Por que não gosto de lançamentos

Por Elvira Vigna


O cara está na minha frente.
Sorri.
Algo nele me parece familiar.
Mas tenho achado isso de todos os seis ou sete que ali estão, fingindo ocupação, fingindo gostar do vinho.
O nome no papelzinho também me parece familiar.
Um colega do Externato Atlântico?
Já sei, um artista da Globo, desses todos iguais.
Não, não. Conheço ele há 60 anos.
Ou é o atendente dos correios, aquele que me trata sempre tão bem?
Sorrio de volta e balanço a cabeça.
Podemos ficar assim por horas, balançando a cabeça e sorrindo, um pro outro.
Ok, me digo, isso é porque estou nervosa.
Afinal, é o MEU LIVRO e ninguém ali sabe de fato o que está escrito nele.
Mas não é isso.
Mesmo se estivesse calma.
Tenho essa patologia básica: chamo de distração.
Já chamaram de coisa pior.
Roberto e as crianças passam por mim na rua.
Se não fizerem um psiu, um ei, nem vejo.
Conto isso e as pessoas tentam rir.
Depois desconversam.
Mas o cara continua na minha frente.
Repito então o que já fiz, igualzinho, desde que cheguei ali:
Me debruço sobre o livro, cara de concentração de quem está inventando uma pérola e tasco:
“Ao Fulano, com um abraço de”
O sorriso dele congela.
Devia ter reconhecido ele, não reconheci e ele sabe disso.
Fico esperando a frase que acabará de me matar.
”E o molar, como está?”
O dentista!
O que era um sorriso tão acolhedor agora vira promessa de ódio eterno.
E é o seguinte:
Sem ódio eu já quase não tenho coragem.
Com ódio, não vou mais poder.
Nunca mais.
No dia seguinte, vou catar outro dentista.
Então é isso:
Não gosto de lançamentos por causa do dentista.
O cara é bom dentista.

* * *

POR ESCRITO
Sinopse:
Por escrito é uma história de separação. Mas engana-se quem espera encontrar aqui mulheres chorando pelos cantos da casa. As vidas de Molly, Izildinha, Valderez e das outras personagens do livro são tão inquietantes e inesperadas quanto a prosa da autora. Por escrito é também uma história de desencontros, em que as pessoas parecem não ver quem está à frente delas. E quem está presente na cena vai sumindo devagarinho sem ninguém notar. Ao nos virarmos para o lado, encontramos apenas quem não esperávamos que estivesse lá. Uma história de esperas, sem Ulisses que valham a pena. E de muitos erros.

Por escrito já está nas livrarias.

* * * * *

Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras. Seu último livro, Por escrito, acaba de chegar nas livrarias.
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3 Comentários

  1. sergio benatti disse:

    Escreve muito! “Representa”.

  2. Marco Severo disse:

    Comecei a ler o livro e eu só sei que dá vontade de ter essa mulher por perto (mesmo sabendo que isso pode ser um pouco masoquista, baseando-se no que ela escreve). A Elvira escreve sobre aquilo que cala mais fundo na gente, e isso dói. E é libertador. Ter a possibilidade de ler a obra formidável desta escritora carioca de nascimento, mas universal pela arte, é uma experiência única. Se você não conhece ainda a obra da Elvira, eu insisto: conheça-a. Leia-a!, assim mesmo, de forma imperativa.

  3. Tuca disse:

    Elvira, pare de ser maravilhosa!

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