Bonecas russas

Por Eliana Cardoso

Sou feita — como meus personagens — de herança genética, das circunstâncias e do acaso. E, como eles, dotada de intenções e capacidade de escolha, empenhada no uso da memória para entender a mim mesma e os outros.

Com certeza, alguns genes tiveram papel importante em meu interesse pela escrita, assim como o ambiente em que cresci: minha mãe amava ideias e livros. Aos trancos e barrancos, descobri meu amor pela literatura. Hoje posso dizer que nunca estou só. Além da presença invisível da mãe, sempre existe um livro ao alcance das mãos.

Falando de hereditariedade, vale lembrar as anotações em que Darwin sugeriu uma distância entre a Física e a Biologia tão grande quanto a existente entre o conhecimento do astrônomo moderno e a doutrina de que os planetas se movem de acordo com a vontade do criador que ajusta cada planeta à sua devida órbita. Mais adiante, porém, com A origem das espécies, Darwin colocaria as duas ciências no mesmo degrau. De seus ensinamentos, lembro que a vida de cada um começa por acaso da união aleatória entre um espermatozoide e um óvulo. Ao mesmo tempo, ninguém escapa das leis e necessidades da natureza, forças independentes de nossos desejos e ilusões.

Um século depois de Darwin, dois cientistas da Universidade de Cambridge, James Watson e Frances Crick, anunciaram a descoberta da estrutura do ADN (ou DNA, em inglês). Crick deixou escapar: “Encontrei o segredo da vida”. Quase. Ainda não seria desta vez. Resolvera, entretanto, um mistério fundamental da ciência: como instruções genéticas dentro do organismo passam de geração em geração.

Uma cartomante poderia discordar sobre a importância da genética, passar por cima do meio ambiente e se concentrar no papel dos astros. Não acredito em bruxas, mas sabendo que elas existem, registro o dia do meu nascimento: 28 de fevereiro. Nessa data se comemoram os aniversários de escritores importantes como Michel de Montaigne, de dois grandes poetas — o norueguês Rudolf Nilsen e o irlandês, John Montague —, do jornalista Ben Hecht (A Child of the century) e da romancista Laura Z Hobson (Gentleman´s agreement).

Por uma ou outra razão, escrever me faz feliz. Durante muitos anos publiquei artigos sobre economia em revistas profissionais e sobre temas variados em colunas de jornal. Só depois me entreguei à ficção.

Considero a invenção de narrativas como uma forma de pensar e entender experiências. De imaginar vidas diferentes da minha. De inventar pessoas e deixar que elas tomem rumos não planejados, mas ditados por seu caráter e pela combinação da hereditariedade e das circunstâncias — circunstâncias definidas não apenas pelo ambiente real, mas também pela atmosfera percebida pelo bebê e gravada para sempre no seu inconsciente.

Da combinação desses elementos surgiram as personagens de Bonecas russas, que conta a história de Lola e de Leda. Leda, tímida e sonhadora, desde pequena adorava lendas e colecionava mitos. Tendo herdado o interesse mas não o talento artístico da mãe, escultora e ceramista, tornou-se dona de uma galeria de arte. Lola, decidida e mandona, obcecada por teatro, lia uma peça atrás da outra, escrevia e distribuía papéis entre as amigas para as pequenas produções a serem apresentadas nos aniversários. Quando cresceu, virou jornalista.

Bonecas russas é também a história de Francisca, mãe de Leda, que a abandonou ainda criança. A de Odete, mãe de Lola, que se envolveu em um escândalo na cidadezinha de interior onde morava. A de Rosália, irmã de Francisca, a tia solteirona que acabaria por criar as duas meninas. E a história de Miranda, filha do primeiro casamento do marido de Leda, que também se tornaria jornalista, como Lola.

As histórias dessas seis mulheres se sobrepõem e suas vozes se complementam. Elas são bonecas russas pelo menos em certo sentido. Presas por laços familiares, brotam uma das outras no labirinto de relações desdobradas até a revelação de seus mistérios.

São bonecas russas também, porque, em suas diferentes camadas, sofrem o impacto das ações dos homens que amaram. Mas não são bonecas no seu desejo de viver. O desconhecido amedronta a pessoa incapaz de se reconhecer no estranho, mas não a essas criaturas destemidas, marcadas talvez por certa imprudência, encontradiça na classe social em que mulheres parecem protegidas.

Crescendo, as bonecas conquistam sua identidade no contato humano, no contraste, no conflito, no avanço através de experiências sofridas. Não posso revelar aqui se elas descobrem a alegria de se sentirem donas de si mesmas, livres das caixas que as impediam de olhar de frente esta coisa indecifrável e breve que é a vida.

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BONECAS RUSSAS
Sinopse:
Bonecas russas é um emaranhado de relações que nem sempre são claras, ideais ou mesmo construtivas, mas que vão se desdobrando até a revelação dos mistérios que cada uma das seis mulheres — Lola, Leda, Francisca, Odete, Rosália e Miranda — pretendera guardar apenas para si. Em sua estreia na ficção, Eliana Cardoso cria uma narrativa inteligente, original e surpreendente, composta de múltiplas vozes, todas especiais à sua maneira.

Evento de lançamento:

São Paulo — Quarta-feira, 23 de julho, às 18h30 na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi — Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232.

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Eliana Cardoso nasceu em Belo Horizonte. Formou-se em economia na PUC do Rio de Janeiro, concluiu o mestrado na Universidade de Brasília e o doutorado em economia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Trabalhou para o Banco Mundial na China, Índia, Paquistão, entre outros países da Ásia. Foi professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Publicou mais de quarenta trabalhos em revistas acadêmicas e nove livros. Atualmente é colunista do Valor Econômico e mora em São Paulo.

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