Um brasileiro na lista

Por Carol Bensimon

Minha amiga tinha dois exemplares de Sergio Y. vai à América. Ela disse: “Vou te dar um no nosso próximo vinho”. Então chegou aqui em casa com o livro e meio que se desculpando pelas orelhas, que teimavam em ficar levantadas, umidade relativa do ar superior a 80%, como se quisessem muito ser lidas naquele instante, mas aquele instante era a hora do vinho, de maneira que Sergio Y. vai à América (um bom título, meio Jacques Tati) ficou em cima da mesa enquanto a gente sentava na beira da janela, admirava um prédio decadente e esperava o dia acabar.

Segundo romance de Alexandre Vidal Porto, Sergio Y. vai à América recebeu o prêmio Paraná de Literatura de 2012. Minha amiga tinha dito: “é muito bom”. Isso me valia mais do que o prêmio. Eu também sabia que ela tinha escrito uma resenha sobre Sergio Y., que começava estranhamente com um pedido para que a resenha não fosse lida antes do livro, coisa que decidi seguir à risca, e que me fez também evitar a orelha avariada pela umidade, juro que só parei para olhar a foto do Alexandre, sorrisinho maroto, nunca tinha visto na vida, tenho um fraco por fotos de orelhas, fico voltando a elas como se fizessem parte da narrativa (não, não fazem, nego tudo). Enfim, o que vale dizer é: faça isso, não leia detalhes sobre a trama. Entre no livro meio perdido. Melhor assim.

Desde o fim de Um outro amor, de Karl Ove Knausgård (alma dilacerada e três vivas para a arte), nenhum livro tinha conseguido me fisgar, era como um amor não-resolvido e eu estava pura rabugice ultimamente, pegando no sono no meio dos livros, contando páginas para acabar, soltando enfáticos “isso aí é só o rascunho de uma história” para alguns romances que caíam na minha mão.

Tudo diferente com Sergio Y. vai à América.

Aqui, a crueza da narrativa não impede que a história seja totalmente sedutora. Se é difícil ver o narrador, Dr. Armando, como uma personagem complexa, redonda, contraditória, isso pouco importa; o papel que cabe ao psiquiatra é o de descortinador da vida & paradeiro de Sergio Y., esse garoto paulistano triste que se reinventou em Nova York, e por cujo destino seu ex-analista sente completa responsabilidade. O tom de investigação do romance é bem dosado com reflexões sobre a existência, a família e a liberdade que o exílio pode trazer. Falando em exílio: a história paralela da imigrante lituana Adriana Zebrowskas deixa uma forte impressão de real (o.k., admito que dei um google para  ver se a tal Adriana tinha de fato existido).

Sergio Y. vai à América me lembrou muito o excelente Elena, documentário de Petra Costa sobre a morte de sua irmã nessa mesma Nova York de Sergio. Mas, diferente da obra de Petra, o romance de Alexandre Vidal Porto não esbanja sentimentalismo e prosa poética. Ponto para ele.

Não sei se muitas pessoas estão falando sobre esse livro. Se não estão, deveriam.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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