Jacaré que nāo se mexe vira bolsa

Por Alexandre Vidal Porto


Há alguns anos, escrevia duas histórias ao mesmo tempo. A primeira era sobre uma psiquiatra que se apaixonava por um paciente; a segunda, sobre o assassinato brutal de uma travesti brasileira na Espanha.

Como a busca existencial de um adolescente paulista derivou dessas duas histórias é um mistério para mim. Muitas vezes os filhos não se parecem com os pais. Acho que foi esse o caso.  A única coisa de que me lembro é que o processo misterioso de transubstanciação se iniciou na Cidade do México, lá para os lados do Bosque de Chapultepec.

Eu sempre admirei pessoas que abandonaram uma vida insatisfatória pela esperança de algo melhor em outro lugar. Tenho curiosidade por quem saiu do Paquistão para dirigir um táxi em Nova York. Olho com interesse para o boliviano que vende brinquedos nos sinais de trânsito de São Paulo. De quanta coragem eles precisaram para recomeçar em um país estrangeiro?

O tal adolescente paulista Sergio Y. considera-se fadado à infelicidade. Para tentar mudar esse destino, procura Dr. Armando, um dos melhores psicoterapeutas da cidade. É este o ponto de partida da viagem que empreende.

A necessidade potencializa a coragem. Mas a coragem só se executa com otimismo. Quem abandona onde está acredita na possibilidade de a vida melhorar. Sergio Y. partilha a herança de otimismo do seu bisavô, Areg Yacoubian, de que a felicidade existe e de que vale a pena buscá-la.

Dr. Armando não sabia que Sergio Y. era corajoso e que sairia do Brasil para se reinventar em outro país. Anos depois da terapia, quando descobre os caminhos insuspeitos que a vida de seu ex-paciente tomou, fica chocado e demora a entender o que aconteceu.

Para Sergio Y. e os motoristas de táxi paquistaneses em Nova York e os ambulantes bolivianos em São Paulo a geografia, física ou social, impedia uma vida feliz. Para eles, “o que sou” e “ o que posso ser” eram limitados pelo “onde estou”. Quando o local em que estavam não permitiu felicidade, o deslocamento lhes surgiu como possibilidade existencial.

Essa história é para quem acredita nessa possibilidade e sente que tem toda a vida e todos os lugares do mundo para tentar ser mais feliz. Sergio Y. foi à América. Areg Yacoubian veio ao Brasil, mas a viagem dos dois foi a mesma.

Escrevi Sergio Y. vai à América entre Cidade do México, Brasília, Washington e Tóquio. Para ajudar na promoção do livro e acabar de escrever o próximo, resolvi me mudar para São Paulo.

É que o impulso do deslocamento é contagioso; e a vontade de ser feliz, também.

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SERGIO Y. VAI À AMÉRICA
Sinopse:
O jovem Sergio Y., bem-nascido e aparentemente sem grandes dramas na sua ainda curta existência embora se considere infeliz , é um “paciente interessante”, como diz o narrador. Frequenta o consultório regularmente, rememora aspectos da sua formação familiar, mas um dia desaparece para sempre, abandonando o tratamento. A esse mistério se acrescenta outro, acachapante, que tira a aparente serenidade do psiquiatra e o faz incursionar em uma busca que tem tanto de detetivesca quanto de psicanalítica.

Evento de lançamento:

São Paulo: Segunda-feira, 28 de abril, no Teatro Eva Herz na Livraria Cultura do Conjunto Nacional Av. Paulista, 2073
19h30 Drauzio entrevista Alexandre Vidal Porto
20h30 Sessão de autógrafos e coquetel

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Alexandre Vidal Porto nasceu em São Paulo, em 1965. Diplomata e mestre em direito pela Universidade Harvard, é colunista do jornal Folha de S.Paulo e autor de Matias na cidade (2005) e Sergio Y. vai à América (2014).

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5 Comentários

  1. […] romance de Alexandre Vidal Porto, Sergio Y. vai à América recebeu o prêmio Paraná de Literatura de 2012. Minha amiga tinha dito: […]

  2. Marcia Feldon Borger disse:

    Narrativa primorosa! Existencial.

  3. Sonia Nobre disse:

    Belo texto. Coerência de vida. Parabéns.

  4. Deleon disse:

    O engraçado é que a medida que eu ia lendo fui identificando cada vez mais um pouco de mim mesmo. Espero conseguir ler logo este livro, e que também seja um sucesso e tenha boa repercussão!

  5. Angela disse:

    Aos 60 anos, estou recomeçando nos EUA. Muita coragem e força, pois vivo outra realidade em todos os sentidos.

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