Um tijolo de estreia

Por Carol Bensimon


No último encontro do clube de leitura, parece que fizemos de tudo para que esse esquema de reuniões nem tão mensais assim sucumbisse de vez, esmagado pela rotina de cada um dos integrantes do grupo: escolhemos como próxima leitura um livro de mais de 500 páginas e esgotado na editora. Eu estou falando de Dentes brancos, romance de estreia de Zadie Smith. Não sei de quem foi a ideia. Na hora, pareceu excelente. Aham, vamos lá, Zadie Smith, Dentes brancos. Então saímos à cata do livro, mas já com alguma preguiça. Veio o verão. Mais preguiça e desordem, e cada um com suas próprias leituras muito particulares, que vão da teoria do romance policial, passam pelo planejamento urbano de Los Angeles e chegam em Louis-Ferdinand Céline. Depois, extraviaram os Dentes brancos de uma integrante do grupo. Outra viajou ao Egito e me trouxe de presente um retrato de Gamal Abdel Nasser. O tempo, enfim, foi passando desse jeito.

Quase maio, e nós finalmente marcamos o encontro. Estou terminando o livro. Zadie Smith tinha 21 anos quando o escreveu, isso não sai da minha cabeça. 21 anos! A questão é que é bom e, como eu disse antes, enorme. Tudo começou com um conto e se transformou nesse romance que abrange quase 100 anos de história. Quer dizer que a menina, além de tudo, ainda fez alguma pesquisa. Daí a gente fica, assim, pensando. Por que o brasileiro raramente escreve um tijolão? As ideias dos brasileiros por acaso já nascem compactas? Ou, outra hipótese: as ideias que gerariam romances caudalosos são infelizmente tolhidas por um mercado que talvez não esteja tão interessado assim em romances nacionais de 500 páginas? Ou ainda: o escritor brasileiro está pouco disposto a se debruçar sobre uma história que exigiria tanto de seu tempo e dedicação, seja por questões práticas (é preciso pagar o aluguel, etc.), seja por motivações bem menos nobres (o que se quer no fim com essa carreira é certo poder simbólico, se der pra ser rápido então, melhor, a parte chata é sentar a bunda e escrever, mais vale sair no jornal e rodar festival disso e daquilo)?

Há também a hipótese mais ampla: tijolões seriam uma espécie de prova de “maturidade literária nacional” e, nesse caso, a literatura brasileira ainda se comportaria como uma adolescente birrenta, impulsiva e impaciente.

O sucesso de público e crítica de Dentes brancos jogou todos os holofotes pra cima da menina Zadie. Em uma entrevista para o Guardian em 2000, ela parece ofuscada e atrapalhada com as próprias palavras. O que ela odeia nessa história de falar, relata o entrevistador, é que ela não pode se editar (me abraça, Zadie Smith). E daí ela se lembra de repente de uma citação de Nabokov: “Escrevia como um gênio, pensava como um homem das letras, falava como uma criança”.

Há pelo menos mais dois ótimos momentos nessa entrevista: 1) quando ela conta que foi a uma sessão de fotos para uma revista, e que havia todo esse exército de maquiadores e pequenos vestidos Prada para ela vestir. “Eu não me importaria se eu visse uma sessão de fotos de 5 horas com Martin Amis, mas isso não acontece. Se você é uma mulher, (…) então precisa se apresentar como alguém atraente, mesmo que você seja uma cientista espacial”. 2) Zadie Smith dizendo que oficinas literárias lhe causam horror, porque a maioria delas funciona como um grupo de apoio ao tipo de pessoa que acha que escrever é terapêutico. “Escrever é exatamente o oposto de terapia.”

Se for difícil achar Dentes brancos, confie em Sobre a beleza. Belo livro. De 448 páginas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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26 Comentários

  1. […] brasileira contemporânea. Há muitas razões para isso, e acho que levantei alguns deles nessa antiga coluna que fala sobre livros extensos. A de natureza prática não pode com certeza ser ignorada: em um país onde o mercado literário […]

  2. Weslley disse:

    Acredito que a verdadeira intenção do comentário foi distorcia. Participo desde o primeiro clube da companhia, quando ainda era só da pinguim no conjunto nacional e não poucas vezes as pessoas não conseguiam ler a obra inteira, mesmo os menores, isso causava uma frustração, igual a da moça aí, as necessidades mais urgentes da vida tem prioridade. Não é fácil fazer um bom clube de leitura o mediador tem que ser bastante comprometido, mas quando o grupo está bastante homogêneo aí é vida. Atualmente participo de três clubes, dos quais apenas um flui. Tem muita vontade de ser mediador um dia, porque sei aonde está as falhas, e também porque gosto dos clubes, claro. Quanto a questão de estarmos compactos o que dizer de autores como, Herta Muller, Doris Lessing. Que está compacto consegue expandir? Quem está expandido consegue compactar? Provavelmente sim. Mas é isso o que importa?

  3. Paula Simões disse:

    Um defeito de cor da escritora mineira Ana Maria Gonçalves é um tijolaço maravilhoso de 954 páginas. Vale a pena conferir.

  4. Ricardo Bins di Napoli disse:

    Oi Carol.

    Li dois tijolos inesquecíveis em umas férias de verão em Capão: A Montanha Magica e Conversa na Catedral. Mas penso que se precisa de tempo. Falando em Tempo. Não consegui ler Em busca do Tempo Perdido de Proust. Acho que tanto para criar como para ler precisa-se concentração, persistência. No caso da criação planejamento e criatividade.

  5. Fatima Pombo disse:

    \\\\\\\\\ as vezes um livrinho de setenta e cinco páginas diz muito mais do que um livrão de mil e setecentas páginas!

  6. ^mario disse:

    É preciso se dizer,que a resposta se encontra,até mesmo na forma de se comentar um por quê!,e a respeito do porque os autores nacionais não empreendem livros volumosos.A atitude simplista em se desprezar o uso completo da atividade da conversação,e com todos os complementos possíveis a se estabelecer um raciocínio,acaba,naturalmente,por sucumbir o excesso criativo.
    Alguns compêndios,tenho notado,ou têm valor técnico:caso dos compêndios de estudos universitários,…teses,por exemplo,ou de cadernos específicos de determinados setores,econômicos ou jurídicos,…vejam os volumosos livros de Rui Barbosa,muito bem escritos,mas que não se adensam sobre uma literatura do imaginário.
    Acredito que não temos a cultura da conversação;principalmente,e se temos alguma,gira em torno de banalidades,nunca sendo possível se propor algo interessante para uma aventura excitante para longas dissertações em livros.

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