Entendendo a América para o Negro Não Americano: O que os WASPS querem?

Por Ifemelu (Tradução de Julia Romeu)


Raceteenth ou Observações Diversas sobre Negros Americanos (Antigamente Conhecidos como Crioulos) Feitas por uma Negra Não Americana

1. Entendendo a América para o Negro Não Americano: O que os WASPS querem?

O Professor Gato recebeu uma visita de outro professor, um judeu com um sotaque forte do tipo de país europeu onde a maioria das pessoas bebe um copo de antissemitismo no café. O Professor Gato estava falando sobre direitos civis e o judeu disse: “Os negros não sofreram como os judeus”. O Professor Gato respondeu: “O que é isso, a olimpíada da opressão?”.

O judeu não sabia, mas “olimpíada da opressão” é o que os liberais americanos inteligentes dizem para fazer você se sentir burro e calar a boca. Existe mesmo uma olimpíada da opressão acontecendo. As minorias raciais americanas — negros, hispânicos, asiáticos e judeus — todas sofrem merda na mão dos brancos, merdas diferentes, mas merda mesmo assim. Cada uma secretamente acredita que sua merda é a pior. Então, não, não existe uma Liga Unida dos Oprimidos. No entanto, todos os outros acham que são melhores do que os negros porque, bem, eles não são negros. Um exemplo é Lili, uma mulher de pele café, cabelos negros e língua espanhola que limpava a casa da minha tia numa cidade da Nova Inglaterra. Ela era muito altiva. Era desrespeitosa, trabalhava mal, fazia exigências. Minha tia acreditava que Lili não gostava de trabalhar para negros. Antes de finalmente demiti-la, minha tia disse: “Que mulher idiota, ela pensa que é branca”. Ou seja, a brancura é algo a que se aspira. Nem todo mundo é assim, claro (por favor, não precisam afirmar o óbvio nos comentários), mas muitas minorias têm um anseio conflituoso pela brancura dos wasps ou, para ser mais exata, pelos privilégios da brancura dos wasps. Eles não devem gostar de pele branca, mas certamente gostam de entrar numa loja sem que um segurança os acompanhe. Fazer uma omelete sem quebrar os góis, como disse o grande Philip Roth. Então, se todos nos Estados Unidos querem ser wasps, o que os wasps querem? Alguém sabe?

2. Por que as mulheres negras de pele escura — tanto americanas quanto não americanas — amam Barack Obama

Muitos negros americanos se orgulham de dizer que têm antepassados índios. O que significa Graças a Deus, Não Somos Totalmente Negros. O que significa que não têm a pele muito escura. (Só para esclarecer, quando os brancos falam em pele escura eles querem dizer gregos ou italianos, mas quando os negros falam isso eles estão se referindo a Grace Jones.) Os homens negros americanos gostam que suas mulheres tenham uma parcela de exotismo, que sejam meio chinesas ou tenham um ancestral cheroqui. Gostam que as mulheres tenham a pele clara. Mas tome cuidado com o que os negros americanos consideram “pele clara”. Algumas dessas pessoas de “pele clara”, nos países dos negros não americanos, seriam simplesmente chamadas de brancas. (Ah, e os negros americanos de pele escura se ressentem dos negros de pele clara, pois acham que é fácil demais para eles atrair as mulheres.)

Mas, meus colegas negros não americanos, não fiquem se achando. Porque essa merda também acontece nos nossos países caribenhos e africanos. Não é tão ruim quanto com os negros americanos, você acha mesmo? Talvez. Mas ainda assim acontece. Aliás, que história é essa de os etíopes acharem que não são tão negros? E por que os caribenhos se apressam tanto em dizer que têm ancestrais de várias raças? Enfim, chega de divagações. O fato é que a pele clara é valorizada na comunidade dos negros americanos. Mas todo mundo finge que não é mais assim. Eles dizem que o dia do teste do saco de papel já passou (façam uma pesquisa sobre isso) e que devemos seguir em frente. Mas, hoje, os negros americanos que são figuras públicas e fazem entretenimento de sucesso têm, em sua maioria, a pele clara. Principalmente as mulheres. Muitos homens negros americanos têm esposa branca. Os que se dignam a ter esposa negra se casam com negras de pele clara (também conhecidas como amarelo-escuras). E é por isso que as mulheres de pele escura amam Barack Obama. Ele quebrou o padrão! Casou-se com uma delas. Ele sabe o que o mundo parece não saber: negras de pele escura são o máximo. Elas querem que Obama ganhe porque talvez, finalmente, alguém contrate uma mulher linda cor de chocolate para ser a estrela de uma comédia romântica de orçamento alto que vai estrear em cinemas no país inteiro, não apenas em três cineminhas de arte de Nova York. Na cultura pop americana, as mulheres bonitas de pele escura são invisíveis. (Outro grupo que é tão invisível quanto é o de homens asiáticos. Mas, pelo menos, eles são considerados superinteligentes.) Nos filmes, as mulheres de pele escura fazem o papel da empregada gorda e maternal, ou da amiga da protagonista, que é forte, desbocada e às vezes assustadora, e que está sempre ali para dar um apoio. Elas falam coisas sábias e têm atitude, enquanto a mulher branca encontra um grande amor. Mas elas nunca podem fazer o papel da mulher gostosa, linda e desejada por todos. Então, as mulheres de pele escura esperam que Obama mude isso. Ah, e elas também são a favor de tirar essa gente podre de Washington, de sair do Iraque e de todo o resto.

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Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.