Os mentirosos

Por Emilio Fraia


Acho que o cronista que mais li na vida foi o Mario Prata. Quando ele começou a publicar seu James Lins, o playboy que não deu certo, folhetim encartado às quartas, sábados e domingos n’O Estado de S.Paulo, eu tinha onze anos. Durante o fim de 1993 e os primeiros meses de 1994, não perdi nenhum dos 36 capítulos da história, que terminavam sempre com aquele típico gancho do gênero, algo em suspenso, pâm-pâââmmm, a promessa de continuação.

A experiência era também como a exumação de um cadáver. Largada numa curva dos anos 60 (pós-Asfalto selvagem, do Nelson Rodrigues, que foi sucesso no Última hora entre 1959 e 60), a ficção em capítulos havia migrado para a tevê e nunca mais voltaria às páginas dos grandes jornais. Meu pai, que lia a história comigo, me explicava o que era um folhetim (do jeito que provavelmente vamos falar aos nossos filhos sobre o orelhão e a videolocadora) e tentava dirimir com naturalidade/respostas técnicas minhas eventuais dúvidas (“pai, o que é ‘michê do Trianon’?”; “o que é 69?”).

De saída, ficávamos sabendo que James Lins, 51, “golpista, simpático, mulherengo, mentiroso”, havia sido condenado a trinta e dois anos de prisão. Mas qual teria sido o seu crime? Essa pergunta — e se o personagem ficaria ou não com a Teka, seu amor de juventude — era o que alavancava a ação. Ou melhor, a enrolação. No folhetim, tudo é postergado, o tempo todo, o que pode nos levar à ruína, sofrimento e morte. No caso do Prata, porém, esse procrastinar narrativo esbanjava simpatia, era também alvo das ironias do autor, e nos carregava por situações maravilhosas como a da freira que comia os próprios seios (na verdade, James Lins disfarçado, com duas mortadelas debaixo do hábito) ou a das estalactites de esperma no teto do vestiário feminino do clube da cidade. (Em tempo: no departamento dos truques, lenga-lenga e macetes narrativos típicos do gênero, nosso herói se chama Alexandre Dumas, criador de um personagem, o criado Grimaud que, taciturno, só respondia em monossílabos — porque os jornais da época pagavam por linha.)

Meu interesse pela história do James Lins, “playboy dos Jardins que gostava de loiras oxigenadas de vida duvidosa”, tinha ainda um elemento adicional: o fato de o personagem ter nascido na cidade da minha mãe, Lins, no interior de São Paulo — que é a cidade do Mario Prata também. Eu sabia muito pouco sobre Lins. Depois que minha mãe nasceu, meus avós logo se mudaram para São Paulo; eu não tinha parentes por lá, nada. Acompanhar o folhetim, então, fazia com que eu criasse uma ideia da cidade, que se tornou, para mim, a das sessões de Juventude transviada, no Cine Sebastião; dos carnavais no Linense; de amigos cujos apelidos eram Bambolê, Chinesinho e Pintassilgo; do James Lins que “andava de preto, usava topete, mascava chiclete, tomava Coca-Cola com Melhoral e ficava doidão”.

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Para mim, e ainda no terreno da memória afetiva, a história do Prata se ligava a uma outra, igualmente picaresca, até hoje meu livro preferido da infância: As aventuras do Barão de Munchausen. Havia algo de James Lins nas proezas contadas pelo Barão, que andara por São Petersburgo, Cairo, Londres, pelo Ceilão, África e uma infinidade de outros lugares.

Em ambas as histórias, os autores diziam ter conhecido seus personagens. O Mario Prata era “amigo de infância” do mentiroso James Lins (que em determinado momento da trama, aliás, se rebelava e passava a escrever o folhetim no lugar do Prata, afastado pela direção d’O Estado de S.Paulo). O Barão de Munchausen, por sua vez, parece realmente ter existido — quem somos nós para duvidar. Nasceu em 1720, foi tenente, capitão de cavalaria, serviu num regimento russo e teria lutado em duas guerras turcas. Depois de doze anos de serviço militar, aposentou-se. Nas recepções em sua casa em Hanover, na Baixa Saxônia alemã, gostava de entreter amigos e convidados com as histórias de suas aventuras, caçadas e viagens a terras estrangeiras.

Era exímio caçador, e entre seus relatos (não raro, politicamente incorretos, como os do James Lins) estava o da vez em que se viu diante de uma “esplêndida raposa negra, cuja pele valia demais para que a danificasse com uma bala” e não encontrou outra saída que não: chicotear o animal até que ele saltasse para fora da própria pele. Entre os ouvintes desse e de outros causos, a lenda conta, estava o bibliotecário e cientista Rudolf Erich Raspe (1737-1794), a quem se atribui a autoria das aventuras do Homem de Munchausen.

As primeiras histórias do Barão foram publicadas anonimamente em forma de anedotas, entre 1781 e 1783, numa revista chamada Vade Mecum für lustige leute (Manual para pessoas divertidas). Depois, acrescidas de mais relatos, viraram livro, A narrativa do Barão de Munchausen, de suas maravilhosas viagens e campanhas na Rússia. Originalmente, não foram escritas para crianças. Mas quem é que tem controle sobre essas coisas? “Kipling dedicou sua vida a escrever em função de determinados ideais políticos, quis fazer de sua obra um instrumento de propaganda e, no entanto, no final da sua vida teve que confessar que a verdadeira essência da obra de um escritor costuma ser ignorada por este; e lembrou o caso de Swift, que ao escrever Viagens de Gulliver quis levantar um testemunho contra a humanidade e deixou, no entanto, um livro para crianças”, escreveu Borges num ensaio do seu melhor livro, Discussão.

Meu episódio preferido das narrativas do Barão é uma das cenas clássicas da história da literatura, e quem me contou foi (de novo) meu pai, antes mesmo de eu ler o livro. A cavalo, Munchausen parte em viagem a Rússia, em pleno inverno. Errando à noite, pela escuridão, com o campo coberto de neve, decide parar para descansar. Está num lugar deserto, não se vê nada, apenas quilômetros de branco. Desmonta e amarra o animal a “uma coisa que despontava na neve, um tronco pontudo de árvore”. Deita agarrado a uma de suas pistolas (medida de cautela) e dorme “tão profundamente que só abre os olhos em plena luz do dia”. Quando acorda, tudo mudou: está no meio de um vilarejo, no pátio de uma igreja, e ouve seu cavalo relinchar num lugar distante, alto.

Olhando para cima, vê o bicho pendurado, pelas rédeas, na cruz da igreja. “Aí tudo ficou muito claro”, afirma, “durante a noite, o vilarejo tinha sido coberto de neve; mas acontecera uma súbita mudança no tempo; eu fui afundando devagar até o pátio da igreja enquanto dormia; e aquilo que, no escuro, eu tinha pensado ser o toco de uma árvore despontando acima da neve onde tinha amarrado meu cavalo, provou ser a cruz ou o catavento da torre da igreja!” (Tradução de Ana Goldberger, na edição da Iluminuras).

Há uns dois meses, participei de um bate-papo com o Mario Prata no Sesc Pinheiros. Contei a ele a história acima, de quando li o James Lins. Ele me falou do seu livro novo, que deve sair em breve. É uma série de entrevistas. O Prata encontrou e conversou com gente como o Aleijadinho, Pedro Álvares Cabral, o Bispo Sardinha, Ruy Barbosa, Anchieta (papo que aconteceu no Boteco das Ostra — assim mesmo, sem o plural —, na praia de Iperoig), o Carlos Gomes, a Marquesa de Santos, entre outros. Com o Cabral, aliás, além de revelações sobre o Descobrimento, um dos assuntos foi o Paulo Maluf — o tipo de coisa que o Munchausen aprovaria.

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Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Escreveu para as revistas como serrote, piauí e Bravo!, e foi editor de ficção da editora Cosac Naify. Em 2012, fez parte da edição da revista britânica Granta dedicada aos melhores jovens escritores brasileiros. Atualmente, dirige a revista Trip e contribui com uma coluna mensal para o blog.

Um Comentário

  1. Mario Prata disse:

    Barão,
    o Antonio me mandou você e o James.
    Você não sabe como é gratificante ser reconhecido por essa nova geração de colegas.
    Um beijo enorme, querido.
    Prata, pai

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