O leitor brasileiro

Por Juan Pablo Villalobos

No fim deste mês fará três anos que cheguei para morar no Brasil. Alguns dias depois dessa data, irei embora do país. Em meio ao caos da mudança, estou fazendo um balanço dos resultados destes anos no Brasil e, entre muitas contradições, descobri um fato que para mim representa uma grande conquista que levarei comigo: eu virei um leitor brasileiro. Virar um leitor brasileiro, devo esclarecer, é diferente de ser um leitor de literatura brasileira, o que eu já era antes de morar no Brasil.

Minhas primeiras leituras de literatura brasileira, ainda no México, foram os contos de Machado de Assis, traduzidos para o espanhol na belíssima coleção Archivos. Uma tradução para o espanhol de Machado de Assis, desta vez uma edição de bolso da Alianza Editorial, também foi o primeiro livro que Andreia, minha mulher, brasileira, me deu de presente: Memórias póstumas de Brás Cubas, numa longínqua festa de Sant Jordi em Barcelona. Foi Andreia quem abriu para mim a porta da literatura brasileira, primeiro através do ensino do português, que a gente falava em casa em Barcelona, e aos poucos me encorajando para deixar de ler as poucas traduções que existiam (e, infelizmente, continuam a existir) para o espanhol e a ler os autores brasileiros em português.

Quando cheguei para morar no Brasil já falava um português decente e me lancei decidido à leitura dos autores do país. Acho que o primeiro livro que li há três anos foi O invasor, de Marçal Aquino, mas não tenho certeza. A partir de esse momento, ler autores brasileiros em português se tornou um hábito. Mas o que me tornou de verdade um leitor brasileiro não foi ler constantemente literatura brasileira, não: o que me tornou um leitor brasileiro foi ler esses livros na padaria com a televisão eternamente ligada na Globo, virar página após página nos engarrafamentos da Marginal Tietê no ônibus que me levava de Campinas a São Paulo, sujar o canto das folhas com a gordura dos salgadinhos, ler um monte de livros na beira dos campinhos de futebol onde meu filho fazia aulas, sentir a pancada na cara do livro que escorregava de minhas mãos por tentar ler depois de comer feijoada, ler na sombra daquela árvore maravilhosa na praia do Félix em Ubatuba, ler na rede da varanda de casa, ler no boteco, ler com a música sertaneja da construção vizinha de fundo, ler no meu estúdio olhando uma jabuticabeira pela janela, ler nas salas de espera dos aeroportos teoricamente reformados para a Copa, ler nos quartos de hotel de Porto Alegre, Belo Horizonte, Palmas, Brasília, Curitiba e todas as cidades onde fui convidado para participar de feiras do livro, ler à noite depois de ter falado português o dia todo, depois de ter convivido o dia todo com brasileiros, depois de ter me irritado mais de uma vez com a realidade do país, ler e poder conversar desses livros com outros leitores brasileiros, ler, em resumo, morando no Brasil.

Acredito que a grande diferença entre um leitor de literatura brasileira e um leitor brasileiro é que o segundo não precisa de tradução. E não estou falando só da língua, estou falando da enorme quantidade de notas de rodapé que seriam necessárias para que um leitor não brasileiro tivesse uma experiência estética equivalente à de um leitor brasileiro. E, aliás, não tem nota de rodapé capaz de transmitir o espetáculo dos pássaros ao longo do dia numa jabuticabeira, nem a visão das jabuticabas esmagadas no gramado, nem a sensação nos dedos que a coleta das frutinhas produz, tudo o que está contido cada vez que um escritor brasileiro escreve a palavra jabuticaba.

Sei que muito provavelmente estou exagerando, mas vou pedir permissão: é o que a gente faz quando se sente orgulhoso de alguma coisa. Eu vou embora, mas nas minhas malas levarei uma bela seleção de literatura brasileira, que espero renovar a cada viagem de volta. Eu vou embora, mas nem acreditem que se livrarão de mim: continuarei neste blog enchendo o saco cada mês.

Até já.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil, seu romance de estreia, foi publicado em quinze países. Em setembro a Companhia das Letras publicou seu segundo romance, Se vivêssemos em um lugar normal. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

16 Comentários

  1. mariana disse:

    Sou a esposa brasileira de um mexicano – tapatío, que como você vive agora em Campinas (!!!) – sim são algumas das coincidencias. Por todas elas me identifico imensamente com seus textos, ao mesmo tempo em que me transporto no caminho inverso, a do leitor mexicano eu diria, e de todas as minhas experiências de leitura durante meus sete anos de morada no México. No metrobus, esmagada por muitos outros passageiros; no metrô, deixando quase o livro cair, quando alguém quer sair do vagão; ou em CU, no frio, esperando sempre alguem, tipicamente atrasado chegar; ou numa taqueria, tentando não manchar as páginas do livro de chile, e como isso era sempre impossível, suportar o cheiro até a última página… e tantas outras . Obrigada…

  2. Carina disse:

    Podrias escribir tu lista de libros en portugues favoritos y tu lista de libros por leer?

  3. Mara Cristina disse:

    Bom saber, que continuará aqui!Amo ler sua coluna!

  4. Carlo disse:

    Não vá, Juanito! Seja feliz, então. Para onde vais?

  5. Debora Thome disse:

    Que bom que a literatura atravessa fronteiras! Não tem como não <3

  6. mário victor disse:

    Juan, não esqueça de levar o F. do Xerxenesky! Puta livro da hora! E obrigado pelas letras.

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