O pintassilgo

Por André Conti

Foto: Gijsbert van der Wal

O pintassilgo, romance de Donna Tartt, vem causando alvoroço no mundo inteiro. Para além do gigantesco sucesso comercial — ele está há mais de quarenta semanas na lista dos mais vendidos do New York Times e foi best-seller em todos os países onde foi publicado —, O pintassilgo é um daqueles casos raros em que tudo que gostamos em literatura se encontra num único livro: numa escrita primorosa, Tartt conjuga arte, amor, suspense, aventura e drama. Não por acaso, O pintassilgo tornou-se também um retumbante sucesso de crítica, tendo arrancado elogios de resenhistas, escritores e leitores. Para coroar esse sucesso, recebeu ainda o prêmio Pulitzer de melhor romance, o mais prestigioso prêmio americano de literatura.

O pintassilgo é uma hipnotizante história de perda, obsessão e sobrevivência, um triunfo da prosa contemporânea que explora com rara sensibilidade as cruéis maquinações do destino. Theo Decker, um nova-iorquino de treze anos, sobrevive milagrosamente a um acidente que mata sua mãe. Abandonado pelo pai, Theo é levado pela família de um amigo rico. Desnorteado em seu novo e estranho apartamento na Park Avenue, perseguido por colegas de escola com quem não consegue se comunicar e, acima de tudo, atormentado pela ausência da mãe, Theo se apega a uma importante lembrança dela: uma pequena, misteriosa e cativante pintura que acabará por arrastá-lo ao submundo da arte. Espero que você aproveite a leitura como nós aproveitamos.

Leia um trecho de O pintassilgo (tradução de Sara Grünhagen).

* * *

I

Enquanto ainda estava em Amsterdam, sonhei com minha mãe pela primeira vez depois de anos. Já estava trancado no hotel havia mais de uma semana, com medo de ligar para quem quer que fosse ou de sair; meu coração disparava e vacilava com os ruídos mais inocentes: a campainha do elevador, o arrastar metálico do carrinho de minibar, até os sinos de igreja dando as horas, De Westertoren, Krijtberg, as badaladas um tanto sombrias, uma sensação intrincada de morte saída de um conto de fadas. De dia eu ficava sentado aos pés da cama me esforçando para tirar algum sentido das notícias em holandês na televisão (o que era inútil, já que eu não sabia uma palavra em holandês) e, quando desistia, sentava perto da janela e ficava olhando o canal com meu casaco de pelo de camelo por cima das roupas — pois eu tinha saído às pressas de Nova York e as roupas que levara não eram quentes o suficiente, mesmo num ambiente fechado.

Lá fora, tudo estava agitado e alegre. Era Natal, luzes piscavam nas pontes do canal à noite; dames en heren corados, os cachecóis balançando no vento gelado, desciam sacolejando pelas calçadas de pedras com árvores de Natal presas na traseira das bicicletas. À tarde, uma banda amadora tocava canções natalinas que ficavam suspensas no ar do inverno, metálicas e frágeis.

Bandejas de serviço de quarto caóticas; cigarros demais; vodca morna de free shop. Durante aqueles dias agitados de confinamento, fiquei conhecendo cada centímetro do quarto como um prisioneiro vem a conhecer sua cela. Era minha primeira vez em Amsterdam; não tinha visto quase nada da cidade, mas o quarto em si, com sua beleza sombria, açoitado pelo vento e esbranquiçado pelo sol, dava uma ideia fiel do norte da Europa, um modelo em miniatura dos Países Baixos: probidade caiada e protestante, misturada com um luxo exótico trazido do Oriente por navios mercantes. Passei uma quantidade absurda de tempo examinando cuidadosamente dois minúsculos óleos com molduras douradas pendurados sobre a cômoda, um de camponeses patinando num lago congelado perto de uma igreja, outro de um barco à vela balançando num mar agitado de inverno: cópias decorativas, nada especial, embora eu as tenha estudado como se tivessem, criptografada, alguma chave para o misterioso segredo dos velhos mestres flamengos. Lá fora, chuva e neve batiam contra as vidraças e caíam suavemente sobre o canal; e embora os brocados fossem finos e o carpete fosse macio, ainda assim a luz do inverno tinha um tom frio de 1943, privação e austeridade, chá fraco sem açúcar, ir dormir de estômago vazio.

Cedo pela manhã, enquanto as luzes ainda estavam apagadas, antes que os outros funcionários chegassem para trabalhar e o saguão começasse a encher, eu descia para pegar os jornais. Os funcionários do hotel moviam‑se falando baixinho e com passos silenciosos, os olhares me atravessando friamente como se não estivessem me vendo de fato, o americano no 27 que nunca saía do quarto durante o dia; e eu tentava me tranquilizar pensando que o gerente da noite (terno escuro, cabelo bem curto, óculos de armação de tartaruga) provavelmente faria o possível para evitar problemas ou um escândalo.

O Herald Tribune não trazia nada sobre minha situação, mas a história estava em todos os jornais holandeses, densas colunas de texto estrangeiro que se mostravam, cruelmente, fora do alcance da minha mente. Onopgeloste moord. Onbekende. Subi e voltei para a cama (totalmente vestido, pois o quarto era gelado demais) e espalhei os jornais sobre a colcha: fotos de viaturas, fitas de isolamento de cena de crime, até as legendas eram impossíveis de decifrar, e, embora não parecessem citar meu nome, não havia como saber se traziam uma descrição minha ou se ocultavam informações do público.

O quarto. O aquecedor. Een Amerikaan met een strafblad. A água verde‑oliva do canal.

Como estava com frio e doente, na maior parte do tempo sem saber o que fazer (eu tinha me esquecido de trazer um livro, assim como roupas quentes), ficava na cama quase o dia todo. A noite parecia chegar no meio da tarde. Com frequência — em meio aos ruídos dos jornais espalhados —, eu ficava oscilando entre dormir e acordar, e meus sonhos, em sua maioria, ficavam turvados por aquela mesma ansiedade indeterminada que escorria para as horas de vigília: processos judiciais, malas abertas na pista com minhas roupas espalhadas por toda a parte e corredores de aeroporto intermináveis por onde passava correndo para pegar aviões que sabia que jamais ia alcançar.

Graças à minha febre, tive um monte de sonhos estranhos e muito intensos, suando e me debatendo sem saber se era dia ou noite, mas na última e pior dessas noites sonhei com minha mãe: um sonho rápido e misterioso que pareceu mais uma visita. Eu estava na loja de Hobie — ou, mais precisamente, em algum espaço onírico e assombrado projetado como uma versão grosseira da loja — quando ela apareceu de repente atrás de mim, de modo que vi seu reflexo num espelho. Ao vê‑la, fiquei paralisado de felicidade; era ela, em cada detalhe, o exato padrão de sardas, e sorria para mim, mais bonita e nem um pouco mais velha, o cabelo preto e o trejeito engraçado da boca, não um sonho, e sim uma presença que enchia completamente o ambiente: uma força toda dela, uma alteridade viva. E, por mais que eu quisesse, sabia que não podia me virar, que olhar diretamente para ela era violar as leis do seu mundo e do meu; tinha vindo até mim da única forma que podia, e nossos olhos se mantiveram fixos um no outro através do espelho por um bom tempo ainda; mas quando ela estava prestes a falar — com o que parecia ser uma combinação de deleite, carinho, exasperação — uma névoa se formou entre nós e eu despertei.

Continue a leitura neste link.

9 Comentários

  1. Fatima Pombo disse:

    Acabo de ler e a impressão que me ficou é que será roteiro de filme americano em breve; a tradução está perfeita!

  2. vera disse:

    Já acabei de ler e gostei muito. Belíssimas descrições (de ambientes e personagens), ricas metáforas, acenos à cultura americana em quantidade, grande erudição da autora, enfim, valeu (uma ressalva, apenas, por ser um tanto prolixo no capítulo de Las Vegas).

  3. Rogerio Moraes disse:

    Concordo com o Galindo. A Sara fez uma senhora tradução para o Telegraph Avenue. E já estou com o NW na minha fila.

  4. Caetano W. Galindo disse:

    Tradução da grande Sara Grünhagen, que entre muitas outras coisas já fez consultoria de termos hebraicos na tradução do Ulysses!

  5. Luis Narval disse:

    Hotelzinho chinfrim este, pois não? Onde está o sistema de calefação? E livros em inglês você acha até na lua se procurar um pouco. Sem contar que pode comprar ou encomendar roupas apropriadas para o frio (lembrem-se que o protagonista está na Holanda, não no Caribe) em qualquer armarinho de esquina. Além do mais, como o protagonista podia saber que os jornais falavam de seu caso, já que, como ele afirma, não entende uma palavra de holandês? Enfim…
    Não sou partidário das assim chamadas “teorias da conspiração”, nada disso, mas toda vez que me deparo com situações como estas, em que um romance, quando muito, razoável, escrito como tantos e cada vez mais “à americana”: enfadonhamente caudaloso, dicção desleixada e óbvia, mote apelativo e incongruente, ritmo alucinante/alucinado, desfecho previsível, sou levado a concluir que existe mesmo alguma força sinistra e poderosa operando nos bastidores. Porque, apesar do gosto duvidoso de grande parte do público leitor de livros de gênero – um público, diga-se de uma vez, educado desde os “cueiros” pela linguagem televisiva e, consequentemente, vítima inerme da ditadura do marketing aí inserida, que estabelece preferências e comportamentos -, semelhante “fenômeno” editorial não comporta uma explicação natural. Não pode haver, é logicamente impossível que haja um consenso tão avassalador por parte da dita “crítica especializada” como esse que se veicula. É parcial demais. É unânime demais. É orientada demais. É burra demais. Toda vez que me deparo com tal fato, me vem à mente uma passagem perturbadora de “1984”, de George Orwell. Aquela em que ele cita, logo no primeiro capítulo do romance, que havia no Ministério da Verdade, entre outras coisas, um departamento responsável pela literatura. E que esta, filtrada e ajustada de acordo com as diretrizes malignas do Partido, era produzida por uma “máquina romanceadora” e em seguida distribuída com grande alarde para a população. Parece, para nossa desgraça, que mais uma das muitas “profecias” de 1984 está a se realizar.

  6. Não deixo meu exemplar de lado desde que comprei, a toda hora que posso leio nem que seja um parágrafo. Já estou na penúltima parte e sei que vou sentir falta quando terminar.

  7. Leila Gonçalves disse:

    Excelente romance, li em apenas quatro dias e parabéns pela resenha.

  8. Rogerio Moraes disse:

    Estou na página 307. Felizmente ainda há umas 400 páginas pela frente.

  9. sergio benatti disse:

    Já comprei o meu! Os outros romances dela, “A História Secreta” e “O amigo de Infância”, são excelentes. Obrigado, Companhia das Letras!

Deixe seu comentário...





*