Um livro é um livro, um filme é um filme

Por Ana Maria Bahiana

Mais uma rodada do meu curso “Como Ver um Filme” neste mês de agosto! Desta vez, em três cidades — Ribeirão Preto, São Paulo e Recife —, 200 pessoas das mais variadas idades, gostos e inclinações estéticas acompanharam com entusiasmo e avidez minha proposta de uma jornada pelos bastidores do ofício de fazer filmes (e séries de TV, o novo cinema independente), para, dessa forma, aproveitar melhor o diálogo que a narrativa audiovisual propõe.

O duradouro sucesso desse curso, que começou como um laboratório para testar o conceito de um livro, me enche sempre de renovada alegria: ao longo dos sete anos em que estou na estrada, de Porto Alegre a Fortaleza, de Caxias do Sul a Ribeirão Preto, mais de três mil pessoas já fizeram essa viagem comigo, e nenhuma experiência é igual à anterior. São sempre perspectivas novas, curiosidades novas, diversos pontos de vista, diversas indagações que me lembram sempre o quão profundo e incomparável é o poder da imagem em movimento, tão parecida com o sonho sem ser inteiramente sonho.

Uma pergunta, contudo, permanece a mesma ao longo desses anos todos, intocada pela imensa diversidade dos meus alunos: por que os filmes baseados em livros são tão ruins se comparados com as obras originais?

Em geral, eu tento argumentar que nem todos os filmes adaptados de livros são necessariamente piores do que o original — o trabalho de Peter Jackson, Fran Walsh e Philippa Boyens na trilogia O senhor dos Anéis é impecável. Eu entendo a frustração das pessoas. Livros são experiências muito íntimas — os que amamos se tornam mais constantes e importantes em nossas vidas do que muitos de nossos amigos e namorados. Ver aquilo que amamos tão profundamente transformado em algo diferente, que bruscamente elimina ou muda os detalhes tão familiares, muitos deles quiçá os responsáveis por nosso coup de foudre, pode ser uma experiência brutal, quase uma violação.

Mesmo correndo o risco de não apaziguar inteiramente o descontentamento das leitoras e leitores, procuro explicar como é delicada e complicada a alquimia de transformar um texto literário numa narrativa audiovisual. Conheço esse quebra-cabeça de perto — há não muito tempo, ousei roteirizar Vento Sudoeste, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, para um filme que acabou não se realizando (até o presente momento…). Eis o que aprendi, e que compartilho com quem me faz a pergunta:

Um livro é um livro, um filme é um filme. São tão parecidos entre si quanto uma melancia e um cacho de uvas, embora ambos sejam frutas. O livro tem a seu favor o dom inestimável do tempo, colocado aqui nas mãos da leitora ou leitor. O tempo do livro é o tempo de quem lê: um dia, uma noite, um fim de semana, seis meses, um ano. Reler. Pular páginas. Voltar atrás. Ler o fim antes de terminar. Repetir e repetir a leitura de um parágrafo, de um diálogo, de uma frase.

A autora ou autor propõe a jornada, mas quem comanda o ritmo, e quem cria o filme do livro — seu imaginário, a ciranda de imagens que dá carne aos personagens e detalhes às paisagens e emoções — é a leitora ou leitor.

Uma narrativa audiovisual não tem esse luxo. Um filme tem, em média, entre 90 e 120 minutos para fazer o que um livro faz ao longo de quanto tempo for preciso. Uma série ou minissérie de TV é mais generosa, mas, mesmo assim, cada episódio precisa compactar em seus três atos o oceano do livro, ou de parte do livro. Daí a necessidade de condensar personagens, podar tramas subalternas, eliminar lugares, detalhes, coisas que — vá saber! — podem ser absolutamente preciosas para quem leu a obra em questão.

Mas não é só isso. No tempo da tela o filme tem que substituir à altura (ou pelo menos tentar) o filme que leitoras e leitores fizeram em suas cabeças ao longo dos meses e anos de convivência com o texto. São os atores que não se parecem com os personagens como os vimos mentalmente enquanto líamos. São as paisagens e locais que ou desapareceram ou são mostrados de um modo como não imaginamos.

E tudo isso ainda não é o x da questão. O x da questão é que um livro narra com palavras, e um filme narra com imagens. É virar prata em ouro e vice-versa. É substituir dois parágrafos de descrição ou meditação por dois minutos de impressão luminosa. É dar todo o mundo interior de um personagem em um olhar, um gesto, um movimento.

Não é a toa que roteirista adora matar personagens. É muita transmutação para um caldeirão só.

O que aprendi tanto com minha experiência pessoal quanto com a observação de dezenas de outros trabalhos de pessoas infinitamente mais capacitadas é que a única solução possível é encarar as duas criaturas — o texto e a narrativa audiovisual — como as coisas diversas que são. É mergulhar fundo na própria essência do texto, no seu coração, no seu tema mesmo e se perguntar: como posso manifestar isso em imagens?

É pauleira. Felizmente, tem gente que consegue.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter — Facebook — Blog

Um Comentário

  1. […] aquela conversa toda, aqui mesmo, sobre a extrema dificuldade de adaptar um livro para o cinema, pelo puro fato de que é como […]

Deixe seu comentário...





*