Vinte regras para escrever histórias de detetive

Por Raphael Montes


Foi em 1928 que o escritor e crítico americano S. S. Van Dine, criador do detetive Philo Vance, publicou sua lista de vinte regras para escrever um bom romance policial. Como sabemos, listas em geral são reducionistas e mais atrapalham do que ajudam, principalmente quando o assunto é literatura. São pouquíssimas as regras para se fazer boa literatura, se é que elas existem. De todo modo, para os interessados no gênero policial, a lista de Van Dine tem relevância histórica e ajuda a entender alguns elementos da literatura policial hoje. Abaixo, escolhi e comentei algumas regras (ficaria enorme se comentasse todas), mostrando que poucas ainda são pertinentes — a maioria perdeu sentido e chega a ser engraçada ou patética. Vamos lá:

“1. O leitor deve ter oportunidade igual a do detetive de solucionar o mistério. Todas as pistas devem ser claramente descritas e enunciadas.”

Para o leitor da Era de Ouro, o romance policial era, antes de tudo, um torneio intelectual, uma espécie de “livro-jogo” que o desafiava. Whodunit (quem matou?) era tanto o gênero quanto o objetivo do leitor ao buscar esses romances. Não bastava ler, era preciso desvendar o quebra-cabeças também. Assim, leitor e detetive deveriam ter acesso às mesmas informações na “disputa” de quem desvendaria o final primeiro. A meu ver, é uma regra ainda válida: apenas nos romances policiais ruins o autor surge com um elemento que não havia aparecido antes e resolve toda a situação.

“2. Nenhum truque ou tapeação proposital deve ser utilizado pelo autor, senão os que tenham sido legitimamente empregados pelo criminoso contra o próprio detetive.”

Naturalmente, “tapeações” narrativas e de linguagem são muitíssimo interessantes. Há ótimos livros policiais que se utilizam da perspectiva do personagem (normalmente, em primeira pessoa) para fazer o leitor tomar um partido ou acreditar em uma versão dos fatos.

“3. Não deve haver interesse amoroso no entrecho. Trazer amor à cena é atravancar a obra puramente intelectual com sentimentos que não vêm ao caso. A questão a ser deslindada é a de levar o criminoso ao tribunal e não a de levar um casal enamorado ao altar.”

A regra não faz mais sentido. No estilo clássico, os personagens não mereciam grandes aprofundamentos psicológicos e serviam de peças ao “livro-jogo”. Nesse contexto, entrechos amorosos não tinham mesmo vez. Hoje em dia, há vários romances policiais românticos (voltados ao público feminino) e outros que exploram justamente a intriga amorosa, como o meu Dias perfeitos, uma história de amor obsessivo.

“4. Jamais o detetive ou algum investigador deve ser o culpado. Isso seria tapeação da mais deslavada, correspondente a oferecer a alguém uma moeda de níquel, nova e luzidia, em troca de uma moeda de ouro maciço. Seria impostura.”

Na época de sua publicação, a lista de Van Dine ficou tão famosa que diversos autores trataram de escrever romances que quebrassem suas regras. Agatha Christie, Edgar Wallace e Erle Stanley Gardner escreveram livros em que o assassino era o investigador. Eu mesmo, em Suicidas, meu romance de estreia, tratei de romper uma das regras de Van Dine.

“5. O culpado deve ser identificado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissão forçada. O contrário disso seria mostrar ao leitor que todo o seu trabalho de dedução foi inútil, pois o tempo todo tinha o nome do criminoso escondido na manga do paletó. O autor assim não passa de um brincalhão.”

Assino embaixo. A base do romance policial é a trama bem arquitetada, com sequências lógicas e personagens fortes, como reafirma a regra 10:

“10. O culpado sempre deve ser uma pessoa que tenha desempenhado um papel mais ou menos importante na história, isto é, alguém que o leitor conheça e o interesse. Acusar do crime, no último capí­tulo, uma personagem que acaba de introduzir ou que desempenhou na intriga um papel completamente insuficiente seria, da parte do autor, confessar sua incapacidade de medir-se com o leitor.”

“11. O autor nunca deve escolher o criminoso entre o pessoal doméstico, tais como criado, mordomo, lacaio, crupiê, cozinheiro ou outros. Há nisso uma objeção de princí­pio, pois é uma solução fácil demais. O culpado deve ser alguém que valha a pena.”

A regra é absurda, claro, mas traz uma curiosidade: no fim da época vitoriana na Inglaterra, quando o gênero policial nascia, alguns autores apontavam, de preferência, elementos da criadagem como criminosos. Na época, G. Bernard Shaw chegou a comentar que “a aristocracia inglesa é tão esnobe e preguiçosa que até para cometer um crime manda que seu mordomo o faça”.  Daqui, surgiu o senso comum de que o mordomo é sempre o culpado.

“15. A verdade do problema deve estar bem à vista em todos os momentos da narrativa. O leitor tem que ser arguto para perceber. Quando o leitor, chegando à última página, recomeça a leitura deve pensar: Puxa, por que eu não percebi isso? O leitor tem que se convencer que não é tão arguto quanto o detetive. Uma novela de mistério nunca será de mistério para todos os leitores, pois alguns deles descobrirão o assassino antes do detetive.”

Há, hoje, diversos romances policiais sem o elemento “final surpresa”. Ainda assim, é uma delícia chegar ao final do livro e perceber que foi enganado o tempo todo, não?

“18. O crime na história policial jamais deve ocorrer por acidente ou suicí­dio. Encerrar a história com esse anticlímax corresponde a um truque contra o leitor.”

Para bom entendedor, meia palavra basta.

Por fim, Van Dine enumera uma série de clichês do gênero que, de tão usados, perderam a graça. Chega a ser divertido:

“20. Para fazer uma conta redonda de parágrafos para este credo, queria enumerar abaixo alguns macetes aos quais não recorrerá nenhum autor que se respeite.

a) A descoberta da identidade do culpado, comparando uma ponta de cigarro encontrada no local do crime com o modelo que fuma um suspeito;

b) A sessão espí­rita trucada, no decorrer da qual o criminoso, tomado de terror, se denuncia;

c) As falsas impressões digitais;

d) O álibi constituído por meio de um manequim;

e) O cão que não late, revelando assim que o intruso é um familiar do local;

f) O culpado, irmão gêmeo do suspeito ou um parente que se parece com ele a ponto de levar a engano;

g) A seringa hipodérmica e o soro da verdade;

h) O assassinato cometido numa peça fechada, na presença dos representantes da polícia;

i) O emprego de associações de palavras para descobrir o culpado;

j) A decifração de um criptograma pelo detetive ou a descoberta de um código cifrado.”

Leia a lista completa aqui.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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4 Comentários

  1. […] Vinte regras para escrever histórias de detetive […]

  2. Paulo disse:

    Raphael, chegou a ler esse ensaio de Chesterton?

    http://www.chesterton.org/how-to-write-detective/

    “For the detective story is only a game; and in that game the reader is not really wrestling with the criminal but with the author”.

  3. Fábio Bastos disse:

    Muito bom o artigo e os comentários. O Gabriel Garcia Marques tem um livro que contradiz todas as regras. Em Crônica de uma morte anunciada, ele narra no primeiro capítulo um crime e esclarece quem é o criminoso e o motivo. Depois ele faz um flashback e conta como é porque o crime aconteceu.
    É um Agatha Christie ao contrário. Genial!

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