Em tradução (Smith)

Por Caetano Galindo


Então. Já falei de Ali Smith aqui. De como eu me orgulho de ser o tradutor dela no Brasil.

Pois bem. Nas férias eu e a Sandra (Stroparo, que também já traduziu aqui pra casa) fomos a Londres. Legal, né? Super.

Eu sou curitibano, que é uma subespécie de barata. Que se esconde pelos cantos e foge da luz. Menos nojento, no entanto, na maioria das opiniões.

Mas mesmo assim, estando lá, me deu uma coceira social. A gente estava com planos de conhecer Cambridge (na outra ida, dez anos atrás, passamos dias bem felizes em Oxford) e eu sabia que a grande Ms. Smith morava lá.

Mandei um e-mail pra Tracy, agente dela (que aliás estava grávida! Benvinda filha, benvindo filho da Tracy! [ela não quis saber qual seria]), e falei que a gente topava dar uma corrida a Cambridge no dia que fosse mais legal pra grande escritora, se ela estivesse a fim de um café. A cuppa. Whatever.

Coisa de uma hora depois recebo um e-mail propondo data, hora e local, porque Ali Smith viria a Londres na semana seguinte. Claro. Oba.

Fomos.

* * *

Nada. Mas nada mesmo teria nos deixado prontos pra ela. Todo mundo que já tinha falado com ela aqui na Flip (aliás, ela morre de vontade de voltar; viu, organizadores…) dizia a mesma coisa. Que a mulher era de uma simpatia, de uma fofura quase surreais.

Saímos de lá encantados. Ela é um amor. Ela é tão simpática e tão proativamente simpática que até minha linda frase de efeito, treinada logo antes, eu esqueci de usar.

Hello, I am you.

E ela é tão simpática que eu me senti imediatamente à vontade pra contar que tinha pensado nessa frase de efeito etc. E ela achou bacana. E deu ainda pra rir junto.

Saí daquela sala dos membros da Tate Modern com a sensação de que a minha missão na vida, como tradutor, é representar bem essa moça. É ser ela do jeito mais eficiente que eu possa. Porque os livros dela, eu já sabia. Merecem. Mas ela agora merece mais ainda.

* * *

Querem uma estória ainda mais fofolete? Pois a gente (eu e a Sofia) estava quebrando a cabeça com o título, totalmente intraduzível, do último romance dela. Estávamos entre o jogo linguístico-estrutural complexo e a tentativa de imprimir na capa algo que chamasse eventualmente mais leitores. Algo mais comercial. Todos os leitores de Ali Smith, vivemos desesperados, afinal, pra fazer mais gente saber o que está perdendo…

Pois não é que (juro, tá? Verdade…) na noite anterior a esse encontro, eu sonhei com um título? Tipo, nada a ver com nenhuma das linhas que a gente estava tentando seguir. Nada. Mas sonhei. E meio que me deu um arrepio, porque era bom… era bacanão…

Contei isso pra Ali (hmmm, first names…). Ela achou legal e me pediu pra saber o título. Quando eu contei, a reação dela merecia um filme em HD.

Ela travou, tremeu em alta velocidade (juro), abriu uns olhos enormes e começou a falar que se dispunha a escrever uma longa carta pra editora provando que só aquele título caberia.

Eu ri. Mas ao mesmo tempo fiquei comovido pacas.

Ficar excitada desse jeito com palavras. É isso que faz Ali Smith ser quem é. Frisson. Tesão. Invenção.

(Porque o título ainda tinha um minitrocadilho.)

É bem verdade que a conversa foi tão boa que a gente já decidiu até o título em português do romance que ela ainda está escrevendo!, mas, enquanto isso, fiquem curiosos por esse que vai sair, e que, com as bênçãos da autora, de Morfeu e da Sofia (a tal carta nem foi necessária, afinal) há de se chamar Suíte em quatro movimentos.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

 

8 Comentários

  1. admin disse:

    Olá, Mayara!

    Optamos por manter “Suíte em quatro movimentos” não justificado como no original, pois entendemos que era uma opção da autora. Quanto ao livro de contos, deveria ser também não justificado. Se ele tiver sido publicado com o texto justificado, foi um erro nosso, pelo qual pedimos desculpas. :)

  2. mayara disse:

    oi, eu preciso perguntar uma coisa:

    (mas, antes: eu adoro a ali smith, amei o livro de contos, amei o ‘por acaso’, o ‘hotel mundo’, e tô lendo ‘suíte em quatro movimentos’ como quem saboreia o mais maravilhoso cranachan. e, ah, caetano g.: também acho você incrível – tipo o batman da tradução! haha).

    enfim, feitas as devidas observações, alguém aí me diz, pelos céus!, por que os romances – e só os romances! – dela são editados tortinhos????!!!! (sem justificação de página, eu quero dizer!).
    hahaha, eu sei que tem uma justificativa – a falta de justificação (trocadilho inevitável, sorry!) -, e que provavelmente os originais em inglês devam ser assim. e não que me incomode muito também, mas me incomoda horrores não saber o porquê!!!! (é, tipo, o contemporâneo que está torto? a ficção que não se acomoda mais à forma tradicional? loucura da escocesa? loucura de vocês?)

    anyway, obrigada e parabéns, caetano, pelas ótimas colunas e incrível trabalho!
    mayara

  3. sofia disse:

    “I am you”
    demais, galindo!

  4. Thiago Sales disse:

    Ainda bem que ele não é assina por Beth Vieira, como foi sugerido, porque encontrei erros grosseiros de tradução quando li “As avós”, traduzido por ela.

  5. Caetano disse:

    Ehehehe… Não… eu não respondo por outros nomes não. Eu só fui “assumir” a tradução da Ali Smith a partir de “Hotel Mundo”.

  6. Tuca disse:

    Caraca, chega deu um arrepio aqui.
    *
    A foto tá massa, tá fofa, tá tudibão.
    *
    O livro em questão é o tal do “There But Fot The”? Animadaço pra ler.
    *
    Por enquanto, fico feliz apenas que tenham devolvido o “A primeira pessoa” na biblioteca pública. Acho que finalmente leio esse.
    *
    (Gostei muito do texto.)

  7. Ramon de Córdova disse:

    “Suíte em quatro movimentos”. Achei o título altamente convidativo, instigante, inspirador! Não conheço as possibilidades anteriores, mas esta já me deixou com vontade de dançar, escutar, ler, whatever!
    E a história sobre o título, então, uma fofoletura, mesmo!
    A propósito, a Ali Smith tem uma cara de curitibana que só vendo!
    Ps. teus posts sobre a autora e suas obras me despertaram total a curiosidade e, movido por tais comentários e exaltações, saí em busca de algo dela que me abrisse as portas de seu universo. E não teve pra onde! Assim, de chofre, Garota Encontra Garoto, tão somente pela temática, foi o livro pinçado em meio às possibilidades. E aí ficou-me a dúvida: Beth Vieira é você de saias?

  8. Mariana Souza disse:

    Gente que coincidência. Acabei de ler “A primeira pessoa” de Ali Smith traduzido pelo Galindo e achei o livro maravilhoso. O meu conto favorito foi sem dúvida “A criança”. Que conto ótimo e original.
    Mariana

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