Deixa a vida me levar

Por Luiz Schwarcz


Desde a venda de 45% das ações da Companhia das Letras para a Penguin, minha vida profissional não para de mudar, ou de apresentar novidades. A Penguin não foi a primeira editora internacional a ter expressado o desejo de se juntar a nós. Curiosamente, a Random House — que há nove meses se associou, como sócia majoritária, à editora inglesa da qual nos tornamos sócios em 2012 — havia precedido a Penguin com esse mesmo intuito. A abordagem da Random House ocorreu entre 2006 e 2007, mas o projeto não foi em frente por uma decisão do conselho da Bertelsmann, empresa alemã controladora da Random House.

Preciso confessar que, no final das contas, tive muita sorte — como em muitos momentos da minha vida profissional. Naquela ocasião, recuperado há pouco de uma depressão forte, eu pensava em vender a empresa; queria aos poucos me afastar da profissão e ir morar parcialmente no interior. Pensava em tentar uma outra carreira profissional, talvez a de escritor. Acho que já deu para sentir o tamanho do equívoco que, felizmente, a titubeada do conselho germânico da grande editora norte-americana me impediu de cometer.

Alguns anos depois, quando a conversa com a Penguin tornou-se séria, eu fiquei fascinado com as portas que se abriam, por razões opostas às que me fizeram conversar com a Random House anteriormente. Concordei em vender parte minoritária da Companhia para poder aprender coisas novas, atuar em áreas editoriais que desconhecia. Me associei para trabalhar mais, não para me afastar da minha profissão.

Dito e feito: se eram novas emoções e experiências que eu buscava, elas vieram logo e de mão cheia.

Frequentei a Penguin nos EUA e na Inglaterra por várias temporadas; fui a dois encontros de publishers, que os “pinguins” intitulam de Venice — já que o primeiro ocorreu em Veneza. A primeira destas reuniões a que fui deu-se em Charleston e a segunda em Istambul. Acabo de voltar de um outro encontro, desta vez em Connecticut, onde reuniram-se os publishers e presidentes das editoras Penguin e Random House dos Estados Unidos, Inglaterra, Espanha e Alemanha.

Nesses encontros conheci muita gente e aprendi muito. Ampliei meus contatos, aprofundando minha amizade com os editores dos selos literários similares à Companhia das Letras, e conhecendo editores de selos comerciais, com quem nunca estabelecera qualquer tipo de relação profissional; atores de mundos bastante distintos.

Em outubro de 2012 eu soube em primeira mão que Penguin e Random House iriam se juntar. A notícia chegou durante a Feira de Frankfurt, curiosamente no dia posterior a um jantar com o CEO da Penguin, meu amigo John Makinson, quando a Lili e eu celebramos com ele e o agente literário Andrew Wylie o aniversário desse meu novo sócio. De bico calado durante o jantar, John deixou a surpresa para a reunião na manhã seguinte.

Foi um susto. Mal as coisas começavam a engrenar, a pequena Companhia das Letras aos poucos se tornava conhecida na gigante Penguin, e esta resolveu se agigantar ainda mais.

Somente em julho de 2013 a fusão se efetivou. Também levamos um tempo para resolver se ingressávamos no novo grupo, garantindo enquanto isso que nossa independência fosse preservada. E na primeira semana de dezembro de 2013, com todas as garantias de que nada mudaria, a Companhia das Letras topou fazer parte do novo grupo.

Uma semana após “chacoalharmos nossas mãos”, numa tradução milloriana às avessas (para quem não sabe, Millôr Fernandes escreveu um livro engraçadíssimo com traduções literárias de expressões brasileiras para o inglês, chamado The cow went to the swamp, que publicaremos em maio), fui procurado pela direção da Penguin Random House para saber se aceitaríamos juntar nossas forças com a editora Objetiva, no Brasil. Pouco antes havíamos combinado que a Companhia das Letras não expandiria mais suas atividades; ou melhor, para os próximos anos o que eu desejava mesmo era uma vida sem novas emoções deste porte, aprofundando apenas o aprendizado e a expansão que havíamos começado desde os primórdios da sociedade com a Penguin.

Respirei fundo. Eu estava no meio de um almoço de final do ano, altamente etílico, com um grupo grande de amigos. Em princípio uma grande fusão com outra editora brasileira era tudo o que eu preferiria evitar naquele momento. Por outro lado, se eu sonhava com um vida mais calma por um tempo, a parceria oferecida era com uma das melhores editoras do Brasil, tocada por Roberto Feith, editor que admiro muito e com quem tenho a melhor relação possível. Um sim me aproximaria de Roberto Feith e de sua equipe, mas traria tudo menos a calmaria tão desejada.

Bem, penso que todos sabem qual foi a minha resposta, embalada pelo samba que dá nome a este post. Acho que fiz a coisa certa. O tempo dirá, mas por ora estou muito feliz.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

5 Comentários

  1. Elianne disse:

    Luiz, você tem sensibilidade para saber com quem anda :)
    ande em boa Cia e não perderás o charme- falo da editora, viu?
    Abraço, Elianne

  2. Estimado Luiz,

    Devo confessar à você que ando um pouco afastada do mundo dos livros. Me dou ao direito de por de lado, como aprendizado coadjuvante, muita coisa que aprendi em mais de 20 anos de profissão, mas devo confessar que um bom convite me traria à tona neste mundo tão volúvel, como o dos livros. Outro dia estava eu na livraria cultura e vi Matinas, que participava então de um lançamento quase jornalistico, fiquei observando e pesando a figura dele como grande representante da Companhia. Olhei para os lados e não pude deixar de sentir sua ausência. Luiz, esteja certo de que você é e sempre será a voz e a figura que representa o que você criou.Ninguém irá substituí-lo. Talvez a Companhia dentro de alguns anos deixe de existir, ou deixe de se chamar Companhia das Letras e aí sim, você poderá se dar ao luxo de simplesmente se passar por anônimo durante o lançamento de um livro. As coisas têm o seu tempo e o seu momento e certamente não são eternas. As pessoas e suas obras sim, sempre serão.

  3. Juliette disse:

    De tudo que foi escrito nest post a frase mais importante e’ esta: ” mas por ora estou muito feliz”…que bom, gente feliz deixa o mundo mais bonito.

    abraco
    Juliette

  4. Caetano disse:

    Só que é um bandolim, né? na foto…
    :)

  5. André Françoso disse:

    Uma coisa é certa, se não é a maior, a Cia é a mais moderna e arejada das três.

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