Frank Quitely, grande engrenagem

Por Érico Assis


(Sim, eu sei que deveria dar sequência às colunas de definição do que é quadrinhos — a primeira e a segunda. Mas circunstâncias várias não deixaram eu me concentrar nisto nos últimos dias, por isso faço uma breve pausa na sequência. Na próxima volto ao assunto. Prometo.)

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O programa chama-se What Do Artists Do All Day?, e já achei o nome fantástico. Se alguém for passar no Brasil, sugiro traduzir para Mas Artista Passa O Dia Fazendo O Quê? São documentários curtos que enfocam um dia de trabalho na vida de um artista britânico. Pelo que vi no arquivo, pintores, gravuristas, romancistas, fotógrafos e uma taxidermista já foram tema.

Um dos últimos episódios documentou, em fotografia e edição moderninha, um dia de trabalho na vida de Frank Quitely, quadrinista escocês. Você assiste completo aí embaixo:

Quitely não é dos grandes monstros do quadrinho-arte contemporâneo, porque (1) seu renome é relativamente recente e (2) ele pouco arreda pé dos gibis de super-herói. Nesse nicho, porém, é majoritariamente bem quisto, e com razão. Ele passou temporadas desenhando personagens clássicos — Superman, Batman e X-Men — após um período onde era mais dado a desconstruções de super-heróis — Flex Mentallo, Authority. Não escreve as histórias que desenha, preferindo trabalhar ao lado de roteiristas de renome: alterna entre Grant Morrison e Mark Millar, os dois também escoceses.

Mas o que todo leitor que o acompanha sabe de Quitely é que ele é extraordinariamente lento. Lento para os padrões da indústria de quadrinhos dos EUA, no caso, onde os desenhistas mantêm a média de uma página por dia, 20 e poucas por mês. Quitely leva três meses para fazer a mesma quantidade. Em dado momento do documentário, ele comenta: “O ideal é você estar alguns meses adiantado, mas eu… raramente consigo.” A seguir, a câmera foca sua lapiseira acrescentando marquinhas sobre o porto de uma grande cidade, num cantinho do último quadro da página, milímetros de um panorama minucioso cuja função é apenas ser fundo para um super-herói mirim voando.

Detalhismo, todavia, não é o que estoura as deadlines dele. (Aliás, esse mito de que o quadrinho americano gosta de detalhismo merece uma coluna.) Quitely praticamente não faz uma HQ em que não invente um jeito de contar a história que só seja possível nos quadrinhos.

We3 é o ápice desta vertente experimentalista (também é uma das minhas HQs mais queridas). Em cenas de ação, o movimento principal acontece num quadro grande, em cima do qual há vários pequenos quadros com planos-detalhe do que acontece aos personagens em diversos ângulos. O documentário fala do processo por trás de uma sequência famosa em que a história é contada por um painel de monitores de câmeras de segurança. As seis páginas exigiram três semanas.

O inglês scot de Quitely não é dos mais fáceis, mas a declaração final é mais ou menos o seguinte: “Quadrinho não é o que paga melhor nas indústrias criativas. Eu podia ganhar mais com games, ilustração pra revista, storyboarding etc. Só que não importa o nível em que você chegar em storyboarding, games ou departamento de design, o que for, você nunca deixa de ser uma engrenagenzinha na máquina, enquanto aqui você é uma engrenagem grande. E o que você faz no quadrinho é uma coisa que não funciona no cinema, não funciona direito em prosa. Quanto mais eu entendo o funcionamento dos quadrinhos, mas entendo como eles são singulares.”

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter – Outros Quadrinhos

2 Comentários

  1. Bruno disse:

    Queria muito que ele desenhasse algo pra 2000 AD, e fizesse mais quadrinhos autorais…

    WE3 é um trabalho soberbo, de fato!

  2. Shi disse:

    Fantástico! Frank Quitely é um dos meus desenhistas favoritos. O Superman dele me fez voltar a gostar de HQs Marvel/DC…

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