As boas intenções

Por Emilio Fraia


Dez de dezembro, do norte-americano George Saunders, está cheio de personagens bem-intencionados. Na primeira história, “No colo da vitória”, a jovem Alison Pope ama suas amigas de classe, e as garotas da escola, e os garotos, e os professores. “Todo mundo era tão bacana. Todos dando o melhor de si.” Na verdade, ela ama a cidade toda. A pastora Carol; o quitandeiro adorável, “borrifando suas alfaces!”; o carteiro gorducho, “acenando com seus envelopes-bolha!”. “Para fazer o bem você só precisa decidir fazer o bem. Ter coragem. Fazer o que é direito”, diz Alison, que “gostava de estar no comando de si própria. De seu corpo, de sua cabeça. De seus pensamentos, sua carreira, seu futuro”. Alison luta pelas vítimas e contra a opressão, dá comida a pobres imaginários e conversa com eles: “Há alguma coisa que eu possa fazer por vocês, pessoal?”. E eles respondem: “Você já fez muito, Alison, ao se dignar a falar conosco”. Ao que ela acrescenta: “Isso não é verdade! Vocês não entendem que todas as pessoas merecem respeito? Cada um de nós é um arco-íris”.

Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Alison está sozinha em casa (“Também amava sua casa. Do outro lado do riacho ficava a igreja russa. Tão étnica!”) quando alguém bate à porta. É um desconhecido, um sujeito enorme, num daqueles coletes dos homens que medem o consumo de luz e água.

De repente, o grandalhão segura Alison pelo pulso, saca uma faca.

Nesse ponto, George Saunders (mestre absoluto) nos leva a observar a história através dos olhos do vizinho da frente de Alison, o superprotegido Kyle Boot. Eles cresceram juntos, Alison e Kyle. Os pais de Kyle não o deixam fazer nada, estão sempre em cima, cobrando, exigindo, cuidando, proibindo. Querem, afinal, o bem dele. “Pense em todos os recursos que investimos em você, Amado Filho Único”, diz sua mãe. “Eu sei que às vezes parecemos rigorosos demais, mas você é tudo que temos”, diz seu pai. Saunders constrói Kyle como um personagem paralisado, abobalhado pela infinidade de regras a que é submetido. Kyle vê o que está acontecendo na casa em frente: o sujeito com a faca, carregando Alison (“como uma boneca de pano no santuário do jardim perfeito que o pai tinha feito para ela”). O coração de Kyle dispara. Sua boca fica seca.

Não vou contar o desfecho da história, claro. Mas sugeriria um salto até a terceira narrativa do livro, “Filhote”, em que uma mãe, Marie, parte com seus dois filhos pequenos, Josh e Abbie, numa “Missão Família”. Pegam seu Lexus (sedan da Toyota) e vão até um sítio, margeado por um milharal, a alguns quilômetros da cidade, onde pessoas estão doando um cachorrinho.

À primeira vista, Marie parece ter algo da Alison Pope do primeiro conto, uma visão otimista das coisas. Também possui total certeza de que é portadora do bem. Apesar disso, logo percebemos que o caminho pelo qual Saunders está nos levando aqui é outro. Marie teve uma infância dura, sem muitas alegrias (“Papai era tão casmurro, Mamãe tão envergonhada”), por isso agora, na sua família, “a risada era incentivada!”. “Ah, a risada em família era a melhor coisa do mundo!”, pensava, enquanto dirigia, com os filhos no banco de trás.

Tinha uma visão muito correta de si, “sentia que o mundo era bom e que ela tinha encontrado seu lugar nele”. Era, afinal, uma pessoa compreensiva, que sabia que os filhos eram “crias de si próprios”. Ela era meramente uma “zeladora”. “Eles não precisavam sentir o que ela sentia; tinham apenas que receber apoio naquilo que sentissem, fosse o que fosse” — Waldorf aprovaria.

Então, Saunders muda a perspectiva da narração. Passamos a acompanhar Callie, a mãe da família cujo cachorrinho vai ser doado. Eles moram num sítio. São gente simples. O cachorrinho é branco, tem uma mancha marrom num olho. Se não for doado, vai ter que ser sacrificado, e Callie não quer isso, não quer que seu marido, Jimmy, precise agir “como daquela outra vez, com os gatinhos”.

Callie tem um filho, Bo, que possui um tipo de deficiência — Saunders não nos diz exatamente do que se trata. Bo costuma ficar nervoso. Os remédios o fazem ranger os dentes, e subitamente “ele dava com o punho em cima de alguma coisa; tinha quebrado pratos daquele jeito, levado quatro pontos na mão até.” Mas naquele dia ele não precisava dos remédios porque estava em segurança no quintal, diz Callie, com seu taco, treinando arremessos, enchendo de pedrinhas seu capacete dos Yankees e atirando-as contra a árvore.

Marie chega com as crianças à casa de Callie e logo se depara com um mundo completamente distinto do seu, “a imundície, o cheiro de mofo, o aquário seco sustentando o volume único da enciclopédia”. “Por favor, não toquem em nada”, ela diz a Josh e Abbie, mas “só mentalmente, desejando dar às crianças uma oportunidade de observá-la sendo democrática e compreensiva”.

As crianças adoram o cachorrinho, ficam repetindo “mamãe, eu quero ele, eu quero ele!”. Tudo está indo bem, de maneira absolutamente ok. Até que Marie vai até a janela e, “afastando antropologicamente a persiana”, vê uma cena que, claro, eu não vou contar. Mas que a faz desistir de levar o cachorrinho, e que coloca em movimento um dos finais mais sensíveis que já li num conto.

O que dá para dizer sem dizer sobre os desfechos dessas duas histórias? — e é incrível que Dez de dezembro não tenha recebido uma única resenha ou crítica sequer até agora por aqui. Saunders vai nos dizer algo mais ou menos assim: 1) por mais ponderadas e pretensamente racionais que sejam as nossas escolhas, alguma coisa sempre pode sair do controle; 2) lutamos contra injustiças e criamos novas injustiças; 3) temos plena certeza de que somos razoáveis e bons — o bom-senso, que Descartes dizia ser a coisa mais bem distribuída do mundo, porque todos pensamos ter — e às vezes o que achamos, com convicção, que é o melhor a ser feito, acaba se mostrando cruel e desencadeando violência.

Num outro conto sensacional, “Exortação”, um chefe manda um e-mail a seus empregados. A história é a própria mensagem, um memorando DE: Todd Birnie, Diretor de Divisão. PARA: Equipe. RE: Estatísticas do Desempenho de Março. É um texto motivacional, a “exortação” do título. Tem aquele humor dos relatos de Kafka — nunca ficamos sabendo, por exemplo, o que é exatamente o trabalho que Todd e seus funcionários realizam. E a coisa, aos poucos, vai ficando pesada. “Estou dizendo que devemos tentar não esmiuçar cada mínima coisa que fazemos para saber se é boa/má/indiferente em última instância em termos morais”, escreve Todd. E vamos ficando horrorizados com a naturalização de comportamentos atrozes, com os auto-enganos que justificam as ações no ambiente corporativo. Ainda assim, o que sentimos é melancolia, uma sensação difusa, nunca raiva. A capacidade de afeição de Saunders por seus personagens impressiona. E isso se dá ao mesmo tempo em que o autor lança luz sobre aquele lado negro que, lendo seus textos, passamos a enxergar em tudo o que convencionamos chamar de bem e nossas mais nobres certezas e intenções.

* * * * *

Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip piauí, e editor de ficção da editora Cosac Naify. Contribui com uma coluna mensal para o blog.

3 Comentários

  1. Daniel Abreu disse:

    Concordo com o Jonas.

  2. Jonas disse:

    Emilio, você nos deixou com muita vontade de ler os contos! Sensacional o texto, parabéns.

Deixe seu comentário...





*