Making of

Por Paulo Scott

1.

Nestes tempos de acesso online a filmes, seriados e entretenimentos audiovisuais de toda natureza, um DVD, ou blu-ray, se justifica quando traz bons extras dentre os extras não há nada mais interessante do que o making of, aquele documentário no qual são registrados os bastidores da pré-produção, produção e realização da obra audiovisual. No making of, eventualmente, é possível descobrir ótimas linhas de argumentação, justificativas e defesas do que foi contado no filme, do que se pretendeu contar no filme, além de diálogos elucidativos entre diretor e produtor, diretor e ator, diretor e técnico, e por aí.

Em alguns casos, o making of é mais interessante do que o filme em si e, noutros, expande e confirma a narrativa já captada e aplaudida. Sempre que penso em um ótimo filme que teve um making of à altura lembro o caso do filme Blade Runner O caçador de androides, do Ridley Scott, último filme futurista de grande impacto produzido pela indústria cinematográfica ocidental sem recorrer massivamente à computação gráfica.

Não tem jeito, a mecânica do paraquedismo cognitivo funciona assim, você valoriza ainda mais aquilo que gostou quando fica sabendo de certos detalhes, quando recebe certas informações, mesmo que no processo do revelar se quebre o aconchegante encanto da ignorância. No caso do Blade Runner, a saga em torno da elaboração do roteiro do filme sem esquecer que o filme se baseou no romance Do androids dream of electric sheep?, do escritor norte-americano Philip K. Dick é impagável. Recomendo.

2.

Será que alguns livros seriam mais bem recebidos se fossem oferecidos com um anexo, e nesse anexo viesse um making of ou algo que cumprisse função semelhante? Certamente não. Entretanto, não são poucos os casos em que o leitor muda de opinião a respeito de um livro após conhecer as justificativas, pela voz do seu autor ou de terceiros, que conduziram à feitura da obra. Convenhamos, não é o melhor caminho. Há também, embora seja claramente contexto diverso, aqueles casos em que espectador de palestra, após o fim da palestra, motivado pela eloquência do autor, pela empatia que desenvolvera em relação àquele autor, compra o livro e, vencida a etapa do obter o autógrafo do autor, nunca mais se dá o trabalho de abri-lo; é quando o livro vira objeto de decoração. Isso faz lembrar a síndrome do eu te sigo, eu te adoro, sou teu fã, mas acho que nunca te li. Evite.

Essa conversa de making of na literatura esclareço que se há algum sentido na coluna de hoje é tão somente o da exposição de alguma conjectura , respinga em várias direções, inclusive na mais remota que contempla a participação de escritores em encontros literários, em diálogos e questionários literários, nos quais autores são convidados a enfrentar, como verdadeiros comentadores, autorizados, semiautorizados, não autorizados, de si mesmos, o que produziram, a analisar festivamente (leia-se: tornar mais interessante o objeto da digressão do que ele é) o que produziram, sujeitando-se a diferentes graus de constrangimento e de autoconstrangimento, o que sempre dependerá de sua própria disposição, de sua casuística.

Estranha (a partir da pergunta, que não é em si uma pergunta relevante) essa sensação de realização, e projeção interminável e obrigatória, de um making of daquilo que um dia se escreveu para ser apresentado como literatura. Estranha a consciência de que todos nós, em graus diferentes de autoconstrangimento, estamos em pleno exercício da realização, inevitavelmente intercalada por eventuais projeções prematuras, do making of do que fazemos e, o que é mais grave, inegavelmente acumulando milhagens pro grande voo: o making of das nossas vidas. Estranha pertinência, mesmo tendo sido escrita no começo dos anos oitenta, esta pertinência da canção do músico gaúcho Nei Lisboa: Meu amigo, não se desfaça nessa fama / Todo esse mundo do rock’n’roll / É ruim de cama / Eles querem diversão e bolo / Eles querem tudo e mais um pouco / Eles querem Krig-há, Bandolo! / E champaigne / Eles querem frases nos jornais / Eles querem parecer sinceros demais / Eles querem diversão e bolo / Eles querem te fazer de tolo / E eu também.

3.

Vive-se neste angustiante editar e reeditar, e não estou falando de literatura, falo de algo maior; e ao escritor sempre estarão disponíveis maturidade e silêncio, não exatamente um junto ao outro. Mas como fará o escritor neste mundo e nesta rotina em que o escritor ganha, logo consegue dinheiro para pagar suas contas, para falar e falar e falar do que escreveu e do que não escreveu? Sei que não tenho tanta coisa assim a dizer, sei que me justifico muito mais ouvindo, escutando, do que falando. Sei que há convites que jamais vou aceitar.

Se o filme for uma droga não despertará qualquer interesse pelo making of, e tudo se decidirá no plano mais elementar: no simples abandono. Tenho trabalhado com a ideia do abandono na minha rotina de escrita do romance novo, e a abordagem do tema, agora que estou entrando na reta final, já não é a mesma do início dos trabalhos; incrível como as certezas mudam ao longo da escrita de uma narrativa longa. Tenho pensado, mas isso não passa de cogitação, que talvez literatura não seja esquecimento (essa tese da qual tenho falado por aí), talvez seja abandono (e só depois esquecimento), porque cada leitura que desperte algum reconhecimento, com ajuda ou não de making of, se acumula num roteiro, numa condução de roteiro, que posiciona o leitor em lugar novo, forçando-o a abandonar a sua exatidão anterior, a que ele segurava antes da leitura.

O fato é que um bom livro de literatura tem sua resistência e tem seus aliados, certamente um making of não é um deles. Um making of, apenas pela evidência e em favor da metáfora aqui praticadas, não é um fundamento e não é resistência mesmo que se diga sobre ser hoje outro tempo, outra época, a época da exposição a valer, e que ele, mesmo sendo metáfora, em sua função, não existia porque nunca havia sido necessário , mas também não é ameaça. No final, acaba sendo uma etapa possível, que nos lembrará, ao início da exaustão de falar, que o importante, até mais do que escrever um livro, é ler, talvez reconhecer, e pensar, ajustar, e calar.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

5 Comentários

  1. Paulo Scott disse:

    Tenho lido menos do que gostaria, Liliane, mas tenho mantido alguma regularidade na leitura de poesia (então acho que nem tudo está perdido). Obrigado pelos comentários.
    Abraço

  2. Paulo Scott disse:

    Obrigado pela dica e pelo comentário, Davi.
    Abração

  3. Davi B. disse:

    Paulo, um assunto interessante, polêmico e que muita gente não conhece, em se tratando de making of, é o estudo pela Academia dos manuscritos dos livros, a chamada Crítica Genética. Não é uma discussão consenso, já que bate de frente com o conceito de obra e de umidade, mas Vale se conhecer e, para escritores, Vale pensar bastante sobre, principalmente no pensamento de que a obra é um organismo em processo e o livro publicado é somente um estágio mais ou menos estável do trabalho. Recomendo uma olhada no site do Delfos, órgão da PUCRS responsável pela conservação de diversos manuscritos, incluindo o acervo de Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu e Dyonélio Machado. Um abraço.

  4. Tem o blog da Companhia das Letras no meu blog, é bom demais.
    Assim, não esqueço de ler.

  5. Eu amo ler. E queria ter muito tempo, ou maior tempo para me dedicar a ler o que já tenho na Estante.
    Mas esse tempo parece que nunca vai existir.

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