A questão do Snoopy

Por Joca Reiners Terron


Muitos escritores devem ter sido inspirados na infância por um certo cão beagle que finge ser um ás combatente da Primeira Guerra que trava batalhas aéreas encarapitado no teto de sua casinha de cachorro. Snoopy é o único cão escritor do mundo. Talvez por isso também seja o único personagem a suplantar a realidade e seus problemas em Peanuts, cartum criado por Charles Schulz em 1950 e publicado até a morte do autor, em 13 de fevereiro de 2000, véspera da publicação da última tira.

Peanuts é a série de tiras de jornal mais longa da história. Inteiramente escrita, desenhada e letreirada por Schulz sem qualquer ajuda de assistentes, foi publicada ao longo de cinquenta anos em 2600 jornais de todo o mundo, atingindo mais de 350 milhões de leitores. Com números tão expressivos, Schulz criou o modelo tira de jornal como é conhecido e explorado hoje por filhos diletos como Calvin & Haroldo ou Garfield.

Schulz conseguiu traduzir a ambivalência do comportamento humano por meio de seus personagens desde a tira inaugural, publicada em 2 de outubro de 1950. Nela, dois garotinhos no meio-fio festejam a aproximação do “velho e bom Charlie Brown”. Todavia, quando Charlie Brown cruza sem lhes dar atenção, passa imediatamente a ser odiado. Várias qualidades do trabalho de Schulz já se faziam notar nessa primeira tira, como o caráter realista de bonequinhos infantis somente na aparência e o domínio da progressão temporal em apenas quatro quadrinhos.

Como observou o quadrinista Art Spiegelman, “Schulz separou diferentes aspectos de sua própria personalidade em vários personagens e passou o resto de sua vida permitindo que eles se chocassem uns contra os outros”. Assim, o fantasioso Snoopy, o preocupado Charlie Brown, o filosófico Linus e a mandona Lucy, entre outros personagens, tipificaram comportamentos com os quais pessoas de todo o mundo se identificaram.

Com Peanuts, pela primeira vez na história dos quadrinhos os leitores se preocupavam com pequenas crianças feitas de papel e tinta como se elas fossem de verdade. A longevidade da série criada por Charles Schulz levou esse envolvimento a um paroxismo: muita gente começou a acompanhar as aventuras de Charlie Brown e companhia na infância e fez isso até a maturidade, crescendo ao mesmo tempo que eles. Diagnosticado com uma doença que o impediu de continuar a criar em 1999, Schulz caía em lágrimas todas as vezes que era obrigado a falar de seus personagens.

Se o bom e velho Charlie Brown é o garotinho que mais se parecia com seu criador, inclusive fisicamente, o cão beagle Snoopy é a perfeita tradução da imaginação criadora de Charles Schulz. Ao travar batalhas aéreas matutinas contra o Barão Vermelho e ao batucar lentamente suas histórias numa máquina de escrever, Snoopy divertiu e demonstrou a importância da vida secreta das fantasias para a preservação da lucidez na vida real. Com isto, inspirou muitos escritores. Eu, muito humildemente, sou apenas um deles.

[Em novembro, a Companhia das Letrinhas vai publicar quatro livros infantis de Snoopy e sua turma: É hora da escola, Charlie Brown; Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloween; Largue o cobertor, Linus e O dia dos namorados de Charlie Brown.]

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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2 Comentários

  1. Deise Guelfi disse:

    Um dia, Joca, vou escrever como você. Obrigada por esse texto maravilhoso, que me levou longe, longe… Eu simplesmente sou apaixonada por essa turma encantadora que permeou o meu crescimento. Um beijo imenso nessa sua cabeça fenomenal.

  2. Darlan Grossi disse:

    Traduziu uma das minhas fontes de inspiração, lembro de quando estava passando o Snoopy eu pegava minha maquina de escrever e ficava tentando escrever alguma coisa. Recordar é viver.

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