Os contadores de histórias

Por Raphael Montes


Eu estava em um evento em São Paulo quando, na fila de autógrafos, um leitor fez o seguinte comentário: “Seu livro é tão bom que nem parece escrito por um brasileiro”. A frase dá o que pensar, não? Em geral, literatura nacional é ruim, chata, mal escrita?

Parece-me que o leitor brasileiro está redescobrindo o prazer de ler livros nacionais. Não estou falando dos leitores acadêmicos, estudiosos, jornalistas etc. Refiro-me, sim, ao jovem leitor, ao leitor de best-sellers que, antes de reparar na linguagem ou no estilo, quer mesmo é ler uma boa história. Com surpresa, esse público tem se deparado com obras brasileiras com boas histórias, muitas vezes melhores do que algumas estrangeiras que chegam por aqui, sem prejuízo na qualidade literária ou no estilo.

Comigo mesmo foi assim. Comecei o ano com a leitura de Nossos ossos (ed. Record), prosa longa de estreia de Marcelino Freire. Numa linguagem saborosa, quase cantada, Marcelino conta a história de um dramaturgo determinado a entregar o corpo morto de um michê a seus pais. Na trama, há o mistério de quem matou o michê e o dramaturgo vive cheio de angústias. A escrita flui com a densidade de um autor talentoso que atenta para a forma sem prejudicar a trama. Uma delícia de livro.

O mesmo vale para Biofobia (ed. Record), lido logo depois. Eu já conhecia o estilo do Santiago Nazarian de outros trabalhos, mas nesse último romance, ainda que mantidas as experimentações de linguagem, fica evidente sua preocupação em construir não só um romance existencial, mas também um thriller de um cantor de rock decadente sozinho em uma casa, repleto de sugestões obscuras e tensões. Vale dizer, é um romance a ser lido em diversas camadas: diverte na superfície, mas reafirma sua força em reflexões pertinentes ao leitor mais atento.

Continuei minha aventura de nacionais contemporâneos ao ler A cabeça do santo, de Socorro Acioli. A autora, que fez oficina literária com Gabriel Garcia Márquez, esbanja intimidade com a escrita ao narrar a jornada de Samuel, que acaba dormindo na cabeça oca e abandonada de uma estátua de Santo Antônio e consegue ouvir as preces que mulheres fazem ao santo casamenteiro. A premissa é divertida, mas o texto é forte, seco às vezes, num estilo muito próprio que me remeteu à literatura de cordel em alguns momentos.

Por fim, a maior surpresa do ano: Sérgio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto. Cheguei a esse livro por acaso. Não tinha escutado falar do autor ou da história. Gostei da capa e comecei a ler. É daquele tipo de livro que quanto menos se sabe, melhor. Numa narrativa de linguagem simples, Vidal Porto trata de sexualidade e psicanálise para contar uma bonita história sobre a busca da felicidade. Vale muito a leitura.

Atualmente, estou imerso nas páginas de A vez de morrer, de Simone Campos, outra autora cuja obra eu já conhecia, mas me surpreende pela maturidade com que une qualidade literária e uma história forte e inusitada com uma protagonista feminina.

Aos leitores descrentes com a ficção brasileira contemporânea, chequem as obras dessas pessoas e depois venham me dizer o que acharam.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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8 Comentários

  1. uilians santos disse:

    Realmente tem muita coisa boa e uma das boas surpresas deste ano entre os nacionais para mim foi A Noite Maldita – Crônicas do Fim do Mundo, André Vianco (Novo Século). Não sou fã de literatura de terror e nem dessas coisas de vampiro, mas a forma que ele constrói as cenas e narra os acontecimentos mostra quanto a literatura brasileira pode se renovar e não dever nada para ninguém, essa é a minha dica para quem busca um bom nacional.

  2. Fatima Pombo disse:

    Guilherme falou a pura verdade; ter que ler obrigado é ruim, pior ainda é ter que ler por obrigação Jose de Alencar ou Lima Barreto! Hoje eu gosto de ler os dois, sabendo toda a diferença que existia na forma de expressar em palavras os sentimentos de época.O conteúdo é o que me importa, hoje.

  3. Guilherme disse:

    Raphael, acho que o fato que mais colabora para essa visão de que a literatura brasileira não é tão boa quanto a estrangeira é o estupro intelectual que alguns professores cometem ao exigir que os adolescentes leiam as obras literárias clássicas quando têm treze, quatorze, quinze, dezesseis anos. Excetuando uma minoria desses adolescentes, por vezes mais vivida que muitos adultos, qual maturidade possui uma molecada dessa para lidar com assuntos tipicamente adultos, ainda mais com a forma de um século atrás, quando a linguagem é naturalmente arcaica, se comparada com a atual? Li Dom Casmurro e Lucíola aos treze anos, por ordem da professora de português (trabalhos e provas, o eterno castigo), e nunca odiei tanto ler. Depois me enfurnei em games e voltei a gostar de ler aos dezesseis anos, quando li À espera de um milagre, do Stephen King. Naturalmente a minha ideia, comparando as minhas experiências, foi que a literatura estrangeira era superior à nacional; então, aos dezessete, voltei ao Machado de Assis (agora Memórias Póstumas de Brás Cubas), Moacyr Scliar (O centauro no jardim), Clarice Lispector (A hora da estrela), Murilo Rubião (O pirotécnico Zacarias) e Fernando Sabino (O grande mentecapto), e notei que a expressão “literatura nacional é ruim” deve ser bastante relativizada.
    E como eu tendo sempre a culpar os outros e não a mim, eu quero mesmo é que esse corpo de discentes que não propaga o prazer da literatura aos adolescentes vá caçar sapo, afinal de contas, o desserviço que fazem à literatura nacional – e principalmente aos potenciais leitores – é imenso (penso que um professor que não tem consciência de seu caráter de agente modificador da sociedade, ou que a ele não dá a mínima, deve perder seu emprego de imediato).
    Dos que você listou, li a maioria dos livros do Santiago Nazarian, e me parece de uma coragem absurda, pois essa vertente de “existencialismo bizarro”, como ele próprio nomeia, é um tipo raro, que, ao misturar o popular e o fantástico ao clássico e realista, faz surgir um híbrido curioso, o da história com apelo comercial, mas com uma forma nitidamente cuidadosa. (Nesse sentido, creio: é necessário mais existencialistas bizarros).
    Um abraço.

  4. Fatima Pombo disse:

    Gostei. Anotei as indicações de leituras. Eu gosto da literatura brasileira. Tem muitos autores e autoras bons e boas, desconhecidos/desconhecidas…Gosto até dos antigos do seculo XIX!

  5. Elson Mauricio G. de Andrade disse:

    Gosto muito de biografias,tanto que,adoro os escritores nacionais :Fernando Morais,Dráuzio Varella,Jô Soares,Laurentino Gomes,Paulo Coelho, e agora descobri o Lira Neto com a triologia sobre Getúlio Vargas e a biografia de Padre Cícero que futuramente vou ler com maior prazer.Os escritores brasileiros não deixam nada a desejar ao escritores estrangeiros.

  6. Eduardo Basílio disse:

    “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera. Que surpresa agradável…

  7. mário victor disse:

    Leste o F do Xerxenesky? Vai que é boa!

  8. valter ferraz disse:

    Valeu pelas dicas de leituras. Preciso rever meus conceitos. Sou leitor ávido, leio de tudo, mas autores novos e que estão frequentemente na mídia ainda deixam-me incomodado. Vou seguir suas indicações (ao menos aquelas a que tiver acesso). Vi recentemente uma lista de “possíveis” acadêmicos da ABL e fiquei um tanto reticente. Será? Serão? Forte abraço

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