O gesto de Andrew Solomon

Por Sofia Mariutti


Quando me consultei pela primeira vez com minha atual psiquiatra, estava resistente a sair de lá com uma receita de antidepressivo, então saí com a receita de ler O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon. Eu já estava trabalhando na edição de Longe da árvore, o livro mais recente do autor, e sabia que a obra anterior também era monumental, mas só com a prescrição médica tomei coragem de enfrentar aquelas muitas páginas.

Passei muito tempo sem aceitar a depressão, cheia de desconfianças em relação à indústria farmacêutica, a essa estranha epidemia de doenças mentais nos nossos dias, aos efeitos obscuros dos psicotrópicos. Quando li o Solomon, não posso dizer que tudo se esclareceu, mas comecei a aceitar a existência da tristeza profunda e a respeitá-la em sua complexidade.

Entendi que há bons motivos para essa epidemia: a vida alienante nas cidades, a ruína das formações familiares tradicionais, o colapso das crenças religiosas, o velho e ancestral medo da morte. Entendi que a depressão sempre pode voltar, e ainda pior, quando não for bem tratada. Que há uma infinidade de pessoas sofrendo, o tempo todo, em todos os lugares do mundo.

Solomon me convenceu a me tratar, com esse gesto humano e terno que é o seu livro. A dor merece sair do armário, assim como a sexualidade, e Solomon tira tudo lá de dentro, não deixa nada pra trás. Seus trabalhos de fôlego, que envolvem pesquisas amplas, passam por questões pessoais, e talvez por isso sejam tão empáticos. Quase sempre, sair do armário acaba sendo um gesto pelo outro.

A boa nova para todos aqueles que sofrem de depressão, conhecem alguém que sofre ou se interessam pela doença é que o livro, lançado no Brasil em 2002 e fora das livrarias há algum tempo, ganha nova edição da Companhia das Letras agora em julho, quando o autor desembarca em Paraty para a 12ª edição da Flip. (Essa é a segunda boa nova, para quem não sabia).

A terceira boa nova é que pedimos um novo texto ao autor, em que ele atualizasse o cenário dos tratamentos contra a depressão e contasse o que aconteceu com ele desde a publicação do livro. Diante da encomenda de 3 mil palavras, Solomon se animou e nos entregou um texto de 20 mil palavras: oitenta páginas inéditas, escritas exclusivamente para a nova edição brasileira. O demônio do meio-dia ganhou um novo capítulo, um epílogo.

Nele, ficamos sabendo, por exemplo, que o botox vem sendo testado como tratamento da depressão (leia mais aqui). Que Solomon se transformou num depressivo profissional, o que veremos de perto na Flip. E que as coisas podem estar melhores desde a época em que ele saiu do armário, quando a doença era mais estigmatizada, mas ainda há grande hostilidade contra quem sofre de doenças mentais, e o estigma desencoraja outras pessoas a procurarem tratamento: daí a importância desse gesto.

Abaixo, em primeiríssima mão, as primeiras páginas do texto inédito.

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Epílogo

para T.R.K.

Vinte anos se passaram desde a minha primeira depressão grave. Tenho uma doença mental, diagnosticada há quase metade da minha vida, e não posso mais me imaginar sem ela. Parece menos alguma coisa que me aconteceu do que uma parte de quem eu sou; certos dias, é a coisa que me define, mas é sempre pelo menos uma coisa que me define. Já não fico pensando sobre quando estarei fora de tratamento, da mesma forma que não fico imaginando quando vou deixar de comer ou dormir. É difícil saber o quanto a depressão me define devido à minha experiência com a própria doença e o quanto ela está gravada na minha identidade em virtude da postura pública que assumi ao falar sobre ela. O fato de ter escrito O demônio do meio-dia me transformou em um depressivo profissional, o que é uma coisa esquisita de ser. Um curso da universidade que frequentei recomenda o livro e consequentemente fui convidado a dar uma palestra. Quando era estudante, eu sonhava em ser um escritor tão talentoso que os alunos daquela universidade estudariam minha obra. Mas, nessa fantasia, não antevia minha obra como um livro de memórias selecionado para um curso de psicologia anormal.

Para mim, qualquer pensamento sobre a depressão tornou-se uma questão dialética. Por um lado, minha vida é tão menos afetada pelo problema do que antes que às vezes a escuridão daqueles episódios originais parece um sonho distante. Por outro lado, sentir-me seguro é quase sempre o prelúdio para uma das minhas recaídas ocasionais, e, quando ela bate, sinto mais uma vez que jamais escaparei da escuridão. Por um lado, estou mais acostumado a esses mergulhos do que costumava estar; posso sentir a depressão incubando do mesmo modo que artríticos sentem a chuva iminente. Por outro lado, é chocante a cada vez que acontece; esqueço como ela é uma sensação física, como é implacável: o aperto no peito, a apatia. Esqueço o arrasamento de meu ego, a luta para não acreditar que cada pensamento distorcido é um insight. Quando não estou deprimido, tiro força e beleza da depressão; quando estou deprimido, não encontro nenhuma dessas coisas. Oculto isso melhor do que costumava; posso funcionar surpreendentemente bem, mesmo quando me sinto como se estivesse morrendo — ou como se quisesse morrer. Mas a ansiedade continua sendo meu pior inimigo, e às vezes acordo sentindo que o dia é mais do que consigo suportar. Uma rotina de terapia e medicação parece um preço pequeno a pagar por uma equanimidade relativa, mas odeio o tempo e o gerenciamento que tudo isso exige. Detesto ter um cérebro frágil e saber que, ao fazer algum plano, devo prever a possibilidade de que minha mente me traia no curto prazo. Não deixei a depressão para trás: apenas a mantenho à distância.

Tive um pouco de sorte nos últimos vinte anos. Casei com meu marido, John, a pessoa mais gentil que já conheci, e tive filhos que ao mesmo tempo exigem muito e proporcionam grande felicidade. É possível conquistar sozinho certos aspectos de estabilidade, mas ela também vem de outras pessoas, e John me deu um lastro. Ele é paciente e gentil quando estou deprimido. Mas já não estou sozinho na depressão, e essa é uma mudança fundamental. Posso ter a sensação subjetiva de que a vida é intolerável, mas sei que o que sinto é inconsistente com o que é verdadeiro: tenho uma vida boa. Encontrei uma psicofarmacologista brilhante que montou uma rotina de medicação que na maioria das vezes tem uma eficácia surpreendente, com efeitos colaterais relativamente pequenos. Nós descobrimos como consertar quando o problema aparece. Na psicoterapia, frequento um analista que é sábio e engraçado. Uma vez, quando me mostrei um tanto desdenhoso em relação a alguns sinais de alerta precoces da depressão, ele comentou: “Nesta sala, Andrew, nunca esquecemos que você é totalmente capaz de tomar o caminho mais rápido para o porão de pechinchas da saúde mental”.

Eu controlo minha vida. Não perco um único dia de medicação. Com a ajuda de meus dois médicos, ajusto as doses e tento modificar meu comportamento assim que reconheço o menor indício de uma recaída. O propranolol, um betabloqueador que posso usar quando me sinto especialmente ansioso, diminui o meu ritmo cardíaco e me permite respirar. Ele não tem os efeitos sedativos dos benzodiazepínicos. Algum tempo atrás, aumentei meu Zyprexa, depois diminuí um pouco a dose, e gostaria de cortar totalmente, mas, em bem mais de um ano, nunca encontrei o momento certo para enfrentar a possibilidade de uma escalada da ansiedade. Sou fanático quanto ao sono e disposto a adiar quase tudo para ter certeza de que durmo o suficiente; John é quem se levanta com nossos filhos no meio da noite, se isso for necessário. Faço exercícios regularmente, tanto para o bem-estar físico como mental. Consumo bebidas alcoólicas em pequenas quantidades e ainda menos cafeína (embora tenha um fraco por chocolate amargo, que não posso comer se estou me sentindo ansioso).

Ao mesmo tempo, não estou disposto a fazer algumas concessões. Levo uma vida fascinante e estressante, e não vou abrir mão disso. Vou a todos os lugares e me dedico a pessoas demais; adoro minhas próprias ideias e tenho curiosidade pelas ideias de outras pessoas; sou um malabarista desajeitado, mas entusiasmado entre a família, os amigos e o trabalho. Prefiro tomar meus remédios e viver no mundo do que reduzi-los e me fechar em mim mesmo. Quando estou bem, faço tudo o que posso, e às vezes isso parece bipolar dois. Mas meu comportamento não é hipomaníaco; ao contrário, ele reflete a minha compreensão de que a capacidade de ser funcional pode me abandonar a qualquer momento e que devo explorar meus períodos funcionais ao máximo.

Às vezes, meus filhos são meus antidepressivos. Prometi a mim mesmo jamais pensar em suicídio depois que me tornei pai e não agir de modo deprimido perto deles se puder evitar fazê-lo, e estar com eles fortalece essas obrigações benignas. O som da voz deles tem um efeito milagroso quando estou leve ou moderadamente deprimido. Embora eles também possam me deixar furioso e preocupado, nunca me fazem sentir menos envolvido no mundo. Contudo, tento protegê-los não só da minha depressão, mas também da capacidade deles de mitigá-la, porque não quero que tomem isso como uma obrigação. John é de uma grande ajuda sempre que estou mal; quando estamos juntos em nosso quarto eu me sinto mais seguro do que me sentia em meu quarto sozinho, e não o afasto muito de minha realidade. O amor ajuda quando a depressão está em seus estágios iniciais. Mas, quando ela realmente se agrava, a maior parte dessa energia se esvai. Consigo dizer que as coisas estão ficando sérias quando minha ansiedade não responde ao riso de meus filhos. Nesse momento, meu trabalho é proteger as crianças de meu desligamento, agir do modo como eu gostaria de me sentir. Essa é a empreitada mais desgastante do mundo, embora haja certa satisfação sinistra em levá-la a cabo.

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Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.