Paul Pope

Por Érico Assis


“Meu pai dizia que eu gostava da Heavy Metal porque podia ficar segurando a revista com uma mão só. Mas meu negócio não era esse. Eu era vidrado nos mundos que os europeus construíam, na bizarrice.”

Paul Pope é norte-americano. Nasceu em Filadélfia, mas cresceu numa cidadezinha de Ohio. Passou a adolescência lendo X-Men e Superman igual a toda garotada. No fim da adolescência, bem diferente da garotada, queria olhar para fora: os álbuns de Manara, Vittorio Giardino, Yves Chaland, filmes de Kurosawa, catataus de mangá em japonês. Entrou na faculdade de artes para circular com o povinho da fumaça e discutir Grandes Ideias. Ficou lá oito anos sem se graduar. Mas aos 21 já tinha uma editora de quadrinhos. Quem administrava era uma sócio fictício chamado Ira Rubin — Pope com assinatura e voz impostada quando tinha que falar com jornalistas e distribuidoras.

A grande obra de Pope era THB, a série de aventuras da garota HR Watson. Em Marte, no futuro, ela carrega uma bolinha de borracha roxa que, em contato com a água, transforma-se num guarda-costas supermusculoso com dois metros e quinze. Eram os tempos da explosão do quadrinho indie nos EUA e Pope estava na dianteira.

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“Cara, se o Jack Kirby tivesse a liberdade do mangá, com toda aquela eletricidade, brio, potência que a gente lembra quando pensa no Kirby, se ele tivesse mais espaço, aquela pancadaria ia ser sensacional.”

Foi a mesma época de pico da indústria de mangás. A Kodansha foi de bolso cheio contratar ocidentais para diversificar os gibis no Japão. Pope foi um dos contratados, produziu centenas de páginas e viu poucas saírem de fato. Os japoneses levaram cinco anos para desistir do plano, mas mantiveram o americano como funcionário esse tempo todo. Ele chama o período de “aprendizado”.

Seus quadrinhos começaram a circular na Europa. Jean-Pierre Dionnet, um dos fundadores da Heavy Metal, nomeou-o “Jim Morrison dos quadrinhos” — não só pela semelhança de postura, mas também pela aparência física. Nos EUA, ele não tinha os melindres que outros indies tinham em trabalhar para a indústria: fez gibis de Batman e Homem-Aranha, vendeu criações para a Vertigo. Também vivia de ilustração no cenário da moda e editorial hipster nova-iorquino: a marca DKNY contratou-o para assinar coleções em duas temporadas.

Adorava citar Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway. Morando no SoHo de Nova York, tentou viver sua versão da Paris anos 1920. Trabalhava até a meia noite e depois ia para o bar discutir gibi com Frank Miller.

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“Fui conversar com o cabeça da DC Comics. Eu queria muito fazer uma história do Kamandi, o personagem do Jack Kirby. Eu tinha uma ideia bem legal… aí ele me falou: ‘Você acha que vai fazer HQ pra criança? Para, pode parar. A gente não publica gibi pra criança. A gente publica gibi pra marmanjo de 45 anos. Se quiser gibi pra criança, a gente tem o Scooby-Doo.’ Aí eu pensei: ‘Ok, acabou entre nós.’”

Bom de Briga nasceu porque Pope não encontrava gibis legais para os sobrinhos pré-adolescentes. Não legais como ele queria: uma mistura da pancadaria fantástica da Era de Prata com o foco psicológico e distendido dos mangás nas paisagens barrocas da Heavy Metal. São poucos, muito poucos, que têm motor flex para processar a influência dos três grandes mercados de quadrinhos do planeta.

Assim, naquelas seis páginas em que o pai do Garoto Bom de Briga chega à morada celeste — ou nas quase 30 páginas de Bom de Briga contra Humbaba —, você vê tanto Kirby quanto Jean-Claude Mézières, tanto Moebius quanto Miyazaki. Aqueles sorrisos vêm do Hugo Pratt, os planos abertos têm Katsuhiro Otomo, heróis e vilões pulando e trocando farpas verbais lembram Stan Lee/Steve Ditko. E as porradas são Frank Miller.

O liquidificador de referências não serve para nada se Pope não tiver propósito definido e original. Bom de Briga tem isso: é quadrinho de ação puro, divertido, rock ‘n’ roll. Talvez seja um dos quadrinhos perfeitos para apresentar ao sobrinho, ao filho, aos pré-adolescentes. As influências, citações e homenagens estão lá só para os marmanjos de 45 anos.

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(As citações de Pope vêm da Comics Journal (edição 191 e aqui) e do Comic Book Resources.)

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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