Scrivener: sim, a gente pode precisar

Por Carol Bensimon


Eu não era uma daquelas pessoas que acha que, para escrever, precisa de algo além de um processador de texto bem limitado do tipo Word. Ou melhor, eu achei que qualquer complemento a isso devia se apresentar de uma forma analógica: primeiro os bloquinhos de anotações, depois as páginas de anotações construídas numa espécie de transe musical e, por esses tempos, um sistema de fichas que me permite ter uma noção mais clara das partes que formam uma narrativa longa. Mas aí eu baixei o tal do Scrivener e, provavelmente, a partir de agora, esse texto fica com a cara de um texto de pessoa-cuja-vida-foi-transformada-por-um-software-de-escrita.

Parece patético? Ok, mas eu não estou lutando para que pareça algo muito mais especial do que isso. Eu comecei a usar o Scrivener, eis o meu relato, tente você também etc.

Por algum motivo, diferente dos romancistas, os sujeitos que escrevem roteiros já estão acostumados a usar softwares que facilitam suas vidas há muito tempo. O mais conhecido deles é o Final Draft. Pode ser que a suposta maior liberdade de alguém que se dedica aos romances — essa pessoa sem necessidade de se mover nas fronteiras de uma “formatação padrão” ou de uma Courier New que nunca envelhece — faça com que qualquer suporte, qualquer ambiente, pareça bom o bastante. “Minha obra genial está chegando. Me dá esse guardanapo aí.” Mas a notícia que eu trago é a seguinte: narrativa longa = sentar a bunda na cadeira por um número de horas entre as centenas e as milhares, cujo valor final você ficaria constrangido de anunciar por aí. Ter uma boa cadeira, portanto, não me parece uma preocupação excessiva. Ter um bom programa de computador, que sabe o que você está fazendo e está a fim de te ajudar nisso, tampouco é delírio ou mera maquiagem.

O Scrivener vem com alguns templates que levam em conta as especificidades de cada projeto: romance, roteiro audiovisual, artigo acadêmico, graphic novel etc. Comecei a explorar o da graphic novel, porque é numa graphic novel que eu estou trabalhando agora. Sim, você vai ter que ler e assistir alguns tutoriais para não se desesperar com tantos botões e menus e não acabar voltando pro velho Word por pura preguiça. Mas essa atividade não vai tomar mais do que uma hora do seu tempo precioso. O que é um preço bem pequeno a se pagar, levando em conta o salto de qualidade de vida que esse troço vai te oferecer. Dizem que o Scrivener poupa o seu tempo. Não sei. Para mim, a questão principal é outra: ele faz você enxergar o seu próprio trabalho de forma muito mais clara.

Pessoalmente, sempre tive dificuldade de visualizar o todo a partir das partes, e vice-versa. E digamos que a extrema consciência de que é preciso dominar o todo tanto quanto é preciso dominar as pequenas frações da narrativa têm consequências diárias no meu, hm, método de trabalho. Por exemplo: meus romances nunca tiveram um único .doc, mas um conjunto deles, um para cada capítulo. Como é aquela expressão mesmo? Dividir para dominar? Acho que funciona assim comigo. Outro exemplo: inúmeras vezes, tive que escrever em folhas de papel a ordem dos capítulos do romance em que eu estava trabalhando, ou então os capítulos acrescidos de um pequeno resumo do que acontecia neles, tentando assim tomar aquela distância básica, o suficiente para enxergar a ação como uma curva, e que tipo de curva, e que tal essa ascendente aqui nesse ponto aqui, e como melhorar essa curva de um jeito convincente etc.

O Scrivener ajuda um bocado nisso. Você pode quebrar o texto todo em cenas ou capítulos, que ficam permanentemente sendo mostrados na coluna da esquerda enquanto você trabalha. E você pode marcar com algum código muito pessoal as partes que precisam ser revistas, ou as em que ocorrem tal e tal coisa fundamental da narrativa, além de ser muito mais fácil acessar qualquer fragmento do texto a qualquer momento. No caso dos quadrinhos, o software dá uma boa mão na formatação (descrição de ações, diálogos e essas coisas todas), e também oferece a maravilhosa possibilidade de integrar no projeto incontáveis referências visuais, que também podem ser organizadas da forma que parecer mais interessante ao escritor.

Adotei completamente e devo escrever meu próximo romance nele. Um muito obrigada ao Maikel de Abreu, o primeiro e único a me falar do Scrivener.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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10 Comentários

  1. fan d@ Ari Zanard disse:

    Adorei sua pontuacao, Ari. Muitas nunaces entremeadas em sutileza e jasmins de cordel.
    Apenas uma toalhinha de felpo pode estancar a baba que escorre do queixo?

  2. 50 Tons disse:

    Muito bom !! Pode ajudar muito….

  3. ARMISTRONG DE ARAUJO SOUTO disse:

    É possível termos o Scriviner, e o Word, na mesma máquina? Há alguma incompatibilidade?

    Abraços fraternos!

  4. Ariadne disse:

    Daquele tipo de leitora que depois que vira fã de alguém entra TODO dia no blog da companhia…

    Você disse próximo romance????

  5. Cristian disse:

    Dica massa. Será que funciona para petições jurídicas complexas? A descobrir.

  6. victor almeida disse:

    Já uso o Scrivener há cerca de 1 ano e com certeza é infinitamente superior a qualquer outro processador de texto existente. É possível reordenar facilmente cenas e capítulos, uma atividade que seria muito trabalhosa no Word. Antes de conhecer o programa eu criava inúmeros arquivos, um para cada capítulo de modo a tornar mais fácil correções e possíveis alterações, agora posso ter tudo no mesmo arquivo. Recomendo. Falta apenas integra ‘a minha máquina de escrever para ficar realmente perfeito, pois o barulho das teclas continua insubstituível, rsrs.

  7. JD Lucas disse:

    Scrivener é incrível mesmo. Organiza teu texto como uma árvore, pode abrigar sub trechos ou capítulos a partir de cada unidade textual (digamos, um capítulo ou seção). Os acessórios também são muito bons, com destaque para o gerador de nomes detalhado em nome e sobrenome e origem de ambos. Quem escreve livros com muitos personagens e tem dificuldade de pensar bons nomes, certamente vai se beneficiar.

    Há muito o que se explorar no programa mesmo.

    Grande abraço

  8. Cristina disse:

    Bacana, vou experimentar. Deve ajudar em todo texto longo. No da tese, por exemplo…

  9. Ari Zanard disse:

    Está maravilhoso, parabéns!! Eu queria saber escrever e me expressar mas me confundo com os sinais, pontos e virgulas. As vezes não sei como exclamar perguntar eu sei só interrogar! Será que sei?

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