WALY ESTÁ AQUI

Por Sofia Mariutti

(Capa por Elisa von Randow)

Há quem conheça Waly Salomão como o letrista que compôs canções em parceria com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco, Itamar Assumpção e Adriana Calcanhoto, para só citar meia dúzia de artistas.

Há quem o conheça como aquele que escreveu os versos “Oh, sim/ eu estou tão cansado/ mas não pra dizer/ que não acredito mais em você”.

Há quem conheça Waly como o diretor de um espetáculo que marcou a história da música brasileira: FA-TAL ― GAL A TODO VAPOR.

Há quem o conheça como interlocutor de Hélio Oiticica e Lina Bo Bardi, criador dos poemas visuais Babilaques, “admiráveis obras de arte” nas palavras de Antonio Cícero.

Há ainda quem o conheça por ter sido homem público, Diretor da Fundação Gregório de Matos de Salvador e Coordenador do carnaval da Bahia, que ele procurou transformar, apoiando blocos afros como Ilê Ayê e Olodum.

Há quem o conheça como Waly Sailormoon, espécie de entidade poética ou alter-ego desse artista múltiplo.

E há quem o conheça como um poeta extremo, radical, que sempre buscou a inovação em suas obras, rompendo as fronteiras entre a poesia e todas essas artes que ele conhecia muito bem.

Para todos esses, e também para aqueles que estão abertos a conhecer uma das figuras mais fecundas e heterogêneas da cultura brasileira recente, a Companhia das Letras tem o orgulho e a alegria de anunciar que WALY ESTÁ AQUI.

Me segura qu’eu vou dar um troço, Gigolô de bibelôs, Algaravias, Lábia, Tarifa de embarque e Pescados vivos: o poeta total reunido pela primeira vez num só volume, que conta ainda com uma seção de canções inéditas em livro e um apêndice com os mais relevantes textos críticos sobre sua obra.

Poesia total fica pronto no começo de maio. Por ora deixamos um gostinho para vocês:

Ars Poética

Operação limpeza

Assi me tem repartido extremos, que não entendo…
Sá de Miranda

I. SAUDADE é uma palavra
Da língua portuguesa
A cujo enxurro
Sou sempre avesso
SAUDADE é uma palavra
A ser banida
Do uso corrente
Da expressão coloquial
Da assembleia constituinte
Do dicionário
Da onomástica
Do epistolário
Da inscrição tumular
Da carta geográfica
Da canção popular
Da fantasmática do corpo
Do mapa da afeição
Da praia do poema
Pra não depositar
Aluvião
Aqui
Nesta ribeira.

II. Súbito
Sub-reptícia sucurijuba
A reprimida resplandece
Se meta-formoseia
Se mata
O q parecia pau de braúna
Quiçá pedra de breu
Quiçá pedra de breu
                              CINTILA
Re-nova cobra rompe o ovo
De casca velha
                              SIBILA

III. SAUDADE é uma palavra
O sol da idade e o sal das lágrimas.

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.