A importância de ser gentil

Por George Saunders
(Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

Nesta semana, lançamos o novo livro de George Saunders no Brasil, Dez de dezembro. O volume de dez contos aborda os dramas e as delícias da classe média urbana, a relação entre pais e filhos, as pequenas imposturas que cometemos quando queremos agradar um desconhecido.

No ano passado, George Saunders foi convidado para discursar na formatura da turma de 2013 da Syracuse University. Seu discurso não falou apenas sobre o futuro profissional dos alunos ou os desafios que encontrariam. Saunders lembrou os recém-formados sobre uma coisa muito mais importante: as pessoas devem ser mais gentis umas com as outras, independente de seus objetivos. Leia a seguir o discurso completo de George Saunders.

* * *

Através dos tempos, estabeleceu-se um padrão para este tipo de discurso, a saber: algum velhote, já bem entrado em anos, que no curso de sua vida cometeu uma série de equívocos lamentáveis (este sou eu), oferece aconselhamento sincero a um grupo de jovens brilhantes e viris, cujos melhores anos de suas vidas estão por vir (estes são vocês).

Pretendo respeitar essa tradição.

Assim, se há algo útil que vocês podem obter de um velho, além de lhes pedir dinheiro emprestado, ou insistir para eles mostrarem algum dos seus antigos passos de “dança”, para fazê-los rir enquanto assistem, é perguntar a ele: “O que você lamenta em seu passado?” E eles lhes dirão. Em algumas ocasiões, como vocês devem saber, eles lhes dirão mesmo se ninguém tiver perguntado nada. Em outras ainda, mesmo que vocês tenham lhes pedido especificamente para não contarem nada, eles vão falar.

O que eu lamento, então? Ter sido pobre ocasionalmente? Não mesmo. Ter tido empregos terríveis, como “desconjuntador em um abatedouro”? (E nem me perguntem o que isso implica.) Não, não lamento por isso. Mergulhar pelado num rio em Sumatra, um pouco alterado, e ao olhar para cima divisar uns trezentos macacos sentados em um cano, fazendo cocô no rio, no rio em que eu estava nadando, com minha boca aberta, pelado? E cair mortalmente enfermo logo a seguir, continuando assim nos sete meses seguintes? Não muito. Será que me lamento pelas ocasionais humilhações? Como aquela vez em que, jogando hockey diante de um público enorme, que incluía essa garota de quem eu gostava imensamente, eu de algum modo consegui, enquanto caía e soltava um cacarejar estranhíssimo, marcar um gol contra e ao mesmo tempo lançar meu bastão em voo na direção do público, não acertando aquela garota por um triz? Não, nem isso eu lamento.

Mas eis algo que realmente lamento.

Quando eu estava no sétimo ano, uma garota nova entrou pra nossa turma. Para preservar os envolvidos, seu nome neste discurso de formatura será “Ellen”. Ellen era miúda, tímida. Usava aqueles óculos azuis em forma de gatinhos que, naquele tempo, só mulheres mais velhas usavam. Quando estava tensa, e isso era praticamente sempre, ela costumava colocar uma mecha de seu próprio cabelo na boca e passava a mastigar aquilo.

Bem, ela se mudou para a nossa escola e para o nosso bairro e na maior parte do tempo era ignorada, às vezes zoada (“É gostoso o seu cabelo?” — esse tipo de coisa.). Eu percebia que isso a magoava. Ainda consigo lembrar sua aparência depois que recebia esse tipo de ofensa: os olhos pra baixo, um pouco encurvada, como se, tendo sido justamente lembrada de seu lugar na ordem das coisas, ela tentasse, tanto quanto possível, desaparecer. Pouco depois, ela se afastava, o cacho de cabelos ainda em sua boca. Em sua casa, eu imaginava, depois da escola, sua mãe faria aquelas perguntas padrão: “Como foi o seu dia, meu bem?”, e ela diria, “Oh, bem.” E a mãe continuaria, “Fez algum amigo?”, e ela diria, “Claro, um monte.”

De vez em quando eu a via caminhando sozinha no quintal da frente da casa dela, como se com medo de sair.

E então — eles se mudaram. E é tudo. Nenhuma tragédia, nenhuma grande humilhação final.

Num dia ela estava lá, no outro, não estava.

Fim da história.

Então, por que lamento isso? Por que, passados quarenta e dois anos, continuo a lembrar disso? Em comparação à maioria dos outros garotos eu até que fui bem legal com ela. Jamais lhe disse uma palavra rude. Na verdade, algumas vezes eu até a defendi (timidamente).

E mesmo assim… Isso ainda me incomoda. Então, eis aqui algo que eu sei que é verdade, embora seja um pouco piegas, e eu não sei bem o que fazer com isto.

O que eu mais me arrependo em minha vida são dos fracassos em ser gentil.

Aqueles momentos em que outro ser humano fica ali, na minha frente, sofrendo, e eu reajo… sensatamente. Discretamente. Timidamente.

Ou, vendo as coisas pelo outro lado do telescópio: Quem, em sua vida, você lembra com mais carinho, da forma mais calorosa e irrestrita?

Os que foram mais gentis com vocês, aposto.

É meio cômodo, talvez, e por certo difícil de praticar, mas eu acho que como meta de vida há coisas bem piores do que tentar ser mais gentil.

Agora, a pergunta de um milhão: O que há de errado conosco? Por que não somos mais gentis?

Acho que é o seguinte:

Nascemos todos com uma porção de defeitos de fabricação, estes, de algum modo, provavelmente darwinianos. Que são os seguintes: (1) somos o centro do universo (isto é, nossa história pessoal é a mais importante e mais interessante das histórias, é, na verdade, a única história); (2) somos separados do universo (existimos, porém lá fora tem toda aquela tralha — cães e balanços, o estado de Nebraska e nuvens baixas e, você sabe, as outras pessoas); e (3) somos permanentes (a morte é um fato, tá certo — mas para vocês, não para mim).

Na verdade, não acreditamos de fato nessas coisas — intelectualmente, somos mais espertos que isso —, mas acreditamos nelas visceralmente, vivendo em conformidade a elas, que fazem com que coloquemos nossas próprias necessidades acima das necessidades dos outros, mesmo que o que a gente queira de verdade, de coração, seja sermos menos egoístas, mais atentos ao que está de fato se passando no momento presente, mais abertos e mais gentis.

Agora, a pergunta de dois milhões: Como podemos fazer isto? Como podemos nos tornar mais gentis, mais receptivos, menos egoístas, mais presentes, menos iludidos etc. etc.?

Pois é, boa pergunta.

Infelizmente, tenho apenas mais três minutos.

Então, direi apenas o seguinte: há várias maneiras. E vocês já sabem disso, porque em suas vidas houve períodos de Alta Gentileza e períodos de Baixa Gentileza, e vocês sabem o que os aproximou do primeiro e afastou do segundo. Educação é algo bom; deixarmo-nos absorver por uma obra de arte: bom; orar é bom; meditar é bom; uma conversa franca com um amigo querido; filiarmo-nos a certo tipo de tradição espiritual — reconhecendo que antes de nós houve um sem número de pessoas realmente inteligentes que se colocaram essas mesmas questões e deixaram as respostas para nós.

Porque, saibam, ser gentil é difícil — começa totalmente arco-íris e cachorrinhos fofos e se expande para incluir… bem, tudo.

Contamos com uma vantagem, porém: essa coisa de “tornar-se gentil” vem naturalmente com a idade. Pode ser apenas uma questão de cansaço: à medida em que envelhecemos, percebemos quão inútil é ser egoísta — quão ilógico, na verdade. Passamos a amar outras pessoas e somos portanto desprogramados em nossa própria centralidade. Levamos alguns tropeços na vida real e as pessoas vêm em nosso auxílio, nos defender, e aprendemos que não estamos sozinhos, e nem queremos estar. Vemos pessoas que nos são próximas e queridas ficarem pelo caminho, e somos gradualmente convencidos de que talvez também nós iremos sucumbir (algum dia, daqui a muito tempo). Muitos, ao irem envelhecendo, tornam-se menos egoístas e mais gentis. Eu acho que é assim mesmo. O grande poeta de Siracusa, Hayden Carruth, apontou, em um poema escrito pouco antes de morrer, que ele era, “agora, essencialmente Amor”.

Encerro com uma profecia, e algo que desejo de coração para vocês: à medida em que forem ficando mais velhos, seu ego irá diminuir e vocês irão crescer no amor. Vocês serão paulatinamente substituídos pelo amor. Se tiverem filhos, esse será um momento imenso em seu processo de autodiminuição. Vocês não darão realmente a mínima para o que aconteça com vocês, contanto que sejam eles os beneficiados. Esta é uma das razões pelas quais os pais de vocês estão tão orgulhosos e felizes hoje. Um dos sonhos mais queridos deles se tornou realidade: vocês conquistaram algo difícil e tangível que os fez crescer como pessoas e que irá tornar sua vida melhor, daqui para frente, para sempre.

E por falar nisto, parabéns!

Quando somos jovens, temos a urgência — compreensivelmente — de descobrir se temos o que é necessário. Teremos sucesso? Seremos capazes de construir uma vida viável para nós mesmos? Mas vocês — em particular, os desta geração — devem ter percebido uma certa característica cíclica da ambição. Vocês se dedicam durante o ciclo fundamental, na esperança de entrar em uma boa faculdade, e do mesmo modo se dedicam na faculdade, na esperança de obter um bom emprego, daí se dedicam no bom emprego na esperança de…

E é assim mesmo. Se vamos nos tornar mais gentis, isso implica nos levarmos a sério — como batalhadores, como realizadores, como sonhadores. Temos que fazer isso, ser o melhor de nós mesmos.

E mesmo assim, a realização não é garantida. “Ter sucesso”, seja lá o que isto signifique para vocês, é difícil, e a urgência em consegui-lo permanece em constante mutação (o sucesso é como uma montanha que continua crescendo à sua frente enquanto você a escala), e há também o risco muito provável de que “o sucesso” irá absorver toda a sua vida, deixando não atendidas as grandes questões.

Então, o conselho rápido de fim de discurso: Considerando que, segundo eu, suas vidas serão um processo gradual para se tornarem mais gentis e mais amorosos, não percam tempo. Abreviem o processo. Comecem imediatamente. Em cada um de nós habita uma confusão, uma doença de fato: o egoísmo. Mas também habita a cura. Então, sejam pacientes bons e proativos, e mesmo um tanto ansiosos, para seu próprio bem — busquem os mais eficazes remédios antiegoísmo, vigorosamente, pelo resto de sua vida.

Façam todo o resto, as coisas ambiciosas — viajem, enriqueçam, fiquem famosos, inovem, liderem, apaixonem-se, façam e percam fortunas, nadem pelados em rios de regiões selvagens (mas só depois de verificar se eles estão livres de caca de macaco) —, mas enquanto estiverem fazendo tudo isso, na medida do possível, vão desviando o passo rumo à gentileza. Façam aquelas coisas que os coloquem no rumo das grandes questões e evitem as que os diminuiriam e os tornariam banais. Aquela parte iluminada em vocês, que existe para além da personalidade — sua alma, se preferirem —, é tão brilhante e luminosa como qualquer outra que já tenha existido. Brilhante como a de Shakespeare, brilhante como a de Gandhi, brilhante como a de Madre Teresa de Calcutá. Tirem do caminho tudo o que os mantenha apartados desse lugar resplandecente e secreto. Acreditem em sua existência, passem a conhecer melhor esse lugar, alimentem-no, partilhem incansavelmente os seus frutos.

E algum dia, daqui a oitenta anos, quando vocês chegarem aos cem, e eu aos 134, e formos todos tão gentis e amorosos a ponto de sermos quase insuportáveis, telefonem para mim, para eu saber como tem sido a sua vida. E eu espero que vocês digam então: Tem sido tão maravilhosa.

Parabéns, Turma de 2013.

Desejo-lhes a maior felicidade, toda a sorte do mundo e um lindo verão.

* * *

DEZ DE DEZEMBRO
Sinopse:
Os dez contos do livro formam um vasto painel da vida contemporânea, apresentando nossas neuroses, comédias de erros, relações amorosas e outros traços da realidade do século XXI. Com este livro que retoma a melhor tradição de contistas como John Cheever, Raymond Carver e David Foster Wallace, George Saunders, autor de romances, ensaios e outros volumes de contos, foi catapultado — merecidamente — para o centro da cena literária de seu país. Pudera: seus contos, escritos com virtuosismo linguístico e formal e mesmo assim intensamente divertidos, tocantes e humanos, são um olhar a partir do cotidiano de todos nós.

 

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George Saunders nasceu no Texas em 1958. Estudou Escrita Criativa na Universidade de Syracuse, onde atualmente é professor, e trabalhou como redator técnico em uma empresa de engenharia ambiental. Autor de romances, coletâneas de contos e ensaios, é considerado uma das vozes mais originais da literatura dos Estados Unidos.

8 Comentários

  1. […] três gênios foram gentis (aliás, que lindo texto sobre a gentileza esse publicado no blog da Companhia das Letras), engraçados e solícitos. O único momento que pareceu […]

  2. Hélio Shiino disse:

    Simplesmente Brilhante!

    Fico surpreso com a inércia das pessoas em vista de situações que ocorrem no ônibus urbano durante uma viagem.

    Idosos, gestantes, deficientes etc passando pela roleta e as pessoas olhando sem mexer um músculo sequer para ceder o lugar!

    Nâo tenho o poder de, mas arrisco a dizer que consigo ler os balõezinhos do pensamento destas pessoas.
    “- Sei que preciso ceder o lugar, mas e eu, como ficarei? O outro que ceda o lugar então!”

    E as pessoas que se encontram nos assentos preferenciais também carecem dessa percepção de altruísmo.

    Outra situação é a de uma pessoa subindo por trás por estar carregando um objeto muito grande e pesado. Ou até mesmo um idoso ou um deficiente. E todo mundo fica só olhando e fazendo força de auxílio com o pensamento. Triste!

    Altruísmo | Cortesia | Generosidade | Gentileza | Gratidão | Humildade | Paciência | Serenidade | Simplicidade | Tolerância | Respeito

  3. Luis Narval disse:

    Tá tudo muito bem. Tá tudo muito bonito. Mas falta, parece-me, aquela “virilidade”, aquela quase crueza, em se tratado de chamar a atenção para os fatos da vida, que deve acompanhar todo discurso, principalmente quando esse se dirige a um público jovem e, como se acredita, supostamente inexperiente. Contudo. Cabe aqui a pergunta: inexperiente de quê? Já não tiveram todos eles, à essa altura, sua inescapável dose de frustrações, vexames, embaraços, dissimulados ou ostensivos atos de mesquinharia, tolas vaidades e, principalmente, já não adquiriram um boa noção acerca de seus próprios e alheios “aleijões” afetivos e emocionais? Coisa que terão de lidar e consequentemente superar vida afora se quiserem realizar ao menos uma parcela de sua humanidade latente? Falar de gentileza, amizade, renúncia, arrependimento, amor, etc. Tudo belas palavras e, como aprendemos a conhecer e estimar, sobretudo, para muitos de nós, experimentando-as em seus efeitos ao mesmo tempo custosos e edificantes nas páginas de livros antes mesmo que da experiência propriamente dita, resta um certo gosto amargo na boca e uma pontada de revolta no estômago a sua simples e desastrada menção. Quiçá isso se deva ao fato de termos aprendido, nós, leitores, a valorá-las e a emprestar-lhes outra e mais densa verdade, primeiramente, em decorrência da mensagem ou através da pena de grandes mestres. Tais como Buda, Sócrates, Cristo, Shakespeare, Tolstói, Rilke… que tudo fora dessa estimativa de grandeza cheira a falsidade e cinismo.
    Não discuto, no caso, a sinceridade e/ou boas intenções do autor. Discuto tão somente sua pertinência.

  4. Daniel Abreu disse:

    Belíssimo discurso. Ah, se ele fosse levado em verdadeira consideração…

  5. […] Fonte: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/05/a-importancia-de-ser-gentil/ […]

  6. […] Fonte: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/05/a-importancia-de-ser-gentil/ […]

  7. admin disse:

    Oi, Caetano! Não, a tradução deste texto foi feita pelo Carlos Alberto Bárbaro (já arrumamos ali no crédito ;) ).

  8. Caetano W. Galindo disse:

    A tradução do discurso aqui é do mesmo José Geraldo Couto que assina a do livro?

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