Gosto de contar a história do meu jeito

Por Simone Campos


A semente do meu novo romance é de 2008, mas ela só encontrou onde germinar em 2011, quando assinei com a Companhia das Letras. Eles confiaram nas 30 páginas que eu tinha para mostrar. Depois disso, passei um ano e dez meses trabalhando na história, fora as (muitas) edições posteriores.

O fio condutor de A vez de morrer é o itinerário de autodescoberta de dois personagens bem individualistas, Eduardo — dono da lan house de Araras, namorado da Sirlene e irmão da engajada Talita — e Izabel — a designer aspirante a artista que chega na área para bulir e sofrer bullying.

O Eduardo é um homem de ordem e de ação. Ele é o guardião da história e da cultura na comunidade de Araras. Ele é apolíneo; um bom selvagem tecnológico. No final do livro (isso não é um spoiler), ele encara a velha obrigação masculina de agir, de descobrir a verdade e tomar uma atitude. Um homem médio faria besteira, mas o conhecimento que ele tem da história o salva.

A Izabel é dionisíaca. Ela é tão promíscua quanto Eduardo; a diferença é que ela é mais eclética. Ela é psicologicamente instável, mas disfarça pra não incomodar os outros. Ela prefere não incomodar. Melville deu bastante as caras nesse livro, tanto na atitude bartlebiana de Izabel como na recorrência de Moby Dick (“Me chamo Izabel”, apresenta-se ela num encontro casual marcado por celular). Eu não planejei isso. Aconteceu.

Especulação imobiliária, revenge porn, estupro. Temas imprevistos e terríveis foram surgindo e não refreei a mão; pelo contrário, cavava mais e mais. Conforme eu escrevia, a vida real foi confirmando a premência desses assuntos. Outra ocorrência comum ao livro e ao real é o despreparo da pessoa encastelada numa religião para lidar com experiências diferentes das prescritas pela sua crença. E aqui começo a falar de mim.

Nasci numa família católica e decidi mudar de religião aos sete anos de idade, copiando a mudança do meu pai; fui evangélica até os dezessete anos; ele é até hoje. Pela primeira vez coloquei personagens evangélicos num romance — mas há um no meu conto Deitado eternamente em berço esplêndido, inspirado na mitologia de Cthulhu, na antologia Escritores escritos.

Minha falecida avó, mulher de fibra, era dona de um sítio em Araras, mas nunca morou lá. O sítio passou para minha mãe, que vai muito pouco lá (e eu também — principalmente pela falta de veículo próprio). Mas frequento o lugar desde os cinco anos de idade, e é a primeira vez que coloco isso num romance — o sítio aparece em Herói, segundo conto do livro Amostragem complexa, originalmente escrito para uma antologia erótica que não saiu. Ah, o caminhão de gás de Araras realmente toca a ária da Rainha da Noite.

Assim como Sirlene, a jovem roqueira cristã de A vez de morrer, uma grande amiga é baixista numa banda de rock que vive pensando em mudar de nome. Minha irmã postiça mais nova, que teve formação evangélica e toca baixo, adora bandas de rock cristão como Skillet e Demon Hunter. Fui com ela a shows dos dois grupos.

Eu poderia continuar por muitos parágrafos delineando o que vem e o que não vem da minha experiência pessoal nesse livro, mas não acho que isso vá destrancar o segredo da conexão vida-obra. Acho que a arte que conta na hora de escrever um livro é a de bem alinhavar o que se encontra — de viver, de ouvir falar ou inventar —, e detalhar demais o que vazou (ou não) do potencial para o atual tem o efeito adverso de empurrar a vida do autor para consumo junto com a obra. Coisa de que há autor que goste, mas eu não.

Sendo assim, Eduardo sou eu, Izabel sou eu, Sirlene sou eu. Ah, a Madame Bovary também sou eu.

* * *

(Fico passada quando “acusam” um autor de ser ególatra. É claro que somos todos ególatras. Como mais chamar alguém que gosta de contar histórias — não só as suas, como as dos outros — do seu jeito? Tanto que faz disso sua profissão? Apenas variamos um pouco nossos sabores (espero), e às vezes declaramos que quem não gosta de pistache não pode ser um bom sujeito.)

* * *

A VEZ DE MORRER
Sinopse:
Quando Izabel voltou a passar seus fins de semana em Araras, a casa da família estava praticamente abandonada. Um fim de semana na serra logo vira outro e outro e outro. Sem perceber, ela se vê praticamente morando na serra. Como ocorre em todo ponto turístico, Araras é feita de duas cidades. Na temporada, vicejam as lojinhas e restaurantes, as ruas coalhadas de gente. Durante a semana, são os moradores que ocupam a praça, a sorveteria e as igrejas, que parecem brotar do chão. E é justamente essa segunda cidade que atrairá Izabel. O gerente da lan house, cheio de grandes aspirações profissionais, ou sua irmã, eternamente envolvida com a complexa cultura evangélica da região. Ou ainda o amigo do Rio, que pretende instaurar um polo tecnológico ao lado de Araras. Ou a amiga casada, que vai pra debaixo dos seus lençóis. No cruzamento dessas vidas, Simone Campos constrói peça a peça uma trama de alta voltagem sexual, um retrato de geração ao mesmo tempo ácido e delicado, violento e bucólico.

Eventos de lançamento:

São Paulo — Terça-feira, 22 de julho, às 19h na Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura — Avenida Paulista, 2073.
Rio de Janeiro — Quinta-feira, 24 de julho, às 19h, na Livraria da Travessa — Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo.

* * * * *

Simone Campos nasceu no Rio de Janeiro, em 1983. Estreou na literatura com No shopping, publicado em 2000. Seguiram-se a este o romance A feia noite (2006), a ficção científica Penados y rebeldes (2006), o volume de contos Amostragem complexa (2009) e o livro-jogo Owned (2011). Mestre em literatura pela UERJ, a autora figura, ainda, em inúmeras antologias de contos. Em julho, lança pela Companhia das Letras seu último romance, A vez de morrer.
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5 Comentários

  1. admin disse:

    Olá, Wilson!

    Sim, lançaremos também em e-book. A partir de quarta-feira já deverá estar disponível. :)

  2. Wilson disse:

    Curiosíssimo! “A feia noite” até hoje está para ser relido na minha estante!

    Vão lançar em ebook?

  3. luiz schwarcz disse:

    Bem-vinda Simone. Gostei muito do seu livro! E agora do post.

  4. Lucas Feat disse:

    Escritor é ególatra sim. Absolutamente.
    Estou ansioso para ler o livro.
    Obrigado por mais essa, Simone.

  5. Thiago Sales disse:

    Simone, com todo o respeito: de onde você tirou que todo escritor é ególatra, ou seja, idolatra a si mesmo? Não seria melhor falar apenas por si própria? Pois eu francamente estou cansado dessa atual ficção brasileira que só serve de auto-análise. Francamente.

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