Entendendo a América para o Negro Não Americano: Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

Por Ifemelu


Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

 

8. Viajar sendo negro

O amigo de uma amiga, um Negro Americano moderno e cheio da grana, está escrevendo um livro chamado Viajar sendo negro. Não só negro, diz ele, mas visivelmente negro, porque existe todo tipo de negro e, com todo respeito, ele não está falando daqueles que parecem ser porto-riquenhos ou brasileiros ou sei lá o quê, está falando de quem é visivelmente negro. Porque o mundo trata você de um jeito diferente. Nas palavras dele: “Tive a ideia de fazer o livro no Egito. Cheguei ao Cairo e um árabe egípcio me chamou de bárbaro negro. Eu pensei: ‘Ei, achei que eu estava na África!’. Então comecei a pensar em outras partes do mundo e em como seria viajar para lá quando se é negro. Tenho a pele bastante escura. Os brancos do sul de hoje, se me vissem, me chamariam de negão. Os guias de viagem dizem o que você deve esperar se for gay ou mulher. Precisam fazer isso com quem é visivelmente negro. Expliquem para os negros que viajam como são as coisas. Não é que alguém vai atirar em você nem nada, mas é muito bom saber os lugares em que vão te olhar com espanto. Na Floresta Negra, na Alemanha, é um olhar de espanto bastante hostil. Em Tóquio e Istambul, ninguém ligou para minha aparência. Em Shanghai, os olhares foram intensos; em Delhi, raivosos. Eu pensei: ‘Ei, nós não estamos meio que juntos nesse barco? Tipo, pessoas de cor?’. Eu tinha lido que o Brasil é a meca das raças, mas, quando fui ao Rio, ninguém que estava nos restaurantes e hotéis caros se parecia comigo. As pessoas reagem de forma estranha quando eu vou para a fila da primeira classe no aeroporto. É uma reação de simpatia, como quem diz você está cometendo um erro, não pode ter essa aparência e viajar de primeira classe. Fui ao México, e eles ficaram me olhando. Não foi nem um pouco hostil, mas faz você se dar conta de que chama atenção, é como se gostassem de você, mas mesmo assim você é o King Kong”. Nesse ponto, meu Professor Bonitão disse: “A América Latina como um todo tem um relacionamento muito complicado com a negritude, que é ofuscada por toda aquela história de ‘somos todos mestiços’ que eles contam para si mesmos. O México não é tão ruim quanto lugares como a Guatemala e o Peru, onde os privilégios dos brancos são tão mais óbvios, mas esses países têm uma população negra muito maior”. E então outro amigo disse: “Os negros nativos são sempre tratados de maneira pior do que os de outros países em todo lugar do mundo. Minha amiga, que tem pais togoleses e nasceu e foi criada na França, finge ser anglófona quando vai às compras em Paris, pois as vendedoras são mais simpáticas com os negros que não falam francês. Assim como os negros americanos são bastante respeitados nos países africanos”. O que vocês acham? Contem suas histórias de viagem nos comentários.

 

9. O que os acadêmicos querem dizer quando falam em privilégio dos brancos, ou Sim, é um saco ser pobre e branco, mas experimente ser pobre e não ser branco

Bom, um cara falou para o Professor Bonitão: “Essa história de privilégio dos brancos é besteira. Como posso ser privilegiado? Passei uma infância pobre pra cacete em West Virgínia. Sou um caipira dos Apalaches. Minha família recebe ajuda do governo”. Tudo bem. Mas o privilégio é sempre comparado a outra coisa. Agora imagine alguém como ele, alguém que seja tão pobre e fodido quanto ele, só que negro. Se ambos fossem presos por, digamos, posse de drogas, seria mais provável que o cara branco fosse mandado para um tratamento e mais provável que o cara negro fosse mandado para a cadeia. Todo o resto é igual, exceto a raça. Veja as estatísticas. O cara que é caipira dos Apalaches é um fodido, o que não é legal, mas, se ele fosse negro, ia ser fodido ao quadrado. Ele também disse para o Professor Bonitão: “Por que a gente sempre tem de falar em raça, aliás? Não podemos simplesmente ser humanos?”. E o Professor Bonitão respondeu: “É exatamente isso que é o privilégio dos brancos, o fato de você poder dizer isso. A raça não existe realmente para você, pois nunca foi uma barreira. Os negros não têm essa escolha. O negro que mora em Nova York não quer pensar em raça, até que tenta chamar um táxi, e não quer pensar em raça quando está dirigindo sua Mercedes dentro do limite de velocidade, até que um policial o manda parar. Por isso, o caipira dos Apalaches não tem privilégio de classe, mas tem privilégio de raça com certeza”. O que você acha? Dê sua opinião, leitor, e compartilhe sua experiência, principalmente se não for negro.

P.S. O Professor Bonitão sugeriu que eu postasse isso, é um teste para ver se você tem o privilégio dos brancos, inventado por uma mulher muito legal chamada Peggy McIntosh. Se você responder não para a maioria das perguntas, então parabéns, você tem o privilégio dos brancos. Quer saber para que serve isso? Quer saber a verdade? Não tenho ideia. Acho que é bom saber, só isso. Para você poder se gabar de tempos em tempos, para melhorar seu ânimo quando estiver deprimido, esse tipo de coisa. Aí vai:

Quando você quer entrar para um clube exclusivo, se pergunta se sua raça vai dificultar a entrada?

Quando você vai fazer compras sozinho numa loja cara, tem medo de ser seguido ou assediado?

Quando você liga numa emissora de televisão importante ou abre um jornal importante, encontra pessoas que são, em sua maioria, de outra raça?

Você se preocupa com o fato de que seus filhos não vão ter livros e material escolar que falem de pessoas da raça deles?

Quando você pede um empréstimo no banco, teme que, por causa de sua raça, vá ser considerado pouco confiável financeiramente?

Quando você xinga alguém ou se veste com roupas velhas, acha que as pessoas talvez digam que fez isso por causa da falta de moral, da pobreza ou da ignorância de sua raça?

Quando você se sai bem em alguma situação, espera que considerem uma honra para sua raça? Ou ser descrito como “diferente” da maioria das pessoas da sua raça?

Se você critica o governo, teme ser visto como um marginal cultural?

Ou teme que alguém te diga para “voltar para X”, X sendo um lugar fora dos Estados Unidos?

Se você é mal atendido numa loja cara e pede para ver um gerente, espera que essa pessoa seja de outra raça que não a sua?

Se um policial de trânsito manda você parar seu carro, você se pergunta se é por causa de sua raça?

Se você aceitar um emprego numa empresa que tenha uma cota de vagas para pessoas de cor, teme que seus colegas pensem que não é qualificado e que foi contratado apenas por causa de sua raça?

Se você quer se mudar para um bairro caro, teme não ser bem recebido por causa de sua raça?

Se precisar de ajuda legal ou médica, teme que sua raça possa prejudicá-lo?

Quando vê roupa de baixo ou curativos “cor da pele”, já sabe que eles não vão ser da cor da sua pele?

 

10. Entendendo a América para o Negro Não Americano: Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

Uma grande dádiva para o Negro Enrustido é o Amigo Branco Que Entende a Situação. Infelizmente, isso não é tão comum quanto deveria ser, mas alguns têm a sorte de ter esse amigo branco para quem não é preciso explicar nada. Por favor, ponha esse amigo para trabalhar. Esses amigos não só entendem como têm um ótimo radar para hipocrisia e por isso sabem que podem dizer coisas que você não pode. A questão é que existe, em grande parte dos Estados Unidos, uma ideia dissimulada no coração de muita gente: a de que os brancos conseguiram emprego e vaga em escolas e universidades por mérito, enquanto os negros entraram porque eram negros. Mas a verdade é que, desde o início, os brancos têm conseguido empregos porque são brancos. Muitos brancos com as mesmas qualificações, mas com pele negra, não teriam o emprego que têm. Mas nunca diga isso publicamente. Deixe que seu amigo branco o faça. Se você cometer o erro de dizer isso, vai ser acusado de uma coisa curiosa que é “jogar a carta da raça”. Ninguém sabe exatamente o que isso significa.

Na época em que meu pai estava no colégio em meu país de negros não americanos, muitos negros americanos não podiam votar ou estudar em escolas boas. O motivo? A cor de sua pele. A cor da pele era o único problema. Hoje, muitos americanos dizem que a cor da pele não pode ser parte da solução. Se for, isso é chamado de um nome curioso que é “racismo invertido”. Peça para seu amigo branco comentar que a situação do Negro Americano é mais ou menos como se alguém ficasse preso injustamente durante muitos anos, mas aí de repente fosse solto, mas sem receber o valor da passagem de ônibus para voltar para casa. E, aliás, o ex-preso e o cara que o prendeu agora são automaticamente iguais. Se alguém mencionar que “a escravidão aconteceu há tanto tempo”, peça para seu amigo branco dizer que muitos brancos ainda estão herdando o dinheiro que suas famílias ganharam há cem anos. Portanto, se esse legado continua, por que não o legado da escravidão? E peça para seu amigo branco dizer como é engraçado quando as pessoas dos institutos de pesquisa americanos perguntam aos brancos e negros se o racismo acabou. Os brancos em geral dizem que sim e os negros em geral dizem que não. Engraçado mesmo. Mais sugestões sobre o que você deve pedir para seu amigo branco dizer? Por favor, coloquem nos comentários. E um brinde a todos os amigos brancos que entendem a situação.

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Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.