Crowdfunding literário

Por Paulo Scott

1.

Nesta semana foi lançado no Brasil um interessante pequeno projeto para financiamento coletivo de livros literários, o Bookstorming. A ideia é basicamente a seguinte: um grupo de pesquisadores e editores idealiza um projeto de livro, levanta o custo da sua viabilização, divulga o projeto nas redes sociais convidando leitores que se agradem da ideia para colaborarem financeiramente com a sua realização — e, como apoiadores, a acompanhar cada etapa da sua concretização, como, por exemplo, a definição do projeto gráfico, podendo inclusive opinar na escolha da capa — e tendo como contrapartida direito a receber um exemplar da obra nas portas de suas casas.

Os crowdfundings, como são conhecidas mundo afora essas iniciativas de financiamento coletivo, já são comuns no Brasil. A hipótese que me ocorre é aquela dos grupos de fãs que organizam vaquinhas com o objetivo de trazer bandas do exterior para virem tocar em solo brasileiro, possibilitando shows que não ocorreriam se estivessem na dependência de alguma grande produtora de espetáculos e de algum patrocinador de peso assumi-los.

No mundo das histórias em quadrinhos, os crowdfundings foram responsáveis por uma pequena revolução recente porque viabilizaram uma série de projetos autorais que não aconteceriam se estivessem na dependência da resposta das grandes editoras, projetos esses (pelo menos alguns deles) que acabaram revelando trabalhos notáveis que contribuíram bastante para o arejamento da tradição narrativa desse campo da arte que desde sempre influencia bastante minha escrita, principalmente a produção poética.

2.

Imagino que, nesse contexto de crowdfundings, a palavra-chave seja mobilização. Conseguir mobilizar interesses, expectativas, necessidades, inquietações se tornou um movimento bastante possível se o conteúdo sugerido (de acordo com os critérios de determinado grupo, microgrupo, macrogrupo) tiver relevância. Sei que não estou dizendo nada de novo, ainda assim, com o texto de hoje, queria muito registrar o fato da utilização de crowdfundings em projetos literários ser um caminho, uma solução, relativamente nova se comparada a outras áreas culturais.

No exterior temos alguns casos bem interessantes de editoras pequenas, como, por exemplo, a inglesa And Others Stories e a americana Deep Vellum, que trabalham (e chamam bastante atenção) a partir da tônica da mobilização, contando com o apoio direto de seus leitores, principalmente para garantir a tradução e a publicação de obras estrangeiras que dificilmente seriam encampadas por editoras inglesas e americanas voltadas à preferência geral do público leitor inglês e americano.

Ainda sob a tônica da mobilização, imagino que muito mais se possa fazer a partir desses financiamentos coletivos, não apenas para se conseguir editar e publicar um livro de autor nacional desconhecido ou esquecido, ou para resgatar uma obra que esteja fora de catálogo, ou viabilizar tradução e posterior publicação de obra que não tenha merecido atenção de qualquer editor brasileiro — uma obra cujo original esteja em língua de pouco acesso aos leitores brasileiros, que tradicionalmente se resolvem com alguma facilidade lendo em espanhol, inglês, italiano, francês, alemão —, mas para viabilizar projetos de escrita literária, projeto que, pelos critérios do grupo que se mobiliza, pareça relevante, subsidiando o tempo de pesquisa do escritor, dando-lhe condições para se dedicar com exclusividade à escrita por um período. Claro, estou aqui apenas especulando.

Há, entretanto, aqui no Rio de Janeiro, um grupo de leitores (não estou autorizado a dar mais detalhes) que se mobilizaram para garantir os recursos financeiros para que um cientista na área da botânica, cujo trabalho já era bem conhecido desse grupo, pudesse se dedicar exclusivamente à pesquisa e a redação de um estudo seu com propósito de publicar um livro dentro de determinado prazo. Faço esse destaque para dizer que as mobilizações de leitores das quais tento tratar apressadamente aqui, mesmo que não superem — nem é esse o propósito — a tradição de procura, seleção e aposta em autores, e projetos literários de autores, pelas editoras já estabelecidas, são possibilidades importantes, possibilidades que merecem atenção.

Suponho que um clube de leitura bem estruturado estaria bastante apto a algum tipo de mobilização como essa. Penso também que, eventualmente, a universidade poderia acomodar projetos reunindo recursos públicos com o dinheiro advindo de crowdfundings pontuais para viabilizar bolsas para escritores que se disponibilizassem a algum tipo de residência e diálogo constante com os alunos da instituição, não só os de pós-graduação, mas os da graduação também — sei que há restrições de comprometimento orçamentário quando se trata desse tipo de combinação, mas a verdade é que sempre há uma brecha que as soluções mais criativas se habilitam para encontrar.

A esse respeito o que posso anotar é que não tenho dúvida: a presença de um autor nacional junto à rotina acadêmica, por um período de meses, com possibilidade de elaboração de trabalho literário, pode ser um fator importante de aproximação entre o universo, predominantemente empírico, daqueles que escrevem (dedicados exclusivamente à literatura ou não) e os que no futuro se encarregarão da leitura crítica, do assentamento ou do descarte, da expansão teórica, das correlações que não se dariam em outro fórum — porque, programaticamente, não há espaço de maior generosidade do que o espaço acadêmico —, daquilo que está se produzindo em termos literários hoje.

3.

Pois bem, como é possível perceber juntou à palavra mobilização a palavra generosidade. Há sim uma vocação plural e uma ousadia que só podem ocorrer no ambiente acadêmico. Imagino que não se possa — e não se deva — esperar que uma diretriz fundada na generosidade, como elemento de integração, de atualização, de ousadia, prevaleça de maneira absoluta em espaços pautados pelo mercado e seus limites inevitáveis. Penso que determinadas mobilizações, resgatando o que se afirmou inicialmente, tendem mesmo a ocorrer, e progredir, nos pequenos grupos, nas combinações sem finalidades lucrativas, movidas por algum tipo de paixão e certeza (que não sejam mera aventura sem realizações), mas também no espaço acadêmico, sobretudo porque tal ambição general não se viabilizaria em contexto que não o das universidades. Ainda um aspecto a aprofundar.

Crowdfundings dependem de comprometimento — que por si só já é um componente interessante, valoroso, agregador —, dependem de qualidade, reconhecimento, empatia. Graças às redes sociais, financiamentos coletivos são cada vez mais relevantes no contexto artístico e, como já se verifica em algumas experiências no exterior, no contexto literário. Obviamente, no caso brasileiro, por todas as razões conhecidas, não seria difícil sugerir que o calcanhar de Aquiles é o leitor, está na quantidade de leitores realmente interessados e comprometidos com esse modo de expansão e também, dependendo do parâmetro pré-estabelecido, na própria ausência de leitores.

Prefiro pensar, entretanto, que sempre há espaço, pensar que sempre cabe uma boa aposta como a desse projeto Bookstorming (tenho de cabeça pelo menos dez projetos recentes, surgidos nestes anos de século XXI, que foram apostas ousadas e contribuíram na redefinição do cenário da literatura brasileira; dentre eles o Sarau da Cooperifa, articulado pelo escritor Sérgio Vaz, e toda a movimentação que ele incorpora), pensar que se corrermos os riscos, sim, haverá mais espaço e — apesar de todas as evidências conjunturais preocupantes de enxurrada de estátuas do ufanismo e da glória nacional rolando ladeira abaixo, sobretudo na educação e no seu gesso bom de esfarelar —, sim, haverá mais leitores.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Um Comentário

  1. Carlo disse:

    Pode ser útil sob determinado ponto de vista, ou pode ser uma tentativa de escapar ao crivo de qualidade mínima da seleção editorial (prefiro esta). E não parece correto financiar com bolsa pública um escritor para que ele escreva. Um livro deve sobreviver pelo mérito ou desaparecer na esterilidade, sem para isso ferir o erário que deveria servir a maior proveito coletivo.

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