Como e por que escrevi Flores artificiais

Por Luiz Ruffato


Para continuar achando que vale a pena escrever, tenho tentado, em cada novo livro, me colocar numa situação de desconforto. Em 2001, quando publiquei Eles eram muitos cavalos, o objetivo primordial era experimentar linguagens, as mais diversas, para decidir os caminhos a tomar no projeto Inferno Provisório, que me consumiu mais de uma década de preparação e quase outra de publicação — iniciada efetivamente em 2005, com Mamma, son tanto felice, finalizei-a em 2011, com Domingos sem Deus. Eles eram muitos cavalos, uma “instalação literária”, acabou por suplantar o caráter de caderno de experiências e hoje tem 11 edições no Brasil e está traduzido para a Argentina, Colômbia, Itália, França, Portugal, Alemanha, Finlândia e Estados Unidos (no prelo).

O projeto Inferno Provisório, “catálogo de histórias”, que em suas quase mil páginas tenta compreender o processo de industrialização brasileiro, do êxodo rural da década de 1950 à ruína pós-industrial do final do século XX, vai sendo lançado na França, México e Alemanha. De Eles eram muitos cavalos ao Inferno Provisório desloquei o cenário, o ambiente, a linguagem, os personagens, o estilo, a carpintaria, a arquitetura. Ao longo da primeira década de 2000, ainda lancei, paralelamente, dois outros livros, o “romance epistolar” De mim já nem se lembra, publicado também em Portugal e Itália, e o “romance depoimento” Estive em Lisboa e lembrei de você, publicado também em Portugal, Itália e Argentina. Embora De mim já nem se lembra comporte analogias com o projeto Inferno Provisório, difere dele pelo esforço de narrar a evolução da ditadura militar por meio de cartas. E Estive em Lisboa e lembrei de você funciona como uma prosa de ficção quase convencional, conduzida na primeira pessoa, que flagra a inadaptação de um imigrante brasileiro em Portugal. Flores artificiais insere-se nesse contexto de inquietude. Nele, pela primeira vez, o Brasil deixa de ser a paisagem privilegiada.

Flores artificiais é a construção de um personagem. Dório Finetto, engenheiro de formação, consultor para a área de infraestrutura do Banco Mundial, pertence à pequena comunidade italiana da região da Zona da Mata de Minas Gerais, à qual também pertenço. Na passagem do milênio, de férias no Rio de Janeiro, ele se depara com seu isolamento: solteiro, voltado para o trabalho, morando em Washington, acha-se afastado da família e dos amigos — imerso na solidão, se deprime. Para sair do estado de letargia, busca ajuda profissional de uma psiquiatra, Regina Gazolla, e, como forma auxiliar ao tratamento, começa a registrar as histórias que ouviu ao longo de sua jornada pelo mundo em cadernos que intitula Viagens à terra alheia. Esse manuscrito, enviado a mim, é a base do romance Flores artificiais. O meu trabalho se resumiu, além de proceder a uma revisão dos textos, a escrever uma apresentação e uma biografia de Dório Finetto, que serve de posfácio.

Se muda o cenário, não muda o essencial: o que continuo perseguindo é a análise do comportamento do ser humano que se encontra em um ambiente de desenraizamento, o ser humano que não pertence a lugar algum…

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FLORES ARTIFICIAIS
Sinopse:
O escritor Luiz Ruffato recebe em sua casa a correspondência de um desconhecido. Trata-se de um manuscrito, Viagens à terra, uma compilação de memórias que Dório Finetto, funcionário graduado do Banco Mundial, redigiu a partir de suas muitas viagens de trabalho. Como consultor de projetos na área de infraestrutura, Finetto percorreu meio mundo numa sucessão de simpósios, reuniões e congressos. A mente de engenheiro, no entanto, esconde um observador arguto e sensível, uma dessas pessoas capazes de se misturar com naturalidade num grupo de desconhecidos. Partindo de um esqueleto ficcional, Ruffato — o autor, e não o personagem do próprio livro — irá embaralhar as fronteiras entre ficção e realidade, sem jamais perder de vista a força literária que é a grande marca de sua obra.

Eventos de lançamento:

Porto Alegre — Segunda-feira, 16 de junho, às 19h na Palavraria Livros & Cafés — Rua Vasco da Gama, 165
São Paulo — Quarta-feira, 25 de junho, às 18h na Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura — Av. Paulista, 2073

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Luiz Ruffato nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1961. Formado em comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, publicou vários livros, entre os quais a pentalogia Inferno Provisório, Estive em Lisboa e lembrei de você e o aclamado Eles eram muitos cavalos, que recebeu o prêmio APCA e o Machado de Assis, da Biblioteca Nacional. Em 2014, lança pela Companhia das Letras Flores artificiais.

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