No, I don’t care!

Em setembro, chega nas livrarias o Diário da Dilma. O diário começou como uma seção da revista piauí, onde, todos os meses, a publicação trazia uma página de sátira sobre a rotina da chefe do Executivo. A ideia partiu do então editor da revista, Mario Sergio Conti, mas coube ao jornalista Renato Terra dar forma à seção e assumir a função de “ghost writer” da presidente.

A Dilma criada por Renato Terra é atenta aos mínimos detalhes do penteado, adora jogar tranca, paparica o neto, faz fofoca com amigas da Casa Civil e da Petrobrás e vive a suspirar por seu príncipe encantado, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. Para compor o diário, inspirado numa coluna sobre a ex-primeira dama francesa Carla Bruni, criada pelo jornal humorístico francês Le Canard Enchaîné, Terra mergulha no noticiário nacional, descobre cores de esmalte e tendências fashion em revistas femininas, capricha no vocabulário cafona e fica de olho na agenda cumprida pela presidente na vida real.

Muitas informações de bastidores servem de material para o diário: há histórias que parecem brincadeira, mas são informações exclusivas recebidas pelo jornalista. Mas a mistura entre fato e ficção não deixa dúvida sobre o traço que predomina em todos os textos: o humor corrosivo e escrachado.

Abaixo, leia um trecho de Diário da Dilma.

* * *

1o de novembro — Ai que dor de cabeça! Ressaquinha de Campari: ontem fiz uma festa de Halloween com um pessoal aqui em casa. O Gilbertinho veio de padre, uma falta de criatividade! Foi tudo muito discreto porque se o Aldo Rebelo descobre…

2 de novembro — Fui visitar o Lula na segunda lá no hospital, coitadinho. Para aliviar o astral, cheguei fazendo troça: “Ô Lulinha, bem que te avisei que botar aquele cocar de índio ia dar zebra”. Pela primeira vez ele riu de uma piada minha. Tenho certeza que ele vai sair dessa. Vaso ruim não quebra!

3 de novembro — Esse discurso do G20 está me tirando o sono. Você delega e vem cheio de erro de concordância. Aí reclama e justificam: “A tradução simultânea conserta”. Depois vão para a imprensa dizer que sou exigente.

4 de novembro — Não tenho nenhuma intenção de dar dinheiro ao fundo de estabilização europeu. Minhas verbas já estão com umas ONGs que o Lupi recomendou e com o fundo de estabilização do meu topete. Mas tenho que respeitar os países endividados: em festa de formiga não se elogia tamanduá.

5 de novembro — Como aquela madame do FMI é elegante! Não dei bandeira na hora, mas pedi para o general araponga investigar onde ela faz compras.

6 de novembro — Ah, ah, ah, diário mon amour: a loira não vai ser candidata a prefeita de São Paulo. Pôs mais botox à toa! E nem adianta querer o lugar do Fernandinho. Depois de me livrar de um ministro da Educação tipo calamidade, vou colocar a Marta? Não estou louca ainda!

Estava na cozinha preparando uma omelete quando ouvi mamãe gritar “bingo!”. Titia veio correndo e as duas se escangalharam de rir. Depois, li as denúncias contra o Lupi e entendi que mamãe ganhou a aposta.

8 de novembro — Fiz duas sessões de VelaShape. Tive que marcar em nome da cunhada da Erenice e fui de peruca loira para ninguém me reconhecer. Perdi dois centímetros de cintura e um e meio de quadril. Já dá para entrar naquelas calças de helanca que comprei no free shop. São boas porque não amassam e marcam pouco.

9 de novembro — Esses estudantes que ocuparam a reitoria da USP me deram uma ideia. Vou organizar uma ocupação na Esplanada dos Ministérios para protestar contra a presença de ONGs. Acionei amigos subversivos que não via há décadas.

No final do dia, o João Santana apareceu todo esbaforido no meu gabinete. É a única pessoa que tem permissão para entrar pela passagem secreta atrás da estante. Enfático, me convenceu a desistir da ideia da ocupação.

10 de novembro — Não acredito que o Serginho Cabral fez aquela festa toda por causa dos royalties e não me convidou. Para contar piadas infames sobre o Lula ele me liga. Mas para ver show do Lulu Santos na Cinelândia, nada de telefonar para a Dilminha.

11 de novembro — Cheguei da ginástica matinal e titia estava com os olhos brilhando: “Você soube que um ministro fez uma declaração de amor para você diante de todas as câmeras?”. Curiosa, mas disfarçando, perguntei qual. “Aquele que começa com L”, respondeu.

Meu coração palpitou entre a euforia e o éden. Finalmente o Lobão tinha se vergado aos meus encantos e, romântico como Pepino di Capri, declarou-se em rede nacional.

Como quem não quer nada, fui para o quarto. Descobri que o “L” era de Lupi, aquele bofe!

12 de novembro — Fui à posse do Kalil, em São Paulo, e aproveitei para fazer uma consulta. Tenho arritmia toda vez que chego perto do Sarney. Ele me disse que era normal e que padecia do mesmo mal.

Esse Lupi está descontrolado. Tive que chamá-lo em meu gabinete e aplicar um “meu querido”.

13 de novembro — O PSDB me mata de rir. O slogan deles agora é “Yes, we care”. Ô gente pedante e entojada! Continuo nadando de braçada. Apesar de tudo, encarava o Fernando Henrique numa boa: No, I don’t care!

15 de novembro — Marisa ligou para transmitir um trocadilho do Lula. “Papademos papou Papandreou”, disse ela meio sem graça. É bom ver que ele continua ativo na articulação.

16 de novembro — Achei que o Lula está muito bem careca e sem barba. Aqueles dentes recapeados ficaram um pouco à vista demais, parece o Al Pacino. Os dentes, quero dizer. Mas, com a ajuda do Santana, ele está batendo o maior bolão. A Marisa é que podia dar um help e parar de fumar. Ou não aparecer na janela.

17 de novembro — Bem feito para o Berlusconi! Ficou falando aquelas grosserias para a Angela Merkel e deu no que deu. Vai ter que pagar mais caro agora pelo bunga-bunga! A tintura dele consegue ser pior do que a do PMDB inteiro. E olha que eles são liderados pelo Sarney.

18 de novembro — A gente batalha meses para lançar um programa bacana para beneficiar pessoas com deficiência e tem instantes de alegria. Mas volta para o gabinete e encontra o quê? Disputa por royalties de petróleo, denúncia de corrupção e parlamentares do PMDB em qualquer direção que se olha. Estou precisando de férias.

Fiquei emocionada ao ver o Romário. Lembrei o quanto eu e mamãe vibramos no tetra e como fiquei frustrada quando ele foi cortado na Copa seguinte.

19 de novembro — Como essas denúncias cansam a gente! Ainda bem que o Gabrielzinho vem visitar a vovó.

20 de novembro — Esse Mario Monti tem cara de bancário e parece ser bem mais respeitador. Mas não se pode dar confiança aos italianos.

21 de novembro — Bonitinho o vídeo com os atores da Globo criticando Belo Monte. No mesmo dia, recebi a resposta: Lobão veio de blazer de seis botões, foulard e gola rulê. Declamou, pausadamente, seus argumentos. Homem charmoso e contemporâneo age assim.

23 de novembro — O Beltrame está fazendo e acontecendo. A Globo nunca me deu essa colher de chá. Falando em Beltrame, o gaúcho é um pedaço! Vou marcar mais duas sessões de VelaShape e uma esfoliação no rosto. O Kamura ficou de vir aqui também. Estou tão cheia desse meu cabelo.