Chico à vista

Por Humberto Werneck

Não demora muito a vir aí romance novo de Chico Buarque — e não preciso ser vidente para adivinhar o que vai então acontecer, a começar pela maré rasante das pilhas de exemplares nas livrarias. Posso adivinhar também o que não vai acontecer. Não vejo o Chico se multiplicando em entrevistas, e muito menos no desaguadouro de enormes filas para autógrafos.

O mais provável, acho eu, é que se repita o enredo dos lançamentos anteriores. Leitores e críticos bem equipados haverão de constatar que, aos 70, o romancista está cada vez mais afiado. Pense nos quatro romances e me diga se não tenho razão ao ver linha ascendente. De minha parte, estou na torcida para que ele radicalize a progressiva soltura que, a meu ver, fez de Leite derramado o seu melhor romance — e não por acaso: em nenhum outro transparece tanto um autor que, lá no começo, me deu a impressão de estar busca de uma ficção absoluta.

É de esperar, também, que outra vez narizes se torçam. Não me peçam nomes, mas volta e meia topo com ficcionistas que, mais de vinte anos depois de Estorvo, ainda não assimilaram a entrada de Chico no que lhes parece ser uma reserva de mercado da literatura. Reagem como em presença de um intruso, de um forasteiro.

Nem nisso são originais — e aqui lembro do que contou Pedro Nava numa entrevista. Quando, em 1972, saiu Baú de ossos, o primeiro volume de suas colossais memórias, o escritor mineiro, aos 69 anos, se surpreendeu com uma quase hostilidade da parte de escribas que até então tinha na conta de amigos. Conhecedor que era das mais repulsivas perebas da alma humana, Nava não tardou a perceber que para aquela gente ele deixara de ser um camarada para virar concorrente.

O mesmo se passou e passa ainda com Chico Buarque. Seu caso, porém, é mais chocante. Antes das memórias, Nava havia publicado apenas um livro, e em edição quase confidencial, sobre tema de interesse restrito, a medicina, Território de Epidauro, de 1947. Chico, ao contrário, é escritor desde garoto, sendo a literatura em sua vida uma picada muito anterior à música que o celebrizou.

Não custa relembrar. Adolescente, seu sonho não era ser músico, era ser cronista, cronista como Rubem Braga, que ele lia todas as semanas na revista Manchete. Nos seis meses que passou interno no Colégio Cataguases, na zona da Mata de Minas Gerais, aos 15 anos de idade, escreveu no jornalzinho mimeografado O Pirilampo, sob o pseudônimo “Bananal”, pequenas crônicas que, dadas por desaparecidas, foram recentemente desencavadas por um colega. (Numa delas, gaiato, o cronista avança até o ano de 2059, quando se comemoraria o centenário de O Pirilampo, e, a propósito dos fundadores do jornal, lamenta: “Infelizmente, estão todos falecidos, com exceção de um tal de Bananal. Este comprou há 30 anos um falso remédio de nome ‘Fonte atômica da juventude’ que o envelheceu mais ainda e que não permitiu que ele morresse. Surdo, mudo, cego, paralítico e louco, não pôde o Bananal prestar-nos maiores informes.”)

De volta a São Paulo, Chico Buarque, aos 17, aluno do Colégio Santa Cruz, largou prosa em outro jornalzinho que ali criou e batizou, o Verbâmidas. Aos 22, por iniciativa do pai, um conto seu, Ulisses, saiu no prestigioso suplemento literário de O Estado de S. Paulo. O mesmo ano, 1966, foi também, meses mais tarde, aquele da explosão de A Banda — e olha o Chico definitivamente sequestrado por outra paixão imperiosa.

Definitivamente? Logo saberíamos que não. A literatura ficou por ali, à espera de ser outra vez cortejada. Se rendeu livro, como Fazenda modelo, “novela pecuária” inspirada em George Orwell, foi apenas na franja da atividade musical. O grande e audacioso passo viria no final dos anos 80, começo dos 90, quando Chico, longe de trocar uma coisa pela outra, decidiu ficar com as duas, a música e a literatura, acomodando-as num bem sucedido regime de alternância em que cada uma, chegada a sua vez, mereça aplicação monogâmica.

Foi então que aqueles chatos da reserva de mercado se ouriçaram, negando ao escritor — veteraníssimo, como vimos — acesso à sesmaria da literatura. Chico se chateou com a mesquinharia? Não ao ponto de bater boca, dar o troco. “Eu faço pior”, me disse ele, divertido, num depoimento para o livro Tantas palavras, “minha vingança é ler eles todos…”

Que os ciumentos e invejosos se preparem, pois vem aí mais Chico em letra de fôrma.

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Humberto Werneck nasceu em Belo Horizonte em 1945, é jornalista e escritor. Começou no jornalismo no Suplemento Literário do Minas Gerais. Mora em São Paulo desde 1970, onde já trabalhou no Jornal da Tarde, Veja, Jornal da República, Isto É, Jornal do Brasil e Elle. Assina a reportagem biográfica do livro de letras de Chico Buarque publicado pela Companhia das Letras, Tantas palavras. É cronista do jornal O Estado de S. Paulo e autor dos livros O pai dos burros e O santo sujo: a vida de Jayme Ovalle, entre outros.

3 Comentários

  1. Carmen Cagno disse:

    Meu caro Werneck,confesso que não nutro pelos livros de Chico a mesma paixão que há tantas décadas acalento por suas músicas. Acho mesmo difícil de comparar. Ele é um bom escritor, claro. Seria estranho se não fosse. Mas não me emociona- é isso.Leio, gosto, fecho o exemplar e depois não me lembro mais. Meu coração, ou minhas vísceras, se preferir não ficam ligados
    aos seus romances. Excelente o seu artigo.

  2. João disse:

    Acredito que não seja só ciúmes. À parte o grande compositor, o Chico romancista deixa muito a desejar.

  3. Marcos disse:

    Eu, particularmente, acho “Estorvo” o melhor dos romances do Chico.. mas “Leite derramado” é, de fato, excelente, e sua escrita/narrativa demonstra mesmo uma ascensão. Vamos ver o que vem por aí, mas o Chico já garantiu pra nós, leitores, que sempre vale a pena, a expectativa.

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