Dez anotações sobre quartos fechados

Por Marcelo Ferroni

Decidi fazer um policial no dia em que fui com Martha, minha mulher, e nosso primeiro filho para a fazenda de uma amiga dela em Bananal. Uma fazenda histórica, da época dos escravos, e estávamos acompanhados, naquele final de semana, de outras dez pessoas. Uma professora americana de teatro; um documentarista belga; um personal trainer, uma diretora de escola. Não me lembro direito se eram realmente essas as profissões, mas o certo é que ninguém se conhecia muito bem. Nossos celulares não funcionavam, e nosso único contato com o exterior era o telefone fixo, com duas extensões. Em volta da piscina, me dei conta: Meu Deus, um casarão isolado; doze suspeitos; um crime de quarto fechado.

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O crime de quarto fechado corresponde a um morto dentro de um recinto de onde não é possível que um assassino, tendo cometido o crime, escape sem deixar pistas. Uma pessoa pode ser atingida por uma adaga atirada com força, estando no entanto sozinha numa sala cuja única janela está a quinze metros do chão; pode cair morta subitamente, vitimada por um objeto rombudo e invisível, enquanto outras pessoas a vigiavam. Pode mesmo ser um boxeador que, durante uma luta com auditório lotado, cai fulminado misteriosamente. O meu morto é do tipo mais tradicional: acertado por um tiro dentro de uma sala trancada por dentro, com as janelas fechadas também por dentro (e sem a arma no cômodo).

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“He was very dead”, diria Chandler. Lá está o corpo, recurvado, as mãos em garras, no chão uma poça de sangue. Espalhadas pelo quarto, pistas desconexas, que podem levar a lugar nenhum. Fumaça, cheiro de queimado, as persianas bem fechadas, e a única outra saída, a porta, era observada por quase todos os hóspedes e familiares.

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Existem, segundo Robert Adey, vinte formas distintas de cometer um crime de quarto fechado. Adey é um sujeito meticuloso que, em 1979, lançou o livro Locked Room Murders, uma compilação de todas as histórias publicadas em língua inglesa de crimes desse subgênero policial. São, no total, 1.280 entradas numeradas, agrupadas por sobrenome do autor. Há o título do romance ou do conto, a data da edição americana e da inglesa, o resumo do crime e o nome do detetive. No final do livro (para não estragar o mistério), as resoluções de cada crime são resumidas em seu número correspondente. Adey fez ainda uma segunda edição, de 1991, com 2.019 casos. Eu não a tenho, e nos sites de livros usados ela gira em torno de 600 dólares. Braulio Tavares tem uma, mas acho que não empresta.

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Braulio, crítico, escritor e tradutor, especialista em literatura policial, aponta, no entanto, apenas oito possibilidades de se cometer um crime de quarto fechado, classificando as demais alternativas de Adey como variantes do mesmo tema. Foi Braulio quem me indicou essa preciosidade, aliás. E foi ele quem me disse uma vez que já tentou escrever um romance com uma variante nova, ainda não descoberta por nenhum outro autor. Felizmente, parou no meio. O último que tentou isso deve ter ficado louco.

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O meu exemplar de Locked Room Murders não saiu barato, e tem uma dedicatória de Bob Adey para uma certa Stephanie Mitchell. Eu me pergunto que proveito ela pode ter feito do presente, a não ser que seja uma aficionada pelo subgênero, ou sua mulher. (Finalmente, finalmente ele terminou essa joça, pensa ela, sem saber que ele já arquitetou uma segunda edição.) Crime 480: A adaga foi atirada pela janela por um fuzil de ar-comprimido. Crime 711: A vítima foi atingida por um meteorito. Crime 82: O boxeador foi alvejado por um dardo de gelo embebido em veneno; ao derreter, a arma se mesclou ao suor. E finalmente, para uma solução inesperada ao sistema mais tradicional de quarto fechado, temos a entrada 746: O quarto foi pré-fabricado e construído ao redor do corpo.

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Com meu livro já avançado, fui uma tarde à casa de Braulio para um café. Braulio é também especialista em ficção científica e estava traduzindo para nós os livros do H.G. Wells (sou também editor). Mas nesse final de tarde em Laranjeiras discutimos, primeiro na sala onde ele acumula livros e trabalha, depois tomando café numa mesinha da cozinha, algumas questões que eu estava enfrentando no meu policial. Falei que pensava em utilizar uma passagem secreta — essa seria a explicação para o crime. Ele apontou para uma porta atrás de si, na cozinha. É onde guardo as vassouras, disse. Mas na casa do Lenine, disse (ou acho que disse), esse mesmo armário dava para uma escada, e a seguir para uma sala (Braulio é também compositor e trabalha com Lenine). Depois ele disse que era uma solução interessante, essa da porta secreta, mas não pareceu muito entusiasmado.

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Sim, colocar o morto num quarto fechado e criar uma passagem secreta é uma das formas de resolver o crime, nos diz Robert Adey (variação número 17). Mas essa solução parece ser uma das mais rústicas, junto, talvez, com acidente (1), controle remoto (3) ou manobra acrobática (13). Uso de um animal (5) talvez estivesse entre elas, não fosse por Os assassinatos na rua Morgue, de Poe. Mas uma passagem secreta… Ah, aqui está, a passagem secreta. (Na capa do meu livro, há uma porta recortada na parede.) Outras soluções poderiam ser mais elegantes, e, cada vez que eu olhava o rascunho do meu romance, desanimava, pensando que não conseguiria terminá-lo.

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Minha mulher é obcecada por policiais. Seu pai também o é. Eles compram os mesmos livros, e nunca os vi trocando volumes. Eles leem em paralelo a mesma coisa. Tanto Marcos Ribas quanto Braulio sugeriram que eu lesse o mais malabarista de todos os autores de quarto fechado — John Dickson Carr, “O Maestro”, segundo Adey. Dickson Carr envelheceu um pouco (e seus livros quase não são mais encontrados), mas lê-lo foi uma aventura. Seu detetive mais usual é Gideon Fell, um sujeito gordo, à imagem e semelhança de G.K. Chesterton. Em um de seus casos mais famosos, The Three Coffins, um crime fabuloso de quarto fechado leva praticamente a uma conclusão fabulosa, para só no fim descobrirmos uma segunda resolução, menos fabulosa mas verdadeira. Essas pistas que podem ser lidas de duas formas diferentes, levando a suspeitos diferentes, me soou fascinante. Minha pobre passagem secreta estava ameaçada, mas eu via ali uma saída, com desdobramentos e camadas em uma história batida, e essa talvez fosse a peça que faltava.

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Mas a ideia do quarto pré-fabricado ainda me espanta. Quem sabe num próximo livro.

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DAS PAREDES, MEU AMOR, OS ESCRAVOS NOS CONTEMPLAM
Sinopse:
Um escritor frustrado folheia todos os dias o jornal em busca de uma resenha para seu primeiro livro. Todavia, A porrada na boca risonha e outros contossegue ignorado pela crítica, enquanto Humberto vê o trabalho de seus rivais sendo incensado na imprensa e adorado pelo público. O único alento do escritor é Julia, a garota que conheceu por acaso e que agora o leva para um fim de semana na serra, onde ele irá conhecer sua família, os Damasceno, que fez fortuna vendendo filtros de água. A casa é a menina dos olhos do patriarca Ricardo, obcecado com sua restauração e com documentos e objetos relativos ao passado do local. Ao longo do fim de semana, as inúmeras tensões entre familiares, funcionários e amantes, acumuladas em anos de ressentimento e desconfiança, irão tomar forma num crime brutal. Valendo-se da tradição do mistério de quarto fechado, em que um personagem é morto em um cômodo trancado por dentro, Ferroni irá partir de um enunciado conhecido – um crime em que todos são suspeitos – para colocar em xeque os clichês do gênero, ao mesmo tempo que constrói um romance de enorme força literária sobre a família, o amor e o medo.

Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam será lançado no começo de maio.

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Marcelo Ferroni nasceu em 1974, em São Paulo. Vive atualmente no Rio de Janeiro, com a mulher e dois filhos. É editor da Alfaguara, selo de literatura da Editora Objetiva. Seu primeiro romance, Método prático da guerrilha (Companhia das Letras, 2010) foi vencedor do prêmio São Paulo de Literatura, na categoria de autor estreante.

2 Comentários

  1. Gustavo disse:

    Imagine: uma casa pré-fabricada em torno do morto. O assassinato é do século XXI, a casa é do século XVIII.

  2. Luiz Schwarcz disse:

    O livro do Marcelo, como este seu texto, é muito bem escrito. Muito feliz em tê-lo conosco. Abraços

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