Instruções para escrever um romance corrupto

Por Juan Pablo Villalobos


O escritor está pronto para escrever um romance corrupto, um romance que será um espelho do estado de corrupção geral do país dele, que se chama, vamos dizer, México ou Brasil. Mas não quer escrever um romance sobre a corrupção, não, isso não teria nada de original ou provocante. O que quer é escrever um romance de um jeito corrupto, tentando imitar a corrupção que prevalece no país dele. Então, antes de pegar a caneta, ou antes de ligar o computador, antes até de dar à luz uma ideia que possa virar um romance, precisa de tranquilidade para escrever o romance, precisa de um salário para não ter que se preocupar com uma coisa tão banal como o dinheiro enquanto escreve a obra-prima dele, o romance corrupto. E, lógico, o escritor não pode ter um emprego, não. Senão quando vai escrever o romance corrupto tendo que cumprir expediente das nove da manhã às cinco da tarde? Aqui é onde começa o romance corrupto: no momento em que o escritor procura o tio dele (pode ser o pai dele, um primo, um compadre, um amigo da escolinha), que trabalha em um ministério (na verdade, pode ser qualquer órgão público), para pedir pra ser registrado, sem trabalhar, claro. Ou seja, o escritor vira funcionário fantasma. Ótimo: agora o escritor tem um salário sem ter que trabalhar e pode se dedicar ao que é verdadeiramente importante, a escrever o romance corrupto. Mas, ixi, tem um problema, ele acaba de perceber: o computador dele é velho, e não é um Mac! E não tem impressora! Não dá para escrever um romance, nem corrupto nem não corrupto, desse jeito. Então ele liga para o tio dele (ou primo, compadre etc.) e, com um passe de mágica, ganha um Mac e uma HP colorida direto do orçamento da nação. Beleza, agora sim dá para escrever, agora sim dá para pensar na estrutura do romance, que para ser corrupto tem que se submeter ao princípio da máxima eficiência econômica. Finalmente aparece a primeira questão filosófica, que exige do escritor um exercício intelectual de alta complexidade: como ganhar uma grana preta com o romance corrupto? O escritor não está pensando nas vendas dos exemplares do romance, ainda não. Isso é mais para frente. Ele está pensando em como ganhar dinheiro com o conteúdo do romance. Qual deveria ser o assunto do romance corrupto? O escritor tem duas opções bem óbvias: a extorsão e a publicidade (que são, na verdade, quase a mesma coisa). Achar um assunto que possa incomodar uma pessoa ou empresa e extorqui-la com a promessa de não escrever esse romance. Ou se oferecer a um personagem ou empresa para escrever um romance que funcione como publicidade encoberta, como propaganda. Mas o escritor não é um criminoso, não, porque ser funcionário fantasma ou ganhar presentes do orçamento da nação não é crime, não. O escritor, então, descarta a extorsão e, finalmente, põe mãos à obra: ele vende o projeto de escrever o romance ao governo de um Estado do centro do país (pode ser do norte ou até do sul). Será um grandioso romance corrupto sobre as grandiosas conquistas do governador do Estado. Mas o escritor não leu os clássicos gregos e, pior ainda: o escritor do romance corrupto nem sabe redigir. Além do mais, ele não tem tempo para escrever, está muito ocupado gastando: a) a grana do salário de funcionário fantasma, b) o bônus por atingir os objetivos trimestrais, e c) o adiantamento pago pelo governador. Então o escritor contrata um estagiário, um garotão empolgadíssimo que fez oitocentas oficinas literárias. É uma estratégia magistral, o romance corrupto só pode ser escrito por um escritor fantasma. O escritor faz uma pausa e avalia a situação: será que com tanto fantasma corre o risco de o romance virar um romance fantástico e não um romance corrupto? Mas o estagiário é muito barato! E que preguiça escrever o romance! Vai ter que correr o risco. Enquanto o escritor fantasma escreve o romance, o escritor tem que se preocupar com as coisas verdadeiramente importantes, falando em romances corruptos: a publicação e venda massiva de exemplares. Quem publicará o romance corrupto? Simples. Isso é coisa do governador protagonista do romance corrupto, que suborna o proprietário de uma editora para publicar o livro. Pronto. O suborno nem é em grana, não, é só uma promessa, mas que bela promessa: a promessa é que o Estado, através do sistema de escolas públicas, da rede de bibliotecas e dos programas de incentivo à leitura, comprará milhares de exemplares do romance corrupto. O círculo se fecha quando milhares de prateleiras em todo o país são abarrotadas com os exemplares do romance corrupto. Agora é quando o escritor revelará a verdadeira história do romance corrupto, a gênese e a evolução, explicará para todo mundo que o romance corrupto é, na verdade, uma performance para tirar a máscara dos corruptos e mostrar o estado de corrupção geral que vive o país. Mas quando ele está prestes a fazer isso, bem quando vai publicar a história no blog dele (e no Twitter e Facebook), recebe a oferta de um suborno maiúsculo se ficar com o bico fechado (e se não aceitar vai ter que sofrer as consequências). E o escritor, que no decurso da escrita do romance corrupto se converteu à corrupção, o escritor que agora é um escritor corrupto, recebe o suborno e cala.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil, seu romance de estreia, foi publicado em quinze países. Em setembro a Companhia das Letras publicou seu segundo romance, Se vivêssemos em um lugar normal. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

2 Comentários

  1. Darlan Grossi disse:

    Que conto facinante, me admiro o fato de ter poucos comentários, talvez não fosse surpresa se a palavra corrupto perdeu seu valor moral é como se estivesse em cada um que teve sua mente comrrompida pelo sistema politico brasileiro.

  2. Tim disse:

    “E aí o escritor corrupto, que, embora corrupto, também pretende ser visto como escritor, começa a escrever romances-autoajuda, novelas psicografadas pelo espírito de um outro escritor corrupto, e literatura fantástica best-seller, porque, no fim das contas, embora não ganhe suborno, também não incomoda ninguém”.

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