Entrevista com Guillermo del Toro

Por Ana Maria Bahiana


Quando entrevistei Guillermo del Toro pela primeira vez, 17 anos atrás, ele estava correndo atrás de baratas. Não quaisquer baratas: baratas gordas, grandes, pretas, altamente dramáticas, daquelas que, numa produção, custam 100 dólares de aluguel por semana — cada uma.

Algumas delas eram falsas, baratas cenográficas infestando um “túnel do metrô” construído num set de um subúrbio de Los Angeles. Mas algumas eram absolutamente legítimas e vivíssimas blatta orientalis, as polpudas baratas asiáticas que fotografam tão bem em filmes de terror. E Del Toro, comandando as filmagens de seu primeiro projeto norte-americano, o thriller Mutação, não conseguia que seus caros figurantes de seis pernas permanecessem em quadro.

Sim, Mutação era sobre baratas gigantes.

“Não tenho o menor pudor em dizer que nenhuma premissa, por mais absurda ou ridícula que seja, escapa à minha atenção”, Del Toro me diz agora, quase duas décadas depois, quando mais seis títulos se acumulam em seu currículo, acompanhados de indicações e prêmios, e seu nome está na curta lista dos diretores mais procurados do cinema.

Como tantos de seus colegas, Del Toro está migrando para a TV (um meio para o qual trabalhou, em circunstâncias bem diferentes, no México dos anos 1980). Ele escreve, produz e dirige o piloto da série The Strain, baseada em sua trilogia de livros do mesmo título, publicada entre 2009 e 2011 (Noturno, A queda e Noite eterna). Não há mais baratas gigantes, mas a Nova York imaginária de The Strain é povoada por uma nova e virulenta tribo de vampiros, onde o imaginário coletivo do mito, das lendas asiáticas a Nosferatu, une-se a outros medos — pandemias, genocídio, loucura, isolamento — para compor um bravo mundo novo, deliciosamente terrível.

Mas não quero mais falar. Guillermo é muito mais eloquente. Eis um pouco da nossa conversa, semana passada, aqui em LA, onde Del Toro mora com a mulher, as duas filhas e duas casas extras, construídas para abrigar sua coleção de livros, anime, kaiju, mangá, brinquedos, pôsters…

* * *

Por que vampiros?
Não sei. Deve ser parte do meu estranho modo de ser. Sou estranho. O que mais posso dizer? Desde garoto sou obcecado por vampiros, estudo e anoto tudo o que encontro sobre vampiros. Vampiros não são românticos — esta é apenas uma das leituras mais contemporâneas dessa mitologia. Vampiros fazem parte de uma longa linhagem de mitos que atravessam épocas, idiomas e culturas. Há muitas camadas de significados neles — algo a ver com nosso medo da morte, nosso fascínio com a eternidade, nossa carnalidade… e o amor. Há sempre um subtema de amor. Os strikoi, vampiros do folclore do Leste europeu, atacam primeiro as pessoas que mais amam. É uma confluência extraordinária de significados: se você se torna a primeira vítima de um strikoi, é porque ele ou ela amam você mais que qualquer pessoa. É algo estranho, profundo e extremamente perverso.

Por que o terror é seu gênero favorito?
Porque é um tapa na cara do nosso conformismo. Principalmente agora, quando afetamos ser tão super sensíveis a tudo, tão preocupados com o “correto” e, ao mesmo tempo, temos almas tão endurecidas, tão insensíveis. Acho fantástico que as pessoas se sintam ofendidas porque construímos mal uma frase, usando palavras pouco felizes, e ao mesmo tempo continuamos tratando os seres humanos da pior maneira possível. Essa indiferença, essa barreira de bons modos que construímos para nos isolar do que deveria ser a simples decência… isso sempre me incomodou profundamente. O bom terror é uma bofetada bem dada nessa complacência. Acho que precisamos muito disso.

Qual o autor de terror que você mais admira?
Stephen King. Ele está para a literatura de terror como Alfred Hitchcock está para o thriller cinematográfico: colocando todo o gênero e todos os medos que são universais numa escala pessoal, íntima, extremamente local. A criação narrativa do que viríamos chamar de terror começa na Idade Média em histórias que não eram necessariamente para assustar pela emoção, mas para ensinar e doutrinar pelo medo. Quando temos o gótico no século 18 ele está voltando à Idade Média das ruínas, dos castelos, dos cavaleiros-fantasmas que vagueiam com correntes por ruínas. E isso segue pelo século 19 com o mesmo universo de ruínas, países mediterrâneos com rapazes morenos de péssimas intenções, mocinhas muito louras em perigo, castelos, masmorras. Duas pessoas mudam isso radicalmente, uma delas é Richard Matheson, que de certa forma é o precursor de Stephen King. Matheson traz o terror para os Estados Unidos contemporâneos. E King desce a um detalhe ainda mais preciso, colocando o terror numa cidadezinha do interior repleta de detalhes exatos, as pessoas andando de bicicleta, as folhas douradas do outono… O terror não está mais no castelo mal assombrado da duquesa do século 18, mas na nossa sala de estar, no nosso sofá. Não há mais um fantasma sacudindo correntes por uma masmorra. Há alguém que você não sabe quem é que está tentando entrar na sua casa de noite, enquanto você assiste TV e come seu jantar… E por isso o terror de King é tão efetivo: porque para um bom terror funcionar é preciso que ele esteja repleto de detalhes prosaicos.

O que mais te aterroriza?
Os políticos e os governantes. Vivemos num mundo que é completamente armado para proteger os fortes e os poderosos, para garantir que os ricos continuem ricos, os poderosos continuem no poder e o resto do povo continue submisso. Existe alguma coisa mais assustadora do que isso?

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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3 Comentários

  1. Gui disse:

    “Nefasta cultura de massa”, hahahaha

    “Seu discurso defasado e ressentido”, hahahaha

    “Descompasso entre o senso e postura críticos”, hahahaha

    Ah, desculpa aí, “hahahaha” é a estandardização prosaica do meu discurso.

  2. Luis Narval disse:

    É possível que o Sr. del Toro saiba do que está falando. Já que ele faz parte deste mesmo mundo de “ricos e poderosos”, ao qual (ingenuamente?), numa manobra escapista e infundada, tão severamente critica. Esquece, ou finge esquecer, que a indústria cinematográfica, e, por extensão, a televisiva estadunidense, seja talvez um dos pilares mais importantes para a sustentação e difusão do status quo capitalista do mundo moderno (entenda-se: pós-segunda guerra), com sua nefasta cultura de massas, onde a estandardização prosaica de pensamento, juízo, desejo, emoção e sentimentos tendem a suprimir todas as diferenças (exceto, é claro, a do poder aquisitivo). Mas é curioso que o Sr. del Toro se esqueça disso. Seu discurso defasado e ressentido de velho comunista da velha guarda (não digo que ele seja) revela um descompasso entre o senso e postura críticos, inegociáveis que todo artista deve, como sinal de individualidade, assegurar para si e a realidade (tantas vezes torpe, porque condescendente) de seus triunfos.

  3. effgen disse:

    Livros perfeitos.

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