolco). Ficava intrigado por eu me conformar com esse desaparecimento. A incerteza de não saber lhe parecia pior que a certeza da morte. No entanto, ele não me convencia de que seria tão melhor assim saber de tudo. Vivia ancorado na lembrança do filho que não conseguiu salvar. Lembrava, com uma capacidade desvairada para o detalhe, da corda partida do motor fora da borda na lancha em que percorria o lago, dos minutos em que ficou esperando o motor esfriar para dar-lhe um novo nó. Enquanto isso, o rádio de transistores transmitia uma partida dos Red Sox de Boston. Dedicou o quarto e o quinto tempos dessa partida para consertar o motor. Depois cruzou o lago, até o embarcadouro onde seu filho devia esperá-lo na companhia de alguns amigos que celebravam uma festa.

Ninguém viu o menino de dois anos se afastar, ninguém o ouviu chapinhar na água. Havia tanta gente na reunião que não pôde culpar ninguém em particular. Sua mulher estava em casa com febre. Peterson repassava com aguda insistência o momento em que distinguia uma mancha rosada na água e depois um pontinho branco. Seu filho estava com otite e usava algodão nos ouvidos. Esse exato detalhe o fez saber que estava morto. De todos os habitantes de Wallingford só dois estavam na água, o pai e o filho. De um modo sinistro, o menino havia chegado a quem o procurava. Mil vezes Peterson repassou o tempo dedicado a consertar o motor. Sempre foi um sujeito metódico. Ouviu dois tempos da partida enquanto arrumava a corda. Não foi um intervalo de tempo muito longo. Revisara as gravações da partida para saber até onde podia se incriminar. Não houve corridas nem jogadores nas bases no quarto tempo. Os rebatedores tinham sido “retirados em ordem”, como diziam os locutores. Na quinta deram três hits, mas tampouco houve corridas. Intervalos não muito longos. No entanto, isso bastou para marcar a diferença.

Peterson não teve uma responsabilidade objetiva na morte, mas salvar o filho era factível. Isso bastava para afundá-lo, para que buscasse, com esforço metódico, seu próprio afogamento. Nunca falou com Mario sobre isso; falava comigo, o viciado que não lembrava quase nada sobre o pai. Ele me tratava como um ex-combatente, alguém que se fodeu num Vietnã alternativo, a vítima que ele não conseguiu ser.

Cumpriu o sonho americano sem a menor vontade, e seus progressos lhe pareceram uma segunda aniquilação. Para mim, isso o dignificava. “É um danado de um safado, você não o conhece”, dizia Mario, para me provocar.

Os lugares habitados por desconhecidos, as cozinhas anônimas onde toda receita é industrial, foram o novo hábitat de Peterson. Nunca mais teve relações próximas com ninguém. Eu também não o qualificava como um verdadeiro amigo. Eu ouvia o relato de sua carreira sem meta e o informava sobre o mundo dilacerado que não pôde conhecer. Isso era tudo: estranhos nos trópicos.

O mais curioso em sua condição de empresário era como ele lidava com dinheiro. Era irremediavelmente viciado em hipódromos. Apostava seus ganhos para livrar-se deles. Vez por outra a sorte o maltratava, fazendo-o ganhar. Seguia as corridas, mas não se dava ao luxo de assistir ao derby de Epsom ou ao de Kentucky. Apostava por telefone, alheio ao espetáculo dos cavalos, concentrado somente nos nomes e nos números, como um puritano da fortuna que desconfia de tudo que não seja o resultado.

O Gringo Peterson me parecia um grande sujeito, a figura oposta à do vencedor. Ganhava porque havia fracassado no que na verdade lhe interessava. Seus cálculos frios e suas decisões acertadas vinham de um prolongado repúdio.

“Me conte como as lagartixas se movem quando você está drogado”, pedia; um filete de saliva lhe descia até o queixo. Eu não queria voltar para aquele inferno, mas tinha um fraco por lagartixas, uma das poucas memórias prazerosas dos anos em que limei meu cérebro.

Um dia perguntei a Peterson por que ele não dividiu a heroína com o sobrevivente de Saigon. “Não queria a droga, queria o castigo, queria a guerra. A heroína é o consolo dos heróis; eu não queria consolo”, explicou. Falei que eu tinha me drogado sem a guerra pelo meio. Então ele soltou uma gargalhada: “Você é mexicano, Tony. Vocês não precisam de uma guerra para se drogar. Aqui a realidade já está alterada.”

Um Comentário

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