A presença do poeta

Por Elisa von Randow


Foto: Paulo Ricardo

Toda poesia alcançou os 100 mil exemplares vendidos. Desde seu lançamento, em fevereiro de 2013, esse catatau que reuniu pela primeira vez a obra poética completa de Paulo Leminski está entre os livros mais procurados nas livrarias brasileiras. O que está por trás desse fenômeno que surpreendeu o mundo editorial? A excelência dos versos é inegável, assim como seu alcance pop. A carência das edições originais nas livrarias é um fator que, sem dúvida, deu fôlego às vendas. Por mais que especulemos, contudo, é impossível dar conta do sucesso estrondoso de uma obra que, até então, era associada à cultura marginal. “Leminski é um mistério. Não sei o que ele fez lá em cima. Não consigo entender, poesia vender 100 mil exemplares é uma loucura”, disse Charles Peixoto, colega de geração do Leminski, durante uma mesa da última FLIP. Sim, uma parcela da responsabilidade deixamos reservada aos poderes transcendentes do samurai malandro. E outra parcela gostaríamos de dedicar à Elisa von Randow, que emprestou sua genialidade ao projeto gráfico e conquistou a todos com o “bigodón”. Leia abaixo o depoimento da capista de Toda poesia, que conta em detalhes como foi esse processo de criação.

(Sofia Mariutti, editora da Companhia das Letras)

* * *

Quando recebi o convite para desenhar o livro de poemas reunidos de Paulo Leminski, fiquei super entusiasmada. Teria a oportunidade de conhecer melhor a obra do poeta e reler os tão queridos versos.

Gosto de dizer que as ideias para se fazer uma capa partem do próprio livro. Durante a leitura, as imagens vão surgindo e a cabeça começa a trabalhar. O estilo do autor, a trama e o tom da narrativa inspiram uma cor, uma tipografia própria; uma passagem do livro faz lembrar uma fotografia, outra dá vontade de desenhar e, assim, a imaginação vai trabalhando, fazendo layouts imaginários.

Ao ler e reler os poemas, duas ideias visuais dominavam a minha tela mental: a letraset e o nanquim. Uma das características notáveis desta geração de escritores era a urgência da autopublicação, o faça você mesmo, a limitação gráfica usada com criatividade e liberdade. Resgatei da gaveta uma cartela vintage de letraset, adquirida há alguns anos na fabulosa papelaria Hilsco, e comecei a brincar. A própria cartela seria o partido gráfico da capa. Fiquei super feliz com o resultado.

Mas o retorno dos editores foi: “Gostamos, mas falta alguma coisa”.

De volta à folha em branco, hora de fazer a festa do nanquim. Grandes manchas transparentes e coloridas aproximavam o livro à paixão de Leminski pelo oriente e pela beleza que as coisas mais cotidianas podem ostentar. Achei o resultado bonito e fresco. Escolhi uma tipografia delicada, ao mesmo tempo forte e clara, que valorizava o nome do poeta

E de novo, a resposta foi: “Está legal, gostamos, mas falta alguma coisa. Você poderia fazer mais alguns estudos?”.

Nessa hora, a gente fica sem saber o que fazer… Testar novas cores? Rever a tipografia? Fazer uma nova pesquisa de imagens?

Logo no começo deste processo, como sempre faço, pesquisei algumas imagens relacionadas ao autor. Escolhi e imprimi dois retratos do poeta curitibano e colei-os na parede, ao lado da minha mesa de trabalho. Ali estava Leminski, observando tudo quietinho….

Entre idas e vindas, quase dois meses se passaram desde a primeira reunião, um tempo longo, já que o prazo normal para desenhar uma capa seria algo entre 15 e 20 dias… “E agora, Leminski? Por onde sigo?” Perguntei àquele cara de flor na orelha e bigodão espetacular…

B I G O D Ã O !!! E foi aí que Leminski me deu uma piscadela!

Pronto: foi pegar o pincel e a tinta nanquim e, da forma mais espontânea possível, nasceu o desenho e o lettering. Em poucos minutos, ali estava a capa pronta.

Era o que faltava, a presença carismática do próprio poeta, o samurai malandro. Daí foi vestir a capa de laranja e o resto da história vocês já conhecem!

Por fim, o nanquim invadiu também o miolo do livro. Posicionados um a um, respingos de tinta separam delicadamente um poema do outro.

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Elisa von Randow é designer e ilustradora, trabalha com projetos editoriais e culturais. Entre 2001 e 2008 integrou a equipe da Máquina Estúdio, na qual produziu capas e livros premiados. Em 2009, inaugurou sua primeira exposição individual, Nada está em seu lugar, com desenhos, fotos, colagens e gravuras.

5 Comentários

  1. Fátima Do Coutto disse:

    Adorei ler a explicação sobre o processo. O resultado é fabuloso. Parabéns, Elisa.

  2. Antonio Palma disse:

    Perfeito!

    Trabalho e relato brilhantes!

    Parabéns, Elisa!

    É difícil alguém mostrar tão amplamente esse passo a passo criativo.

    Só alguém tão bom quanto Leminski, mesmo…

  3. Uma das melhores capas dos últimos tempos! Parabéns! Acompanho sempre seu blog e site, Elisa!

  4. Parabéns pelo trabalho! É uma das minhas capas favoritas.

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