Memórias maduras da infância

Por Pedro Moritz Schwarcz


Nesta última segunda-feira, como de costume, fui ao Clube de Leitura da Penitenciária Feminina de Santana, que realizamos todo mês. A bola da vez era o livro de Antonio Prata, Nu, de Botas, em que o autor, consagrado pelas suas colunas, compõe uma série de pequenas anedotas da própria infância, filtradas pela ficção, pelo humor e por memórias remotas que poderiam ser de todos nós.

Antes do encontro dessa última segunda, do dia 15 de setembro, pensei muito a respeito de um possível “choque de classes”, já que no livro de Antonio estão impregnadas memórias que obedecem as recordações de uma “infância de um menino de classe média”. No entanto, a reação das nossas sempre surpreendentes leitoras foi muito diversa. “Histórias mais bonitas que as de Robinson Crusoé”, parafraseando Drummond, eram as histórias contadas pelas presidiárias, bem como as de Antonio. Eram, porém, mais duras ou igualmente sofridas. Mas o grande pulo do gato desse livro, e que foi o ponto mais interessante de troca, conversa e debate do encontro, é a conclusão inequívoca de que toda infância é uma espécie de “ilha” como a de Robinson Crusoé. Nas histórias de Prata, um menino convive com a alteridade pela primeira vez ao se deparar com a existência dos vizinhos, com a arqueologia camaleônica do tempo e da imaginação através dos desenhos formados nos tacos soltos do chão da sala e no piso ladrilhado dos cacos de cerâmica do quintal, com os bichos de estimação que “não funcionavam”, ou muitas vezes “paravam de funcionar”, tal qual bichinhos de brinquedo. Há também o caso do “Cometa Halley”, muito menor e mais sem graça do que prometia ser, visto do colo de uma daquelas mamães dos amigos que provocavam certa instabilidade por causa de sua “beleza fora do comum”. O estranhamento do cosmos cai lá de cima para aterrissar num cantinho da varanda da casa de campo de um amigo. As proibições também marcam presença, essas que só fazem as crianças se interessarem pelo universo marginal e clandestino, além das regras e convenções. A “África” que estava logo ali, seguindo reto, oceano à frente, “terra à vista”; “as mulheres peladas do enorme e suntuoso castelo”, ao lado do teatro Cultura Artística; os castelos de areia; as casas dos vizinhos que realocavam os móveis e os quartos de maneira diferente do “modelo status quo da casa própria”.

A partir desse pressuposto de que a criança de certa forma é sempre um “ingênuo e inocente marginal”, percebo agora como a minha visão da suposta “infância diferente” e “choque de realidades” era ambivalente. Principalmente pensando que o livro retrata uma infância que vai do final dos anos 70 ao meio dos anos 80, onde as brincadeiras de rua eram muito mais atraentes do que a televisão e a tecnologia dos iPads, internet, celulares e demais modernidades cada vez mais em voga hoje em dia. Para as minhas companheiras de leitura, naquele clube na Penitenciária, a rua, o quintal da escola, foi também o verdadeiro palco do “cinema da infância”. Porém, a rua, para muitas delas, se tornou uma espécie de labirinto ou selva que mais tarde foi denominada “lar”. Um lar que já não era mais tão repleto de aventuras lúdicas e nem tão aconchegante, mas muito mais um palco, onde a guerra dos super-heróis é substituída pela “guerra contra fome e pela sobrevivência”. Os meliantes já não são exatamente crianças que riscam as paredes, quebram algo valioso ou fingem estar doentes para fugir da escola.

Algumas diferenças, mesmo por detrás de toda a catarse demonstrada por elas com relação a essa nostálgica “ilha mais bela que a de Crusoé”, apareceram claramente. Luana, uma das participantes do clube, relacionou uma das crônicas em que o jovem Antonio era retirado do seu tradicional programa de TV favorito de domingo, o incrível “Bambalalão”, para ir à festa de um parente muito distante, que “não tinha uma perna”. Em “A perna do seu Dúlio”, Antonio vai a uma festa do “pai do marido da tia”, sentindo-se completamente injustiçado. Nunca ouvira falar do tal do seu Dúlio e sabia que na festa encontraria vários “adultos petulantes” falando sobre seu nascimento e apertando sua bochecha como se ele fosse um ursinho de pelúcia. Também sabia que “as várias crianças da sua idade” iriam tratá-lo como um “forasteiro”, sem contar os “delinquentes” com suas espingardas de chumbo e estilingues. Porém, o que Antonio não sabia era que iria conhecer um personagem mágico, que aos 80 anos amputara uma perna. “ Cadê sua perna, seu Dúlio?”, perguntou Antonio. A criança logo relacionou o ancião aleijado a um desses mágicos que serram pessoas, que brincam com bichos. Soube depois que haviam costurado sua perna, exatamente como sua mãe fazia com retalhos de couro.

Já Luana disse que sua mãe, talvez um pouco mais severa que a mãe de Antonio, usava essas “anomalias” como resultado de uma “sem vergonhice”. “Se você mexer na tomada menina, você vai ficar sem perna que nem aquele menino do sinal. Ele ficou assim porque fez coisa errada.” Luana também relacionou uma etapa da sua infância, quando teve que se deparar com o fato de que “seu pai ia mudar de casa”.  Só que no caso de Luana, seu pai não mudou de casa, mas foi embora. Tudo com uma explicação mais vaga e mais dura. Sua mãe lhe disse que seu pai foi embora porque gostava mesmo era da “Zona”. Quem sabe aquele mesmo tipo de “castelo suntuoso” que o pai de Antonio sempre passava, ao acompanhar o movimento do público que viera assistir o seu mais novo espetáculo. Aquele local, frequentado por “homens tristes e sem namoradas, atrás de mulher pelada”, como seu pai lhe explicara. Seu pai também lhe contara que “as casas por traz dos luminosos, das fumaças e neons, eram bares e não teatros”. Antonio, por sua vez, indagava: “ estranho, eu conhecia muitos bares; o que tornava aquele tão diferente dos outros, em que comíamos frango à passarinho com batatas fritas e misturávamos Coca com Sukita?”. Já seu pai respondia laconicamente: “Mulheres Peladas”. Antonio, em seu papel de criança, ruminava mais dúvidas e indagações frente ao misterioso “mundo proibido”. “ Fiquei bastante intrigado. Do alto de minha meia década de existência, ‘mulher pelada’ não evocava nada além da imagem de minha mãe entrando e saindo do banho, de touca na cabeça e toalha na mão, cheiro de xampu no ar, gotículas de vapor nos azulejos. Bem, talvez a fumaça vista pelas portas entreabertas fosse vapor do chuveiro em que as tais mulheres se banhavam, mais algumas questões maiores permaneciam sem resposta: o que levaria as mulheres a tomar banho num bar? Porque permaneceriam peladas depois da ducha? Qual seria a graça de comer frango a passarinho de bunda de fora?”

Quem sabe nossas mulheres do Clube não se reconheçam como pessoas tristes. O mais interessante dos encontros é perceber que essas questões relativas ao “mundo mágico e misterioso da infância” não recebem as respostas certeiras que gostaríamos. Na verdade, elas só fazem procriar questões mais elaboradas. Quem sabe a literatura não seja um meio para continuarmos com essas perguntas tão “ingênuas” e “filosóficas”? E essas questões permeiam, cada vez mais, esses encontros que temos realizado há mais de três anos. Projeto coordenado pelo Departamento de Educação da Companhia das Letras, estendemos o modelo dos Clubes de Leitura, já realizados nas livrarias, para essas instituições totais como a Penitenciária Feminina de Santana, a ONG Aldeia do Futuro, Caps Itapeva, Instituto Criar, Abrigo Maria Maymard, Hospital do Câncer e Biblioteca Mario de Andrade. Sempre que saímos desses eventos, aprendemos muito e fortificamos mais e mais essas indagações que nos acompanham desde a infância. As máscaras sociais caem no convívio com a diferença e a infância volta para amadurecer cada vez mais essas questões sem respostas.

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Pedro Moritz Schwarcz nasceu em São Paulo em 1985. Formado no curso profissionalizante do Teatro Escola Célia Helena, trabalha na Companhia das Letras como assistente do departamento de educação, curador dos Cursos na Companhia e coordenador dos Clubes de Leitura Penguin/Companhia.

4 Comentários

  1. Pedro Schwarcz disse:

    Valeu Di queridão! Bjos!

  2. Diogo disse:

    Belo texto, Pedrinho!!!!
    de muita sensibilidade e estilo!

    Saudade de vc e vcs.

    grande abraço

  3. Pedro Schwarcz disse:

    Oi Antonio!!!! Foi demais!!! E o legal é que a gente sai totalmente desse formato “aula”. Elas não são alunas! Acho que até mais professoras! E foi muito interessante ver como a infância representa pra todos nós esse mundo do passado, entre o idílico e o “marginal”, que vc relata tão bem. Aliás que livro!!! Que coisa!!! Que narrativa fina!!!! Foi pura catarse pra elas! Com todas as diferenças e tudo mais!! Foi demais!!!!

  4. antonio prata disse:

    Ei, Pedro, que legal essa experiência e que legal o seu post! Fiquei muito feliz em saber que meu livro de garoto do Itaim Bibi fez algum sentido para pessoas tão distantes de mim, as suas alunas da casa de detenção. Obrigado por levar meu livro e obrigado por compartilhar a experiência.
    abração

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