Água Sumida

Por Randall Munroe (tradução de Érico Assis)


E se você tentasse rebater uma bola de beisebol arremessada a 90% da velocidade da luz? Quanto tempo será que um submarino nuclear duraria em órbita? E o que aconteceria com a Terra se o Sol se desligasse de repente?

E se? é um guia para curiosos em tempos de internet. No site What If?, Randall Munroe, mais conhecido pelas tirinhas do XKCD, dá respostas científicas, e bem humoradas, para as perguntas hipotéticas mais absurdas enviadas pelos seus leitores como estas acima, ou ainda quão grande seria o depósito do Google se todos os seus dados estivessem gravados em cartões perfurados, pergunta que Randall respondeu em sua apresentação no TED.

As melhores perguntas estão agora reunidas em livro, lançado há poucas semanas nos EUA e que já está na lista dos mais vendidos da Amazon e do New York Times. E se? chega nas livrarias brasileiras no dia 7 de novembro.

Leia abaixo mais uma pergunta do site What If? traduzida por Érico Assis especialmente para o blog.

* * *

O que aconteceria se todas as extensões de água da Terra sumissem por mágica? — Joanna Xu

Como sempre costuma acontecer nessas perguntas, todo mundo ia morrer.

Os primeiros a notar seriam os que estivessem nadando ou em barcos, por motivos óbvios.

Planeta à vista!

Para evitar situações tipo copo meio vazio, vamos supor que a água é substituída por ar.

Geralmente as pessoas nadam em águas relativamente rasas, de forma que a maioria ia sobreviver à queda até o fundo. Talvez quebrassem um ou outro osso¹. Por outro lado, quem está em alto mar teria encrenca.

Quem está em águas rasas chegaria ao leito mais rápido, já que não teria muito o que cair. No primeiro segundo, uma grande parcela dos barcos em lagos, rios e portos iria se espatifar no chão e a maior parte das pessoas a bordo sairia viva.

— Tudo Ok?
(Tentei navegar em terra. Não aprendi nada com o menino aquele do Zephyr.)

Barcos em oceano aberto teriam mais tempo de queda. Ao longo dos cinco segundos seguintes, haveria uma onda de estrondos das embarcações atingindo a plataforma continental progressivamente mais distante dos continentes. Estes barcos iriam ficar em pedacinhos e a queda mataria todos a bordo.

Passados os primeiros seis ou sete segundos, teríamos uma leve calmaria no ritmo de destruição naval. As plataformas continentais têm depressões abruptas, e a maioria dos barcos em mares profundos levaria um tempo a mais na queda.

O Titanic afundou mais ou menos três quilômetros de água. Depois de sumir da superfície, as duas metades do navio levaram entre 5 e 15 minutos para chegar ao fundo². Sem o oceano, ele chegaria ao fundo em aproximadamente 30 segundos, com velocidade de cruzeiro³.

Ao fim do primeiro minuto, praticamente todo navio grande já estaria no fundo do ex-mar. O último barco a chegar ao fundo provavelmente seria um veleiro pequeno cruzando uma fossa oceânica no momento em que a água sumiu. Graças ao peso e/ou arrasto baixo das velas, uma destas embarcações poderia levar minutos para chegar ao fundo.


— Aqui não diz nada sobre como ajustar as velas para um vento que vem debaixo do barco.
(
E nem que cachorro não pode jogar basquete.)

No caso de um hidravião flutuando em alto mar, pode-se imaginar que ele sairia ileso conforme a sorte e a agilidade do piloto. O avião começaria a cair, mas ao ganhar velocidade tenderia a planar. Passado o choque inicial, o piloto teria um tempo razoável para ligar o motor. Graças, em parte, ao ar mais denso, é possível que um hidravião conseguiria aterrissar com sucesso numa porção lisa do leito marinho. Se conseguisse ligar o motor, o piloto também poderia tentar voar até uma costa e achar uma pista de pouso.

Peixes, baleias e golfinhos, além de quase toda a vida marinha, morreriam de imediato. Os mais próximos do fundo ficariam sufocados ou ressecados, enquanto os mais próximos da superfície em águas fundas teriam o mesmo destino dos barcos.


— Pela terceira vez?
(Sério? Deve ser a terceira vez.)

E aí começa a parte mais bizarra.

Sem a evaporação dos lagos e dos oceanos para alimentar o ciclo da água, não haveria mais chuva. Sem água para beber, pessoas e a maioria dos animais iriam desidratar e morrer em questão de dias. Em semanas, a flora começaria a definhar devido à atmosfera cada vez mais seca. Em questão de meses, começaria a extinção das grandes florestas4.

É inevitável que grandes quantidades de vegetação morta e seca levem a incêndios; em poucos anos, a maioria das florestas do planeta estaria calcinada. Florestas armazenam grandes quantidades de CO2, e esta queima poderia praticamente duplicar a quantidade de gases do efeito estufa na atmosfera, acelerando o aquecimento global.

No geral, a conjuntura da Joanna levaria à extinção acelerada de tudo que é vivo. Mas aí fica pior.


Pior? Pior pra quem?
— Bom, a areia e os ossos…
(Por que as perguntas nunca são “e se eu assistisse um filme muito bom” ou “e se eu adotasse um cachorrinho”?)

Sem o ciclo da água para fazer a erosão das rochas, o sistema de retroalimentação carbonato-silicato que funciona como termostato de longo prazo para estabilizar o clima5 iria se desativar. Sem esta retroalimentação, o CO2 vulcânico ir se acumular na atmosfera, o que a longo prazo levaria a temperaturas abrasadoras, uma coisa parecida com a que aconteceu em Vênus6.

De qualquer forma, perdemos os oceanos. Com o Sol mais quente, em algum momento a água começa a ir embora devido à evaporação e de uma forma ou de outra o planeta vai secar e aquecer. Contudo, a perda dos oceanos nunca nos pareceu algo preocupante, já que está a um bilhão de anos de acontecer. Os oceanos estarão aqui muito depois da nossa espécie sumir.


— ISSA!
(O mar vai viver mais do que eu!)

A não ser que a Joanna estrague tudo.

* * *

Por outro lado, quem nada em pedreiras e lagos glaciais teria grandes chances de uma queda letal, mesmo a poucos metros da margem.

2 Quando a proa do Titanic chegou ao leito marinho, ela estava quase que exatamente na mesma velocidade de quando atingiu o iceberg, três horas antes. (Isto não é mera coincidência.)

3 Embora nunca se tenha largado um cruzeiro de grande altitude [falta referência], a velocidade terminal de um cruzeiro à superfície provavelmente fique um pouco abaixo da velocidade do som. Como o ar nas bacias oceânicas estaria comprimido, a velocidade terminal dos navios próximos ao fundo seria menor do que à superfície. A compressão também significa que, para substituir a água de forma mágica, você precisaria de mais ar do que se tem de volume apenas no oceano, já que precisaria de um perfil de densidade variável. Em outras palavras, seu feitiço de substituir a água ia exigir uma cacetada de cálculo.

Qualquer magia suficientemente avançada é indistinguível de tecnologia.

4 Árvores tolerantes à seca sobreviveriam anos, mas as outras não.

5 O CO2 é emitido na atmosfera pelos vulcões (embora atualmente seja emitido dez vezes mais rápido pelas pessoas.) Quando a água flui sobre certas rochas, reações químicas sugam o CO2 do ar e acabam enterrando-o em sedimentos no leito marinho. Com menos CO2, o planeta fica mais frio. Com o planeta mais frio, tem-se menos evaporação, o que leva a menos erosão, o que diminui o ritmo de remoção do CO2. Este ciclo de feedbacks que opera em escalas temporais bem maiores do que a mudança climática por ação humana provavelmente seja o que manteve a temperatura da Terra relativamente estável nos últimos bilhões de anos (uma Terra bola de neve a menos ou a mais), embora o Sol tenha ficado mais quente.

6 O interessante é que, por conta da cor mais suave de Vênus (e, por conseguinte, maior reflexo), ele só absorve metade da radiação solar que a Terra, apesar de ficar consideravelmente mais próximo do Sol. A camada densa de CO2 na sua atmosfera é o que conserva seu calor.

* * * * *

Randall Munroe nasceu nos Estados Unidos em 1984. Depois de estudar física na Christopher Newport University, ele foi contratado pela NASA para construir robôs. Em 2006, ele abandonou o emprego para se dedicar exclusivamente ao XKCD, um dos sites mais populares da internet. Ele mora em Massachussetts.