Jules Rimet, meu amor

Por Sérgio Rodrigues


A convite do jornal Le Monde, Sérgio Rodrigues, autor de O drible, publicará durante a Copa do Mundo o folhetim Jules Rimet, meu amor. A cada semana, a Companhia das Letras vai publicar um conjunto de capítulos deste folhetim no Brasil exclusivamente em e-book.

Em dezembro de 1983, a taça Jules Rimet, conquistada pelo Brasil pela terceira vez, foi roubada por uma quadrilha de dentro da sede da CBF, no Rio de Janeiro. Heresia suprema, a taça foi derretida dias depois por um argentino e o ouro vendido por peso. Protagonizado por um escritor que acaba de publicar seu primeiro livro de sucesso, o enredo é cheio de reviravoltas, humor e críticas ácidas ao círculo de artistas e letrados do Rio de Janeiro.

Leia agora um trecho de Jules Rimet, meu amor. As outras partes do folhetim serão publicados nos dias 23 e 30 de junho e nos dias 07 e 14 de julho.

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1.

Estou na varanda da torre de um castelinho neogótico em Santa Teresa, nu como um bebê, e escrevo com uma esferográfica de ponta mordida em meu bloco apoiado na amurada, enquanto observo a claridade nascente do primeiro dia da Copa do Mundo de 2014 insinuar uns tons de ouro no espelho da Baía de Guanabara e sobre o casario castigado do centro do Rio. Não, não será aqui na velha cidade apadrinhada por São Sebastião, o mártir homoerótico crivado de flechas, que a competição começará: interesses políticos e econômicos decidiram levar a partida de abertura para São Paulo, megalópole incomparavelmente mais rica e mais sem graça, deixando para o cartão postal do Brasil o encerramento, a final, a apoteose — querem mais o quê, ô, vocês aí da praia?

Até alguns dias atrás isso me irritava, como me irritava a desorganização que cercou os preparativos da Copa, o show de incompetência, politicagem, corrupção e desprezo à palavra empenhada que é provavelmente a explicação para este dia nascer tão pouco elétrico: a cidade e o país zumbindo em voltagem baixa, todo mundo meio envergonhado, cabreiro, preferindo que a maior competição do futebol tivesse qualquer outra sede no planeta para que afinal se pudesse torcer em paz pelo time de camisa amarela, como sempre. Sonhar que podíamos ser os melhores do mundo outra vez. De alguma forma, é tarde demais: paira no ar a certeza não verbalizada de que o Brasil já perdeu a Copa, mesmo que venha a ganhá-la.

Não que isso tenha importância para mim agora. Limito-me a olhar o horizonte vermelho, o Pão de Açúcar negro nele recortado, aquela beleza tão gratuita quanto inútil, e escrever. O troféu pelo qual todas as seleções vindas de longe começarão a se digladiar daqui a pouco me parece trivial, insignificante — ridículo — quando comparado com minha fênix adorada. Opa, eu escrevi “minha”?

Sim, escrevi. Sinto que estou perdendo contato com toda forma de sensatez. Não ligo. Mesmo assim sei que uma decisão precisa ser tomada logo, de preferência antes que Julia acorde, e por isso escrevo.

Preciso entender quem sou eu nessa história estranha, otário ou predestinado, de todo modo o fio que une três ruivas a um tesouro e deságua num pacto de vida ou morte. Atrás de mim, além das cortinas semicerradas que a brisa balança de leve, Julia dorme nua entre os lençóis amarfanhados da noite passada, nacos de seu corpo muito branco aflorando aqui e ali das dobras do linho azul, como membros esquartejados. Reparo que na pressa de nos agarrarmos — no estado febril que é permanente desde que nos conhecemos, há pouco mais de uma semana, e que não se aplaca senão por um punhado de minutos após cada desmoronamento —esquecemos de fechar na noite passada o pequeno cofre embutido na parede, dois palmos acima da cabeceira forrada de palhinha da grande cama de casal.

O quadro que deveria esconder o cofre cor de chumbo, o desenho original de um fauno tocando flauta assinado por Pablo Picasso, repousa no chão ao lado da cama, encostado à parede. Julgo ver uma fulguração vinda do interior escuro da cavidade metálica, que na penumbra do quarto, em meu delírio, me parece um ânus quadrado. Temo estar enlouquecendo. Por não entender direito o que fazer, o que aconteceu e o que acontecerá, escrevo como se escrever fosse algo que faço pela primeira vez na vida.

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Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé (MG), em 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, crítico literário e jornalista, é autor do romance Elza, a garota (Nova Fronteira) e das coletâneas de contos O homem que matou o escritor (Objetiva) e Sobrescritos (Arquipélago), entre diversos outros livros. Criou em 2006 o blog Todoprosa, referência na web literária brasileira, hospedado desde 2010 no portal Veja.com. Em 2011, ganhou o Prêmio Cultura do Governo do Estado do Rio pelo conjunto de sua obra.
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